Especial

O dia em que Belo Horizonte parou

As manifestações durante a partida entre Brasil e Uruguai deixaram os belo-horizontinos apreensivos. As cenas de destruição que se viram no entorno do Mineirão mostraram que, infelizmente, eles estavam certos

Por: Cedê Silva e Luisa Brasil - Atualizado em

Nidin Sanches e Victor Schwaner/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

O caos em meio a fogueiras na Avenida Antônio Carlos: como uma praça de guerra

Às 15h55 da última quarta-feira (26), os jogadores da seleção brasileira estavam prontos para entrar em campo. Centenas de arruaceiros também, desvirtuando as manifestações que, em Belo Horizonte como no resto país, têm levado às ruas centenas de milhares de pessoas inconformadas com tudo o que existe de errado no Brasil de hoje. Minutos antes do início da partida entre Brasil e Uruguai, os desordeiros passaram a chacoalhar as grades instaladas na Avenida Abrahão Caram, dispostos a derrubá-las e a marchar até o Mineirão. Quando a barreira de metal que isolava o estádio começou a ceder, os policiais reagiram e atiraram as primeiras bombas de gás lacrimogêneo. Pela terceira vez em nove dias, avenidas da cidade viraram praças de guerra. O que se viu foi o que todos temiam desde o sábado passado (22), quando a equipe garantiu uma vaga na semifinal da Copa das Confederações. Antes mesmo de o prefeito Marcio Lacerda decretar feriado municipal, boa parte dos belo-horizontinos planejava não sair de casa, temendo protestos violentos como os vistos depois do jogo entre Japão e México.

Quase todas as escolas da cidade haviam decidido cancelar as aulas antes do anúncio do prefeito. "Não podíamos pôr nossas crianças em risco", explicou a irmã Roseli Hart, diretora pedagógica do Colégio Santa Marcelina, instalado no bairro São Luís. Lojas na Savassi, no Centro e ao longo da Avenida Antônio Carlos encomendaram tapumes para cobrir suas vitrines. A mesma medida foi tomada por diversas agências bancárias. Restaurantes e bares acostumados a abrir nos feriados preferiram manter as portas baixadas. "Ficamos com medo dos atos de vandalismo", contou Eugênia Dornelles, produtora cultural do Estúdio da Carne, no Santa Efigênia. Cinco shopping centers - Cidade, DiamondMall, Del Rey, Pátio Savassi e Minas - resolveram fechar até as praças de alimentação e os cinemas, que abrem inclusive em feriados como Natal e Ano-Novo. Segundo Rejane Duarte, gerente de marketing do Pátio, foi a primeira vez desde a inauguração, em 2004, que o centro de compras fechou completamente. "Levamos em conta que o deslocamento de funcionários poderia ficar comprometido."

Na véspera do jogo, em entrevista coletiva à imprensa, o comandante-geral da Polícia Militar, o coronel Márcio Martins Sant'ana, orientou a população a ficar longe da região da Pampulha. Com cerca de 7 000 homens nas ruas, 5 500 da PM e outros 1 500 do Exército, o coronel preparava-se para um confronto. "Não temos como prever o que vai acontecer", disse ele, na ocasião. Até quem esteve nas ruas para protestar, na semana anterior, teve medo de voltar. "Eu estava na Avenida Antônio Carlos no sábado, acompanhei a confusão, inalei gás lacrimogêneo, sabia que ia dar confusão novamente", contou a estudante de publicidade Paula Camargos, de 22 anos. Outro que aderiu a manifestações anteriores, o bacharel em direito Alessandro Andrade de Sena, de 29 anos, também preferiu ficar com os amigos, assistindo ao jogo pela TV. "Sabia que haveria vândalos dispostos a quebrar o pau", justificou.

Nidin Sanches e Victor Schwaner/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

PMs disparam balas de borracha: revide

Paula e Sena tinham o mesmo motivo para pessimismo. Reunidos em assembleias na terça-feira, diferentes movimentos sociais deixaram clara a intenção de ir muito além dos protestos. Na reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), um rapaz que se dizia professor de história avisava: "Vamos lá para quebrar tudo. Os vândalos são manifestantes, sim". Certamente, radicais como ele eram minoria entre os 50 000 belo-horizontinos que marcharam ordeiramente pela cidade. Ao meio-dia, o clima na Praça Sete, a área de concentração, era festivo. Jovens e idosos, profissionais de diferentes categorias, pais e filhos estavam reunidos no entorno do Pirulito, manifestando-se contra uma infinidade de coisas. A corrupção, o projeto que legitima a "cura gay", as tarifas do transporte, a importação de médicos estrangeiros e os gastos públicos para a rea­lização da Copa do Mundo eram alguns entre seus muitos alvos. Poderia ter sido realmente um ato pacífico. Mas o rastro de destruição deixado por gente como o tal professor de história jogou por terra todas as boas intenções. Pelo menos dez estabelecimentos - sete concessionárias de veículos, uma agência bancária, uma lanchonete e uma loja de material de construção - foram depredados. Motos e carros foram incendiados. O saldo mais grave foi o de vítimas. O metalúrgico Douglas Henrique de Oliveira Souza, de 21 anos, morreu em consequência de uma queda do Viaduto José Alencar. Outras 21 pessoas ficaram feridas. Atingido por uma bala de borracha, o advogado Tiago Mendes Antunes, de 25 anos, perdeu a visão do olho esquerdo.

Com um espírito muito distinto do dos milhares que seguiram em um legítimo exercício de cidadania da Praça Sete até a região da Pampulha, os vândalos ignoraram o acordo firmado na véspera do jogo entre o governador Antonio Anastasia e representantes dos manifestantes. Integrantes do Comitê Popular dos Atingidos pela Copa (Copac) até tentaram fazer um cordão humano para impedir que os mais exaltados rumassem para o ponto de bloqueio na Avenida Abrahão Caram. Não adiantou. A polícia reagiu com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Os baderneiros, então, começaram a depredar. Quem estava na linha de frente tinha um perfil claro. Eram jovens, na faixa dos 20 e poucos anos, que escondiam o rosto. Um rapaz com o queixo coberto por uma bandeira do Brasil tomou distância e arremessou uma pedra contra os policiais. E não foi o único a fazer isso.

Ao fim da partida no Mineirão, por volta das 18 horas, a Avenida Abrahão Caram era um caos absoluto. Dentro do estádio, muita gente ficou presa, sem informações precisas sobre o que se passava do lado de fora (leia abaixo o relato do cronista Luís Giffoni). O descontrole era perceptível tanto entre os policiais quanto entre os manifestantes e se estendia também pela Avenida Antônio Carlos. Um helicóptero da polícia voava baixo sobre a via, mas o facho de luz não intimidou os desordeiros enfurecidos. Munidos de pedras, tijolos e pedaços de concreto, eles destruíram o comércio das redondezas. Os tapumes fixados pelos comerciantes não resistiram ao quebra-quebra. As madeiras foram usadas em fogueiras montadas no meio da avenida. Garotas desfilaram pela via com garrafas de cerveja, fruto dos saques em uma loja de conveniência. Em poucos minutos, vários engradados vazios foram jogados no asfalto. Alguns utilizaram os vasilhames como munição.

Por volta das 19 horas, o caveirão, o blindado da PM, entrou na Antônio Carlos para dispersar a multidão. Usando megafone, os policiais pediram aos "manifestantes de bem" que fossem para casa. "Quem continuar nas ruas será preso", era o aviso. Muitos, porém, não atenderam ao apelo. Rumaram para a Praça Sete, onde continuaram com as depredações. Os PMs, então, cumpriram a promessa. No fim da noite, 109 pessoas estavam detidas. "A Polícia Militar agiu corretamente para evitar desdobramentos ainda mais negativos", declarou o governador Anastasia. "Uma coisa é manifestação pacífica. Outra são as cenas de barbárie a que assistimos." Na última quarta, a seleção brasileira venceu o Uruguai por 2 a 1. Belo Horizonte, no entanto, perdeu de goleada.

Fúria e depredação

Na Avenida Antônio Carlos, em um momento impressionante, um grupo conseguiu retirar um caminhão de dentro da concessionária da Kia e queimá-lo. Não foi o único veículo incinerado. Motocicletas de uma loja da Honda e carros de passeio também foram destruídos. Os estabelecimentos que estavam cobertos por tapumes não escaparam. Concessionárias foram os alvos preferenciais das depredações.

Rodrigo Clemente/EM/D.A Press
(Foto: Redação VejaBH)

Sufocos

Que sufoco a Copa das Confederações tem sido. Dentro e fora do campo. As manifestações que tomaram conta do Brasil já mudaram o país. Senti o tamanho de nossa frustração, uma vez mais, durante e após o jogo do Brasil contra o Uruguai. Fui ao Mineirão. No gramado, o gol da vitória adiado para os últimos minutos garantiu, por fim, o alívio para os milhões de brasileiros que torcíamos pela seleção. Ao lado do estádio, outro sufoco: uma multidão se manifestava na Avenida Antônio Carlos. Notícias desencontradas chegam ao campo, inclusive de mortos no viaduto do Anel. Irresponsáveis põem fogo em lojas e automóveis. Reação da polícia. Dezenas de presos e feridos. Escuto que agentes da Abin, misturados aos torcedores, monitoram a massa. Um amigo, receoso do confronto, resolve ir embora, pela Catalão. Dali a pouco ele liga, apavorado. Manifestantes tinham fechado a avenida, muita gente passava ao lado do carro gritando, e ele morria de medo de ser agredido. Pedi-lhe que mantivesse a calma, pois as reivindicações dele eram de toda aquela gente. Chegou bem em casa, sem problema. Ao meu lado, um pai fica inseguro por causa de seu filho de uns 7 anos, arrepende-se de ter ido ao estádio. Quando saio, uma hora depois do fim do jogo, procuro a van para voltar ao Centro, enfrento o desencontro de informações do pessoal da Fifa. Ninguém sabe se a Catalão está liberada, dezenas de caminhonetes da Força Nacional abrem caminho com buzinas, a lentidão do trânsito nos persegue até a Avenida Américo Vespúcio, onde tomamos um desvio. De repente, em frente a uma casa vejo umas seis pessoas que, com cadeiras na calçada, curtem o movimento pós-jogo. Conversam animadas, copos de cerveja à mão. Alegro-me. Estou de volta a BH. Já são 21h30.

Luís Giffoni

* Com reportagem de Carolina Daher, Daniela Nahass, João Renato Faria, Sabrina Abreu e Thiago Alves

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE