Saúde

Dieta sem glúten dos celíacos vira moda entre aqueles que lutam contra a balança

Supermercados, lojas especializadas e restaurantes de Belo Horizonte ampliam a oferta de itens sem a proteína

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Victor Schwaner/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A consultora Mila Cozzi, na sala de aula do Verdemar: dicas de alimentação saudável e alerta sobre modismos perigosos

Nada de pão francês no café da manhã, nem da tradicional macarronada no domingo ou da cervejinha e do uísque no fim do expediente. Para muitos, o glúten - proteína encontrada no trigo, no centeio, na cevada, na aveia, no malte e em seus derivados - é um grande vilão. A doença celíaca, caracterizada pela intolerância permanente do organismo ao glúten e descrita pela primeira vez no fim do século XIX, faz vítimas mundo afora já há um bom tempo. Por aqui, estima-se que um em cada 200 brasileiros tenha sensibilidade à proteína e deva excluir os alimentos que a contêm da dieta. A doença geralmente se manifesta na infância, mas pode surgir em qualquer etapa da vida. Nos celíacos, o glúten agride o intestino e prejudica a absorção dos nutrientes, incluindo vitaminas e sais minerais. Para eles, a ingestão da proteína pode resultar em desnutrição, déficit de crescimento, anemia, falta de apetite, barriga inchada, dor abdominal, osteoporose, e manchas no esmalte do dente, entre outros males. A perda de peso é, geralmente, uma das consequências da restrição alimentar imposta aos celíacos. Afinal, por causa da doença, eles são obrigados a tirar do cardápio uma série de guloseimas calóricas. Em apenas um mês de tratamento, o ponteiro da balança costuma recuar de 5% a 7%. Não à toa, a guerra ao glúten virou uma bandeira também para a turma fitness, que está sempre tentando emagrecer. Para atender portadores da doença celíaca e também essa moçada obcecada pela boa forma, a indústria tem investido pesadamente na linha de produtos com a etiqueta "sem glúten". Os itens vem se popularizando nas prateleiras dos supermercados e até no cardápio de restaurantes.

"Esse é um modismo perigoso", alerta Mila Cozzi, consultora de alimentação saudável. Farinhas sem glúten - como a de arroz - são pobres em nutrientes. É preciso fazer combinações de ingredientes em uma mesma receita para que o emagrecimento com saúde seja possível. O pão de queijo, por exemplo, é uma boa alternativa mineira para evitar o glúten. Com chia na massa, ele fica mais nutritivo. "A semente equilibra o índice de glicemia no sangue", explica Mila. Autora de um blog sobre alimentação saudável e famosa nas redes sociais, a consultora carioca desembarcou na sala de aula mantida pelo supermercado Verdemar, no fim de janeiro, para falar da própria experiência e dar dicas. Com 1,58 metro de altura, ela chegou aos 68 quilos quando adolescente, e hoje, aos 39 anos, pesa 50 quilos. A boa forma é fruto de uma reeducação alimentar que passa pela restrição ao consumo de glúten, mas não de forma radical.

Engenheira de 24 anos, Priscila Ma­­lacco é uma das que aderiram a um novo estilo de vida: sem glúten e com exercícios físicos. "Como as mesmas coisas, mas sem a proteína", diz. Entraram em seu cardápio pães, bolos e massas feitos com farinha de arroz e fécula de mandioca, entre outros ingredientes. "Além de perder 1 quilo por mês, reduzi o inchaço e as medidas", comemora. A retirada do glúten do cardápio, porém, é vista com ressalvas pelos médicos. "É claro que quem tirar o pão e a massa da dieta vai emagrecer, pois eles são altamente calóricos", afirma o gastroenterologista Fran­­cisco Penna, professor da Faculdade de Medicina da UFMG. "Mas não há lógica em decidir por conta própria tirar todo o glúten da alimentação diária para tratar a obesidade." Segundo ele, só deve se submeter a esse tipo de dieta restritiva quem tem um diagnóstico comprovando a intolerância à proteína. Nesse caso, o paciente precisa procurar um nutricionista, que lhe prescreverá uma dieta que equilibre a re­­tirada de determinados ingredientes com a inclusão de outros.

Victor Schwaner/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A apresentadora de TV Raquel Capanema tirou a proteína da rotina há sete anos: ela diz que agora tem mais disposição para o trabalho e menos dores de cabeça

Na clínica do cirurgião plástico Jorge Menezes, tem sido grande a procura pelo estudo de DNA, um exame que custa em torno de 2 000 reais e aponta o que a pessoa deve ou não comer. O sangue é coletado aqui e enviado para análise na Itália. A partir dos resultados, é elaborado um cardápio personalizado para garantir tanto a redução de peso quanto o bem-estar do paciente. "Temos observado que os principais vilões são o glúten e a lactose", diz Menezes. A retirada dos dois itens da dieta apresenta resultados imediatos, mas é preciso persistência para manter o programa alimentar no longo prazo, como faz a apresentadora de televisão Raquel Capanema, de 36 anos. Seu exame não constatou nenhuma intolerância ao glúten, porém ela resolveu tirá-lo da dieta há sete anos. "Eu me senti com mais disposição, comecei a lidar melhor com o stress no trabalho, o intestino passou a funcionar regularmente e as dores de cabeça se reduziram", relata. Segundo ela, a variedade de produtos encontrada hoje nos supermercados e nas lojas especializadas facilitou o preparo de receitas em casa. A pizza que Raquel costuma fazer tem polvilho e farinha de amêndoa na massa - e ela jura que é deliciosa.

Ir para a cozinha e preparar as próprias refeições é tarefa comum de quem precisa tirar o glúten da rotina. "No início, a tapioca era o que me salvava. Agora, já faço receitas mais elaboradas", conta o designer de produtos Lucas Regadas, 23 anos, que há um ano descobriu ser celíaco. Seu bolo de cenoura que leva farinha de arroz e linhaça é famoso entre os parentes. Quem tem a doença geralmente evita comer em restaurantes, com receio da "contaminação cruzada", como no uso dos mesmos utensílios para manipular as comidas. Nos casos mais agudos, bastam 50 miligramas da proteína, o equivalente a 1 centésimo de uma fatia de pão de fôrma, para lesionar a parede do intestino delgado. "Quem oferece produtos sem glúten precisa levar as restrições a sério", diz a presidente da Associação dos Celíacos do Brasil (Acelbra-MG), Ângela Diniz. Para alguns, a guerra ao glúten pode ser só um modismo. Para muitos, porém, é questão de saúde.

Fora de casa

Conheça oito endereços que têm receitas sem glúten no cardápio › Alessa Gelato & Caffè

Em todo o cardápio, somente dois sabores de sorvete são proibidos para quem exclui o glúten da dieta: negresco e tramontana. A dica aos adeptos da alimentação saudável é pedir bolas do chocolate light e do coco light, que também não contêm açúcar (R$ 10,00 uma bola; R$ 18,00, duas; R$ 25,00, três).

Rua São Paulo, 2112, Lourdes, ☎ 3292-2588.

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Trindade Ingredientes locais ganham novas leituras na cozinha dos sócios Felipe Rameh e Frederico Trindade. O destaque no menu sem glúten é o creme de baroa com cogumelos, castanhas e brotos (R$ 47,00). Rua Alvarenga Peixoto, 388, Lourdes, ☎ 2512-4479.

› Casa de Música

O cardápio traz várias opções para quem quer evitar o glúten. Uma dica é o clássico risoto à parmigiana, com queijo grana padano, turnedô de filé e crocante de parmesão (R$ 55,00).

Rua Curitiba, 2307, Lourdes, ☎ 2516-2307.

› Frau Bondan

A receita do bolo de tapioca foi trazida de Belém pela proprietária Paula Bondan e é um sucesso. Custa R$ 8,00 a fatia.

Rua Espírito Santo, 1909, Lourdes, ☎ 3337-8198; Pátio Savassi, piso 1, Savassi, ☎ 3047-3116.

› Maurizio Gallo

Os pratos feitos com espaguete, penne e fusilli podem vir com massa sem glúten, preparada com farinha de arroz. Um exemplo é o espaguete com frutos do mar (lula, polvo, camarão e mexilhão) ao cartoccio (R$ 48,00).

Rua Aimorés, 2305, Lourdes, ☎ 2514-3020;

Avenida Nossa Senhora do Carmo, 860, São Pedro, ☎ 2555-5432.

› Pizza no Galpão

Sob a consultoria de Marco Malzone, ex-proprietário de estabelecimentos conhecidos da capital, como a Fabbrica Spaghetteria, o endereço tem opções para celíacos. Feita de farinha de arroz, a redonda mais pedida é a do pizzaiolo (R$ 54,00, seis fatias), com molho de tomate, mussarela de búfala, queijo brie, shiitake e presunto de Parma.

Rua Francisco Sá, 281, Prado, ☎ 3291-1681.

Por encomenda

Confira sete bufês e exemplos de pratos que eles preparam

› Bravo Catering

Mini-waffle com framboesa, amoras e maple syrup.

☎ 3243-0711. www.bravocatering.com.br

› Bouquet Garni

Flã de milho verde e amêndoas com nibs de cacau.

☎ 3465-0101. www.bouquetgarni.com.br

› Chá com Nozes Buffet Brigadeiro sem glúten.

☎ 3254-1000. www.buffetchacomnozes.com.br

› Club do Chef

Nhoque de baroa com gorgonzola e amêndoas.

☎ 3281-1644. www.clubdochef.com.br

› Fora do Comum

Salada de quinoa com aspargos frescos, camarões e manga seca.

☎ 3296-4168.www.buffetforadocomum.com.br

› Meu Buffet

Lasanha (feita com fécula de batata, polvilho doce e farinha de arroz) de espinafre ao molho de camarão e sálvia.

☎ 3287-0708. www.meubuffet.com

› Pichita Lanna

Hadoque escocês ao creme de fumaça com purê de batata caipira ao beurre noisette e ovo mollet.

☎ 3489-5300. www.pichitalanna.com.br

Nas prateleiras

Belo Horizonte já tem várias lojas que vendem produtos para celíacos. Veja seis delas

› Empório Nutri

Nas prateleiras, produtos sem glúten e sem lactose, entre outros.

Avenida Abrahão Caram, 614, Pampulha, ☎ 3245-5165;

Rua Fernandes Tourinho, 363, Savassi, ☎ 2552-2626;

Trevo Seis Pistas, Vila da Serra, Nova Lima, ☎ 3582-6019.

› Fit Prime

Especializada em nutrição esportiva, a casa também comercializa uma série de produtos sem glúten.

Avenida Luiz Paulo Franco, 500, loja 6, Belvedere, ☎ 3567-7770.

› Não Contém

Além dos produtos industrializados e congelados, tem uma minipadaria com pães, salgados e quitandas.

Rua Major Lopes, 117, São Pedro, ☎ 2552-9186.

› Pró Casa Produtos Naturais

Boa parte dos itens também é comercializada a granel, a exemplo de diferentes tipos de farinha.

Rua Monteiro Lobato, 380, loja 16, Ouro Preto, ☎ 3567-2305.

› Mundo Verde

A rede de franquias, presente em 24 estados, é uma das que têm maior variedade de produtos.

Rua Curitiba, 1982, Lourdes, ☎ 3309-5226; Shopping Cidade, ☎ 2531-3955. Mais duas unidades.

› Via Nutri

Adesivos informam as seis linhas especiais de produtos da loja. A sem glúten é uma delas.

Rua Bernardo Monteiro, 1020, Santa Efigênia, ☎ 3786 3533.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE