Especial

Dez belo-horizontinos mostram presentes que representam lições de vida aprendidas com seus pais

No Dia dos Pais, eles exibem as recordações mais emocionantes de peças com valor sentimental

Por: Carolina Daher - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Haroldo Ferretti, 46 anos, baterista do Skank, filho do sociólogo José Armando de Souza

Uma filmadora, um móvel, um enfeite de mesa, uma máquina de escrever, uma guitarra, um relógio, uma encadernação de jornais, um quadro, uma caneta, um livro. Esses objetos poderiam estar esquecidos em algum armário ou canto da casa, mas tornaram-se símbolo de lições de vida aprendidas por dez belo-horizontinos. Neste Dia dos Pais, eles exibem o presente mais emocionante que receberam. São peças de inestimável valor sentimental. Graças a uma câmera super-8, o baterista do Skank, Haroldo Ferretti, relembra a história de sua família; um livro mostrou ao engenheiro João Vítor Menin sua verdadeira vocação, longe dos canteiros de obras; e a cristaleira da arquiteta Ana Bahia a fez descobrir a importância do silêncio. Confira nas próximas páginas essas e outras histórias, que retratam um pouco a profunda relação entre pais e filhos. Tudo registrado

"Foi por meio desta super-8 que meu pai me deixou um tesouro: o registro da história da nossa família. Férias, Natais, aniversários, ele filmava tudo. Tenho cerca de três horas e meia de gravações feitas ao longo de dez anos. Além disso, ele estava sempre com uma máquina fotográfica nas mãos. Uma das coisas que mais gosto de fazer é chegar à casa da minha mãe e abrir um baú com os retratos antigos. Não sou nostálgico, mas é muito bom visitar o passado. Também herdei essa paixão e faço o mesmo com os meus filhos, Julia, de 13 anos, e João, de 11. Meu pai nunca questionou o fato de eu querer ser músico, sempre foi um grande parceiro. Aos 16 anos, época em que comecei a tocar, ele construiu um estúdio em casa, no Santa Lúcia. Passamos muitos bons momentos lá. Em 1993, quando fomos para o Rio de Janeiro remixar o primeiro CD do Skank, meu pai morreu. Ele não viu a banda estourar. Mas tenho certeza de que vibraria com isso. Se estivesse aqui, não perderia a oportunidade de dizer que era meu pai, que tinha um filho famoso. Não por ser metido, mas por puro orgulho, sabe?" Amor silencioso

Ana Bahia, 36 anos, arquiteta, filha do comerciante Márcio Sales

"Durante muito tempo eu quis esta cristaleira, e sempre comentava isso com o meu pai. Ele nunca disse nada. Há sete anos, quando me casei, ele me deu o móvel de presente. Fiquei emocionada porque percebi que ele havia prestado atenção no meu desejo, embora nunca tivesse comentado nada. Meu pai é bem mineirinho, cheio de silêncios. Uma pessoa pausada, o oposto de mim, que sou faladeira, agitada. Uma das coisas que ele me ensinou foi a ter mais paciência, saber o tempo certo de agir. Talvez, por isso, ele seja o único da família a não me cobrar filhos. Enquanto todo mundo fica perguntando quando vou engravidar, ele nunca me disse que queria netos, nunca me pressionou. Acho isso tão bonito! Saber esperar é uma arte. E essa cristaleira representa tudo isso, todas essas perguntas não feitas, mas de grandes significados. Apesar de papai morar em Pará de Minas, eu sempre me lembro dele quando olho para este móvel, que fica na sala da minha casa, na Serra, e guarda minha coleção de porcelana e a coleção de vidros de farmácia do meu marido." Mais + Conte a sua história Consciência ambiental

Amilcar Vianna Martins Filho, 64 anos, historiador, filho do médico Amilcar Vianna Martins

"Acompanhei muito meu pai em suas pesquisas de campo. Íamos eu e meus irmãos, Sérgio e Roberto, para a Serra do Cipó ou para a Gruta da Lapinha capturar insetos. Ele colocava a gente sem camisa na luz para atrair os bichinhos, depois mostrava como deveríamos pegá-los e fincá-los com o alfinete para ser estudados. Ele tinha muita paciência em ensinar. Meu pai foi um grande parasitologista, que passou a vida dedicando-se a combater enfermidades como a esquistossomose, a leishmaniose e a doença de Chagas. Aos 50 anos, ele contraiu a doença de Chagas na Serra do Cipó, conseguiu superar a fase aguda da moléstia, mas precisou conviver com as sequelas. Morreu há 23 anos, deixando sua marca na medicina. Lembro que ele trabalhava muito, e em cima da mesa do seu escritório em casa estavam sempre presentes o peso de papel com a aranha caranguejeira e a caveira representando a medicina, que guardo com o maior carinho. Sempre que vejo esses objetos, eu me lembro imediatamente do meu pai. A maior lição que ele me deixou foi a consciência ecológica quando isso ainda nem existia. Não podíamos quebrar nada na mata. Crescemos ouvindo a importância de respeitar qualquer ser vivo."

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Fidelidade sem fim

Bernardo Sabino, 50 anos, produtor cultural, filho do escritor Fernando Sabino

"Meu pai foi o mais fiel dos homens à sua máquina de escrever. Quando estava com ela, não sobrava tempo para ninguém. Todos os dias, das 14 às 20 horas, ele se sentava diante da máquina para ver se saía algo de bom. E sempre saía. Moramos juntos até os meus 12 anos, quando ele se separou da minha mãe. Toda hora, ele ligava lá em casa porque tinha empacado em determinado trecho da narrativa. Eu sugeria uma ou outra palavra e ele sempre dizia: 'Por que não pensei nisso antes?'. Minhas lembranças não são do escritor Fernando Sabino, e sim do meu pai. Quantas vezes ele chegava em casa cansado e ainda arrumava tempo para jogar futebol de botão comigo? Aprendi muitas coisas com ele, mas tem uma frase que me norteia: se você quer resolver um problema seu, resolva primeiro o do outro. Isso faz com que tenhamos a real dimensão das nossas dificuldades. Apesar de ele ter morrido em 2004, sempre o sinto por perto." Desejo realizado

Manoel Bernardes, 58 anos, joalheiro, filho do comerciante Manoel Bernardes Júnior

"Meu pai saiu de Santa Rita do Sapucaí para estudar medicina em Belo Horizonte. Mas ele se apaixonou pelas pedras e acabou abandonando o curso, que frustrou o meu avó, que queria ter um filho formado. E ele me deu este relógio de ouro quando passei no vestibular para engenharia civil, em 1972. Acho que, mais do que qualquer coisa, ele acabou transferindo esse desejo para os seus filhos. Desde então, eu me sinto um guardião de um valor emocional que não pode ser descrito em cifras. Nunca uso a peça porque ela é de estimação e tem um simbolismo muito grande na nossa vida. Somos oito filhos, e todos se formaram na faculdade. Acho que cumprimos bem o seu projeto de educação. Aprendemos com ele a força do trabalho e com a minha mãe, a força da união. Nunca rompemos ou brigamos, porque aprendemos também em casa que o interesse coletivo deve estar acima do individual. Meu pai nasceu em 1917 e eu na década de 50. Naquela época existia uma hierarquia entre pai e filho

que não facilitava o diálogo. Ele morreu em 1975, devido a um ataque cardíaco. Se pudesse voltar, gostaria de conversar, conhecê-lo ainda mais." Caligrafia inspiradoraPatrícia Soutto Mayor, 53 anos, banqueteira, filha do representante comercial João Evangelista Assumpção Teixeira

"A assinatura do meu pai era linda, sua letra parecia um desenho, e talvez por isso guardo com tanto carinho suas duas canetas Parker. Ele fazia questão de manter o seu escritório bastante organizado. O amor que tinha pelas palavras me contagiou, tanto que possuo quatro livros editados. A maior herança que ele me deixou, no entanto, foi o exemplo de pessoa íntegra. Ser sua filha me abriu inúmeras portas, pois sua palavra valia mais do que qualquer documento. Há 23 anos ele morreu, e até hoje sinto muito a sua falta. Quando eu era pequena, ele me levava ao Minas Tênis Clube para nadar. Quando estava na hora de ir embora, ele assobiava, e era o nosso sinal, no mesmo instante eu saía da piscina. A gente nem precisava falar nada um com o outro, nos entendíamos nos pequenos gestos. Os amigos falam que me pareço muito com ele, sou uma legítima Assumpção." Parceria musical

Frederico Heliodoro, 25 anos, baixista e compositor, filho do músico Affonsinho

"Tenho o maior carinho por esta guitarra Fender Stratocaster de 1977, que pertenceu ao meu pai. Foi nela que aprendi a tocar os primeiros acordes e me apaixonei pela música. Ele me deu a guitarra, depois tomou de volta. É minha, mas preciso pegar emprestada. Meu pai é um grande parceiro, tenho muita sorte de poder receber seus conselhos. Quando se começa a aprender um instrumento, você quer tocar rápido, fazer um som superelaborado. Mas ele me ensinou que o que é necessário é dar as notas certas. Quando minha mãe resolveu vir para BH, ele largou tudo para acompanhar meu crescimento. E olha que isso foi no auge do Hanói Hanói. Ele deixou uma banda com destaque nacional para abrir um estúdio em Beagá e poder viver intensamente a paternidade. Isso é prova de amor." Último presente Érica Drumond, 44 anos, sócia do Hotel Ouro Minas, filha do empresário José Décio Drumond

"Meu pai me deu meu primeiro carro, minha primeira casa, mas eu não fiquei no primeiro de nada. Cresci e me tornei o que sou porque, acima de tudo, ele me ensinou a trabalhar. Para ele, nada era impossível. Há pouco mais de dois anos, ele pediu ao artista Carlos Passos que fizesse um quadro da minha filha Estela. Foi o seu último presente e um dos mais significativos, pois nada me dá mais orgulho do que meus filhos. Ele morreu em setembro de 2011 e ainda não consigo aceitar. Durmo com as camisas dele e ainda espero seus telefonemas. Ele era muito animado, sempre o último a sair das festas. Era uma pessoa à frente de seu tempo. Aos 18 anos, foi morar nos Estados Unidos; fez vasectomia quando nenhum homem se sujeitava a isso; casou-se quatro vezes; construiu o primeiro motel de Minas Gerais. Nesse ponto, somos iguais, tenho certeza de que sou uma mulher moderna graças a ele." Exemplo de idealismo

Graça Ottoni, 62 anos, estilista, filha do juiz Ricardo Alves Pinto Filho

"Em 1966, nós nos mudamos de Teófilo Otoni para BH, onde meu pai assumiu o cargo de juiz civil no Tribunal de Justiça Militar. Coincidentemente, foi quando surgiu o Suplemento Literário do Estado de Minas, editado pela Imprensa Oficial. Naquela época, em pleno regime militar, o país passava por profundas transformações políticas e sociais e era por meio das páginas desse jornal que conseguíamos nos aproximar de grandes escritores como Carlos Drummond de Andrade e Murilo Rubião. Os fascículos de uma década inteira estão encadernados e são ótima fonte de consulta. Mais do que um grande advogado, meu pai era um intelectual, um poeta e, principalmente, um idealista. E ele logo começou a colecionar os suplementos, que não falavam só de literatura, mas também de artes plásticas, música e cinema. Ele morreu há trinta anos e deixou embutida em mim a paixão pelos livros e pelas artes. Quando comprou a nossa casa na Avenida Amazonas, quase morri. Vínhamos do interior, e ele escolheu morar em um dos locais mais movimentados da cidade. Sabe o que fiz anos depois? Comprei o imóvel vizinho. É aquela velha história, acabamos repetindo as atitudes dos nossos pais."

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)
Intuição paterna

João VÍtor Menin, 31 anos, engenheiro, filho do empresário Rubens Menin

"Quando eu tinha 14 anos, meu pai me deu de presente o livro Os Mercadores da Noite, de Ivan Sant'Anna. Era adolescente, não gostava muito de ler, e foi uma forma carinhosa que ele encontrou para estimular esse hábito em mim. Esse presente foi especial porque me ajudou a identificar uma aptidão que eu desconhecia. Eu me formei em engenharia e trabalhei com ele na sua construtora, a MRV, mas meu pai percebeu que eu era bom em negócios. Tanto que me pôs para trabalhar no Intermedium, banco do grupo. Graças a essa intuição paterna, eu me transformei no que sou hoje. Quando era menino, deixei de ter alguns confortos ou até mesmo brinquedos, não por falta de condições financeiras, mas por aprendizado. E isso foi essencial na minha formação. Meu pai é um grande homem, e gosto de tê-lo por perto. Viajamos juntos e jogamos tênis aos sábados. Mesmo em categorias diferentes, sempre consigo um jeito de ser seu parceiro na quadra."

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE