Crônica

Para ler com os ouvidos

Por: Cris Guerra - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Devo confessar: fui uma das críticas do processo de revitalização da Savassi. Suportar por um ano e dois meses uma obra que em muito afetou a rotina de uma região central da cidade, e que acabou por prejudicar muitos lojistas locais, não foi exatamente um prazer. Para mim, não significou um grande transtorno, mas eu me colocava no lugar de quem estava ali todos os dias, de quem dependia da agilidade da obra para ganhar a vida. E não conseguia entender — como ainda não entendo — o que fez uma reforma aparentemente simples nos tomar tanto tempo e dinheiro.

Quando passei de carro pela Avenida Cristóvão Colombo pela primeira vez depois da obra concluída, impressionaram-me os enormes totens que nomeavam as ruas e a própria praça, que pouca gente sabe chamar-se Diogo de Vasconcelos. Os catorze meses de transtorno pareciam ter sido uma volta no tempo, e não um avanço. Esteticamente, o projeto soa ultrapassado.

Ainda assim, devo admitir: concluída a famigerada obra, senti um grande prazer ao caminhar pela região. Em meu primeiro passeio a pé pela Savassi depois de revitalizada, deparei com o som de dois violões no quarteirão fechado da Rua Pernambuco, entre a Avenida Getúlio Vargas e a Rua Tomé de Souza. Não precisei olhar para o palco para ser tomada por uma alegria inexplicável. Ali, naquela rua transformada em calçada, as cordas desenhavam uma harmonia de que os totens não foram capazes. E as mesinhas repletas de gente coloriam a cena. Estava ali a verdadeira revitalização.

Naquela tarde de chorinho na praça, observei tudo com um olhar diferente. Ao som dos violões, vi as pessoas sem pressa que nos habitam os sábados, como se tivessem deixado os problemas em casa. O chorinho tem esse poder de musicar as dores e deixá-las mais bonitas. Ali naquelas me­­sas elas molhavam a palavra, e não o rosto, colocando melodias em suas eventuais tristezas. O conjunto era poesia.

Francisco, meu filho de 5 anos, adora passear por ali. Não raro ele me pede para tirar os sapatos, atraído pela sensação de molhar os pés na fonte. E as fontes, diga-se de passagem, são uma trilha sonora à parte.

Gosto de pensar nas músicas como se elas fossem um lugar. O mesmo onde moram os sonhos e lembranças que engrossam as páginas da história de nossa vida. Mas não as enxergo como su­­bstâncias de passado ou futuro. As notas são como perfume, dando vida e textura àquilo que não pertence ao tempo. São as canções, muito mais que os lugares, que me transportam para sensações das quais o som do dia a dia chega a me anestesiar. Envolvida pela música, desperto para amores que sinto, saudades e verdadeiros aprendizados. Quando há boa música no ambiente, é outra a atmosfera e bem diverso o que sou capaz de ver e observar.

Entendi então que um projeto não é bonito por si só, sem as pessoas e as ocasiões para as quais ele foi feito. Entre os habitantes da Savassi, a música chegou para ficar, harmonizada com o barulho da água caindo, que nos conduz a uma certa calma no meio da rotina — por sorte, a obra foi concluída em dias quentes de outono, dando às pequenas cascatas um destaque ainda maior.

O sentido da praça mora em quem passa por ali. Mais que isso: mora em quem passa e fica — porque a praça é do povo, como disse o poeta.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE