Comportamento

Deixamos trinta carteiras recheadas com dinheiro pela cidade para testar a honestidade dos belo-horizontinos

Surpresa: a maioria delas foi devolvida intacta, com todos os pertences dentro

Por: João Renato Faria - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Exemplo para o filho

De férias, o advogado Carlos Augusto Gontijo saiu para dar uma volta de bicicleta com o filho Antônio, de 8 anos, na Praça Duque de Caxias, no Santa Tereza. Durante o passeio, viu a carteira em um dos bancos. Perto dali estava um policial militar, com quem poderia ter deixado o achado. Mas Gontijo preferiu agir de outro modo. "Eu quis entregar a carteira ao dono para ensinar o valor da honestidade ao meu filho", diz.

C inco séculos antes de Cristo, o filósofo chinês Confúcio já tentava definir o que é honestidade - e falar aos povos do Oriente sobre a importância dessa virtude para a vida em sociedade. Em Os Analectos, o único livro que os biógrafos reconhecem como um registro legítimo de suas ideias, o conceito aparece sempre associado à reciprocidade: "Não faças aos outros o que não queres que te façam". Para Confúcio, um homem profundamente honesto é aquele que não pensa em satisfazer o interesse próprio. Movido pelos princípios da moral e da justiça, ele se põe no lugar do outro para nortear suas atitudes. Se visitasse Belo Horizonte nos dias atuais, o filósofo - cujos pensamentos sobre o comportamento humano moldaram a história da China - encontraria por aqui muitos discípulos. Entre os dias 9 e 16, VEJA BH "perdeu" trinta carteiras para testar a honestidade dos belo-horizontinos. Recheadas com 70 reais em notas variadas e algumas moedas, documento de identificação e cartões de visita, elas foram deixadas em endereços espalhados por toda a cidade, como praças, museus, bancos, clubes, shoppings e estádios (veja abaixo). Por questão de segurança, os documentos e os cartões de visita eram falsos. Mas o telefone de contato era verdadeiro, um dos números da redação da revista. Das trinta carteiras distribuídas, dezenove foram devolvidas - dezesseis delas intactas. Ou seja: a maioria manteve-se firme no caminho da virtude.

"Eu não poderia jamais ficar com algo que não me pertence", afirmou o morador de rua Elias de Castro. Ele veio de Vitória e está há um mês na cidade, atrás de um emprego. Entrou no Museu de Artes e Ofícios, na Praça da Estação, pensando que ali era uma igreja, e deu de cara com uma das nossas carteiras. Mesmo precisando do dinheiro, não pensou duas vezes antes de procurar um segurança do lugar e pedir ajuda para fazer contato com o dono do objeto. Usando o telefone do museu, avisou que o deixaria lá, com o vigilante Kléber Nicolau da Silva. Em sua busca por oportunidades na capital mineira, não sabia dizer onde estaria no dia seguinte. No time desses belo-horizontinos honestos, aqueles que fizeram questão de entregar o achado, há todo tipo de gente, de advogados e empresários a pessoas simples como o andarilho capixaba. O que mostra que saber distinguir o certo do errado não tem, necessariamente, relação com nível de escolaridade ou status social.

O resultado do teste feito por VEJA BH surpreendeu especialistas em comportamento e policiais. Além das dezesseis carteiras entregues exatamente como foram deixadas, com os 70 reais, uma voltou com 50 reais e outras duas, sem dinheiro algum. "Foi um índice excelente e mostra que existe muita gente disposta a fazer sua parte", diz o coronel Alberto Luiz Alves, chefe de comunicação da Polícia Militar. Quem perde uma carteira com documentos e dinheiro não costuma ter esperança de reavê-la. Nessa hora, pesa a má fama do "típico brasileiro", o sujeito que quer levar vantagem em tudo e se satisfaz com uma desculpa fácil: achado não é roubado. Nos Correios, onde a cada dia são entregues, em média, 94 documentos, não é raro os atendentes receberem carteiras recheadas. O dinheiro é colocado em um envelope e fica grampeado aos documentos do dono. As carteiras propriamente ditas são descartadas, por uma questão de espaço. Raro é que o recheio delas seja procurado ali. Entre 34 000 cédulas de identidade, CPFs e títulos de eleitor entregues à instituição em Belo Horizonte ao longo de 2013, apenas 1 370 foram reclamados pelos res­pectivos donos.

Segundo o psicólogo e professor da Universidade Federal de Minas Gerais Cláudio Paixão, o resultado do teste de VEJA BH revela que, ao contrário do que diz o senso comum, o princípio de honestidade defendido desde os tempos de Confúcio é um valor respeitado pela maior parte da população. "A ideia de fi­­car com o que não lhe pertence deve dar até repulsa a quem de­­volveu as carteiras", afirma. Como diria o compositor fluminense Dicró, parafraseando um dito atribuído ao filósofo grego Sócrates, malandro, se soubesse quanto é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem.

Leia mais: + O recheio da isca

Preocupação com a vítima

Vinte e quatro horas depois que a carteira foi deixada na frente da Igrejinha da Pampulha, o veterinário Thiago Amaral e sua mulher, Ana Paula, passaram por lá com os boxers Mandrake e Amora. A carteira no chão chamou a atenção do casal. Nela só estavam um documento e cartões de visita. "Imaginei que o dono tivesse sido assaltado, porque não havia dinheiro nem cartão de crédito", conta ele. Na hora, lembrou-se do pai, que viveu essa experiência e conseguiu reaver os documentos. Fez questão de procurar a vítima. "Às vezes, os documentos são mais importantes que o dinheiro."

Quando ninguém está vendo

Funcionário da Assembleia Legislativa, Igor Mauad de Castro já perdeu uma carteira na rua. Mas conseguiu reavê-la com todos os pertences, inclusive dinheiro, porque ela foi encontrada por alguém correto que fez questão de procurá-lo. Quando achou nossa carteira na escadaria do saguão principal da casa, seguiu o exemplo do seu benfeitor. Ligou imediatamente para o dono. "É fácil posar de honesto perto das outras pessoas", diz. "Mas é preciso fazer o certo também quando não há ninguém nos vigiando."

Victor Schwaner/Odin
(Foto: Redação VejaBH)
Sem tentação

Assistente administrativa do Parque Municipal, Camila Gasparini voltava para o trabalho, depois do horário de almoço, e resolveu cortar caminho passando por dentro da Igreja São José. "Vi a carteira em cima de um dos bancos", conta. Os 70 reais - valor exato de uma passagem de ida e outra de volta para João Monlevade, onde moram os pais, que não vê há várias semanas - não foram tentação. "Mesmo que fossem 700 reais, eu nunca poderia ficar com o que não é meu."

"É automático"

O segurança Nilson Vieira vive encontrando carteiras no lugar onde trabalha, o Minas Tênis Clube. Algumas com valores que fariam diferença no seu orçamento doméstico, de cerca de 1 000 reais mensais. "Com 70 reais, eu compraria o gás", exemplifica. Ele, porém, nunca pensou em ficar com nada que achou. "Procurar o dono é automático para mim."

Lição de berço

"Honestidade é um valor que aprendi no berço", diz a administradora de empresas Eunícia de Oliveira. No dia16, ela encontrou pela primeira vez a carteira de alguém. Estava na feira do Mineirinho e deixou as compras de lado para sair à procura do dono. A noção do que é certo e do que é errado é a lição que deixará para os próprios filhos.

Onde deixamos as carteiras

Devolvidas

Escada do Shopping Pátio Savassi

Banco da Igreja São José, no Centro

Mesa do bar Baiana do Acarajé, na Savassi

Corredor do Supermercado Verdemar, no São Pedro

Saguão do Museu de Artes e Ofícios, na Praça da Estação

Banco da Igreja Universal do Reino de Deus da Avenida Olegário Maciel

Orla da Lagoa da Pampulha

Portaria do Clube dos Oficiais da PMMG, no Prado

Banco da Praça Duque de Caxias, em Santa Tereza

Agência do Banco do Brasil, no Gutierrez

Portaria do Minas Tênis Clube, em Lourdes

Feira do Mineirinho, na Pampulha

Saguão da Assembleia Legislativa, no Santo Agostinho

Portaria da Câmara Municipal, em Santa Efigênia

Sala de espera do Hospital Felício Rocho, no Barro Preto

Banco de ônibus da linha 3051 (Savassi-Flávio Marques Lisboa)

Museu de Ciências Naturais da PUC Minas

Corredor do Minas Shopping

Saguão do Hotel Ouro Minas, no Ipiranga

Não devolvidas:

Café do Cine Belas Artes

Banco da rodoviária

Banco traseiro de um táxi

Coreto da Praça da Liberdade

Estação do Metrô Santa Tereza

Escadaria da Praça do Papa, no Mangabeiras

Praça de Serviços da UFMG, na Pampulha

Banco do Aeroporto da Pampulha

Mesa do restaurante A Granel, no Coração Eucarístico

Café do Palácio das Artes, no Centro

Banco da Praça Sete, no Centro

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE