Crônica

Rituais

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
Atílio/Veja
(Foto: Redação VejaBH)

Deve ser muito bom poder tirar férias de mim. Como não tenho esse privilégio, guardo para o meu amor a alegria de conviver com minha ausência periodicamente.

Da vida a dois, aprendi que a falta é tão importante quanto a presença. Pode parecer frieza. Prefiro chamar de sabedoria. Há outras formas de estar junto, tão intensas quanto o olho no olho. Um bilhete ao lado das chaves do carro, bem na hora de sair de casa. Uma mensagem lá de longe para dizer que o pensamento está perto. Gestos bobos que são costumes divinos, cujo cultivo tenho gosto em praticar.

As tradições se afastaram de mim tão logo nasci. Em minha vida, como no dicionário, nascimentos sucederam mortes, dando aos desfechos certo gosto de vitória.

Paradoxalmente, ao fugir dos lugares-comuns, encontrei significado nos rituais. Alguém me disse um dia que para o amor era fundamental a cerimônia - o que ouvi indignada. Foi preciso mais um bom tempo até compreender.

Cerimônia é guardar o melhor para o outro. É permanecer humano, sim. Mas exercitar o sagrado gesto de guardar as mazelas para si - sempre que possível. Quando houver motivo para dividir os insucessos, medos e tristezas, o outro se encarregará de desvendá-los. Ou não fará sentido estar junto.

O casamento é um ritual que aprecio, embora incoerente: parece funcionar como permissão para que se abandonem todos os outros. Depois de tanta expectativa e cuidado com os detalhes, a vida perde a compostura e invade a festa como um tsunami. O amor afoga-se num canto, emaranhado nas rusgas do cotidiano, e os problemas que eram só do outro tomam espaço no armário conjunto. Entre afazeres, documentos, maus humores e louça suja, a celebração do afeto não encontra mais espaço - ele está tomado pela rotina.

Sim, construções são feitas dia a dia. Contudo, é preciso perspicácia para fugir das armadilhas do cotidiano.

Guardo segredos até de mim mesma. Treino o respeito ao que pertence só ao outro - quem sobrevive ao sol ardente, sem sombra ou refresco?

Sabe a sensação de ser bem recebido num hotel cinco-estrelas? O mensageiro o acompanha até o quarto e abre as janelas, põe a TV para funcionar e lista os serviços que estão à sua disposição. Depois você fecha a porta com a certeza de ser especial. Mesmo que saiba que ele vai fazer o mesmo por todos os outros que ali se hospedarem. Há algo especial no ritual de tratar bem.

Não existe receita para trazer de volta o aroma das flores do campo. E o mistério e o encanto são justamente este: receber o outro a cada dia como se fosse um novo hóspede.

Eu faço assim: a cada vinda dele ao meu mundo, abro a porta, afofo a cama, trago o jantar na bandeja, sirvo um espumante para comemorar nada. Reservo toalha branca para o banho quente, invento um sorriso novo, deixo bombom sobre o travesseiro na hora de dormir.

O carinho de me guardar para o outro é o mesmo que reservo para mim. Alimento a esperança de amanhecer diferente, capaz de fazer a mim mesma uma surpresa. Para que a vida me seja fresca e encontre sempre um novo sentido ao lado dele.

"Jamais abandone os rituais", alguém me disse recentemente. E eu ouvi.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE