Crônica

O mar

Por: Cris Guerra - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Meu sono ia profundo, alçando-me a lugares desconhecidos, ba­­talhas improváveis e problemas fantasiosos, desses que fazem a realidade parecer leve. Ainda de madrugada, um barulho de mar pôs fim ao longo caminho que eu percorria. Mais alguns minutos e eu já estava de pé, consciente das montanhas à minha volta e conformada com outro fato: era preciso ir trabalhar.

O corpo foi, mas o mar ficou em mim. O mar e seu universo de significados, imersos num azul obscuro, misterioso, imenso, ameaçador. Um céu de águas com suas irresistíveis possibilidades a cantar feito sereias o seu poder sobre mim.

Lembro de cada chegada à praia quando pequena, sempre em janeiro. Quando eu ouvia o barulho das ondas, já imaginava uma velha e simplória mulher de plantão a cuidar de uma espécie de torneira que as controlava. Gostava de acreditar naquela história inventada por minha mãe, como se a explicação simplificasse as coisas e tornasse a força do oceano menos assustadora e mais humana.

Viver longe do mar faz dele um mito ainda mais forte, como se a cada chegada a um pedaço de litoral, mesmo que a trabalho, a presença daquele azul fosse como um céu à parte.

Não mexo com ele, o deus-mar, entidade que me aconselha em sussurros de calma, diante da qual me calo a ouvir meus medos e esperanças gritar. O mar é de fato um outro céu, de um azul esperto que esconde vidas quase tão misteriosas e mágicas quanto as que imaginamos haver - ou não - no céu que nos protege.

A bem da verdade, tenho por ele um respeito resignado: não me atrevo a aventuras destemidas nem me jogo em seus braços cegamente confiante. Confio mesmo é em seu som de ir e vir, que me embala e aconselha como a um bebê sem mãe.

Recheado de pensamentos azuis, o dia passou e logo eu estava de novo entregue ao sono. Dessa vez não embarquei em pesadelo algum, nem em sonhos de fadas. Mas o mar me acordou de novo, contando histórias sobre mim. Abri os olhos no meio da noite e compreendi: era o ventilador ligado bem ao meu lado, no fim de mais um daqueles dias em que o calor não se põe com o sol. A soma do som do vento com o mo­­vimento giratório do aparelho reproduzia o vaivém das ondas à perfeição.

E do calor fui transportada para praias distantes, de tempos ainda mais longínquos, em que eu, criatura sem mar, degustava os primeiros perigos da vida e tentava arcar com eles, voltando sempre com a pele ardida e um gosto de sal na garganta.

Lembrei de uma amiga a comentar o calor esfuziante que começou há alguns meses, quando ainda nem era verão: "O problema não é o excesso de calor. É a falta de mar". Talvez a falta da brisa, eu diria. Porque em mim habita um mar profundo e azul-escuro, cheio de perguntas que mergulham feito golfinhos para mais tarde voltar à superfície. Um mar alto e quase sem praia, em que é preciso nadar o tempo todo e manter-se alerta. Talvez eu apreciasse uma maré bem baixa de vez em quando, dessas que nos preparam uma longa e calma praia, onde curtimos a areia molhada fazendo castelos, confiantes em que as ondas só virão brincar conosco e nos fazer carinho.

O mar que me habita é sem descanso.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE