Cidade

Determinados, persistentes e até inconvenientes, eles estão na linha de frente das discussões com o poder público

Quem são os dirigentes das associações de bairro que lutam para resolver problemas e alterar projetos que afetam os moradores

Por: Luisa Brasil - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)

A publicitária Patrícia Caristo sabe que a menção de seu nome provoca arrepios nos corredores da prefeitura de Belo Horizonte. E que muitos por lá a consideram uma chata, chatíssima. Ela não liga e até se orgulha da fama adquirida. "Só os chatos conseguem as coisas", diz. "São eles que têm coragem para confrontar e questionar." Patrícia é dessas pessoas que estão sempre engajadas em alguma causa. No ano passado, integrou o Fica Fícus, um movimento contra a derrubada das árvores centenárias do bairro Santa Efigênia. De tanto pressionar, o grupo conseguiu poupar os espécimes contaminados pela praga da mosca-branca: a administração municipal voltou atrás na decisão e resolveu investir em um tratamento alternativo contra a chaga. A publicitária está à frente da Associação dos Cidadãos do Bairro Cruzeiro, criada em 2011, que conseguiu engavetar um polêmico projeto para transformar o mercado distrital em um empreendimento comercial com shopping center e hotel. Os dois

casos nos quais ela se envolveu são provas de que a população consegue, sim, interferir nos rumos da cidade — mas, para isso, tem de fazer barulho. Cada vez mais articuladas, as associações de bairro se tornaram uma espécie de megafone para os interesses dos moradores. Entre os episódios mais recentes, há pelo menos três grandes projetos emperrados na capital por causa dos questionamentos dessas entidades: o centro administrativo municipal, na Lagoinha; a escola técnica da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), no Santa Tereza; e a primeira Operação Urbana Consorciada de Belo Horizonte, que propõe intervenções ao longo das avenidas dos Andradas, Antônio Carlos e Pedro I. Uma ação mais que legítima, segundo a cientista política e professora da UFMG Cláudia Feres Faria. "Os líderes desses movimentos não querem desestabilizar o poder, e sim pedir prestação de contas e respeito à opinião pública", afirma.

Ser dirigente de uma associação de bairro é tarefa ingrata que se assemelha, em escala muito maior, à de um síndico. É trabalho que normalmente ninguém quer realizar e exige um bocado de determinação, principalmente para cobrar respostas. "Conheço a maioria dos secretários, o pessoal da BHTrans, da regional...", enumera o engenheiro aposentado Ricardo Jeha, presidente da Associação de Moradores do Belvedere. Durante a entrevista para esta reportagem, ele fez questão de ligar para a empresa que administra o trânsito e os transportes na capital para reclamar da falta de reparo em uma placa. Também é preciso ter disposição para participar de inúmeras reuniões com moradores e autoridades, audiências públicas e passeatas, entre outros compromissos. "Levanto antes de o sol raiar para dar conta de tudo", diz Fernando Santana, presidente do Movi­­mento das Associações de Mora­­dores de Belo Horizonte. Sim, existe uma "associação das associações", que reúne cerca de cinquenta entidades para compartilhar experiências no combate aos problemas comuns.

As organizações de bairro funcionam, na prática, como uma central de reclamações que direciona as demandas dos moradores para os órgãos competentes. Considerada uma das mais articuladas da cidade, a associação do Belvedere venceu, recentemente, uma batalha contra a instalação de helipontos por lá. "Nós nos unimos ao pessoal do São Bento e do Santo Agostinho e conseguimos que o conselho aprovasse uma regra bem restrita", conta o presidente. Em outubro de 2013, o Conselho Municipal de Política Urbana (Compur) publicou uma norma que proíbe a instalação de helipontos em onze regiões da cidade, entre elas o Belvedere. Unir-se às entidades vizinhas também foi a tática usada pelos moradores do Calafate para convencer o poder público a desistir da construção de um terminal rodoviário que havia sido planejado já na gestão do ex-pre­feito Fernando Pimentel, na década passada. Por causa das manifestações, o prefeito Márcio Lacerda acabou abandonando a ideia, sob o argumento de que as condições de trânsito ali não suportariam tal empreendimento.

Victor Schwaner/Odin
(Foto: Redação VejaBH)
ENFRENTANDO A OPOSIÇÃO

- Dono de uma quadra de futebol em Santa Tereza, Ibiraci do Carmo é a favor da construção de uma escola técnica ali e enfrenta críticas do movimento #forabira.

"Milhares de jovens vão sair formados e com emprego na indústria"

Secretário municipal de Gestão Com­partilhada, Pier Senesi costuma dizer que a participação dos líderes comunitários é bem-vinda na prefeitura. "Uma política moderna não se faz se você não tem um nível de relacionamento elevado com o cidadão", afirma ele. "Os líderes das associações são os nossos olhos", acrescenta a promotora de Justiça do Ministério Público de Minas Gerais Martha Larche. Nem sempre, porém, as reivindicações que eles levam são tão bem-aceitas. Na avaliação das autoridades municipais, muitas e muitas vezes falta bom senso nos pleitos. "Na véspera do Carnaval, recebemos milhares de pedidos para que blocos sejam proibidos de desfilar em várias ruas", exemplifica Martha. Atender a todos os pleitos teria sido o mesmo que acabar com a folia de Momo na cidade. Segundo o secretário municipal adjunto de Planejamento Urbano, Marcelo Faulhaber, os moradores não podem se achar proprietários dos bairros. "Os bairros são da cidade", argumenta. "Todo mundo quer que Belo Horizonte tenha mais centros esportivos, hospitais, casas de shows... desde que não seja no seu bairro." É difícil agradar a todos.

Dirigentes de associações comunitárias gostam de frisar que a atuação das entidades que representam é apartidária. Mas, naturalmente, eles têm suas convicções políticas e inclinações partidárias. Na prefeitura, há quem veja um uso mal- intencionado, com fins eleitoreiros, dessas organizações. Posições divergentes sobre determinadas questões provocam, não raro, rusgas entre os próprios moradores. Em Lourdes, uma das áreas mais nobres da cidade, duas entidades distintas defendem os interesses dos condôminos dos elegantes edifícios: a Associação dos Moradores da Praça Marília de Dirceu e Adjacências (Amalou), comandada por Jeferson Rios, e a Associação dos Moradores do Bairro de Lourdes (Pró-Lourdes), presidida por Lúcia Pinheiro. A Amalou e a Pró-Lourdes concordam sobre o que tira o sono de quem vive por lá: a barulheira que vem de restaurantes, bares e casas noturnas. Mas divergem quanto à forma de combater o transtorno. "O entretenimento predatório parece ser um privilégio garantido aos empresários que atuam no bairro", acredita Lúcia, que acusa o presidente da outra entidade, que tem imóveis alugados para comerciantes do bairro, de ser conivente com a situação. Rios foi o avalista de um acordo de cavalheiros com os donos dos bares, que se comprometeram a tirar as mesas das calçadas depois da mei­a-noite, limitando o serviço ao salão para diminuir o nível de decibéis na região.

Outro exemplo de embate entre os moradores está no Santa Tereza, onde um grupo de oposição, batizado de #forabira, critica o presidente da associação comunitária do bairro, Ibiraci do Carmo, o Bira. A principal motivação do racha foi a posição favorável do dirigente em relação à abertura de uma escola técnica no local onde funcionava, até 2007, um mercado distrital. "Isso vai beneficiar milhares de jovens, que vão sair formados e com emprego na indústria", afirma Carmo. Para os membros do Movimento Salve Santa Tereza, no entanto, o bairro será prejudicado pelo aumento da circulação de pessoas. "Não temos estrutura para receber os 4 000 alunos previstos", diz a professora da UFMG Maria Guiomar da Cunha, uma das que estão à frente das manifestações contrárias ao centro educacional.

A luta dos que querem se fazer ouvir — de um lado ou de outro — é sempre exaustiva. E também pode ser inglória. São muitas as vitórias, mas não faltam desfechos negativos. Quando os residentes da Pampulha se insurgiram contra a construção de dois hotéis, em 2012, não houve chororô que sensibilizasse a prefeitura ou a Justiça. As obras foram mantidas. Os ativistas da causa argumentam, porém, que, se tivessem ficado em silêncio, a descaracterização da região estaria ocorrendo em ritmo acelerado. "Não fosse o nosso repúdio, provavelmente hoje haveria vários espigões no meio do visual da Pampulha", diz o engenheiro aposentado Claude Miner, da Pró-Civitas, entidade que representa os bairros São José e São Luís. "Temos de nos unir para não ser 'tratorados' pelo poder púbico." E isso é o que a professora Magali Ferraz, representante da Associação Comunitária do Planalto e Adjacências, não quer que aconteça. Há quatro anos ela briga pela manutenção da Mata do Planalto, área ameaçada pelo projeto de um megacondomínio. "Não lutar pela preservação das ilhas verdes da cidade é cavar o próprio cemitério", afirma. Magali não se importa de ser rotulada de "chata". O que não está disposta a fazer é se conformar sem lutar. "Podemos até perder, mas não sem termos tentado mudar essa história."

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE