Crônica

O Divino é maravilhoso

Por: Cris Guerra - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Num dos melhores restaurantes de Pa­­­­­­ris, a família de bra­­sileiros é recebida por um garçom de fraque. No elevador que os leva até o salão, eles se entreolham, tentando dis­­farçar a excitação. O garçom os conduz à mesa — com vista para a Catedral de Notre Dame. Solícito, ajeita na cadeira o casaco da mãe, que agradece com um sorriso e não o desarma ao voltar-se para os filhos: "Alguém me fotografa?".

O almoço que está prestes a começar será relembrado em cada detalhe, desde a pré-entrada — tão diminuta que os faz pensar que foram enganados — até os caramelos servidos depois da sobremesa, passando pelo sofisticado instrumento papa-migalhas que um outro garçom deslizará sobre a mesa de vez em quando. "Podia ter um desses aqui à venda", dirá a mãe sobre o artefato de prata. Não que ela tenha dinheiro para comprá-lo. Não se trata de uma família de abastados, que tenha por hábito pagar cerca de 70 euros por pessoa por um almoço. Mas aquela será a refeição mais bem paga de suas vidas: o sabor ficará para sempre.

Que atirem a primeira chupeta cravejada de cristais austríacos aqueles que nasceram em berço de ouro. Mas saber o que é ter o dinheiro contado faz a vida ficar mais divertida — de preferência, quando não se tiver mais que contar o dinheiro.

É difícil dizer isso para quem nunca precisou fazer as contas antes de passar no caixa do supermercado. O que quero dizer está longe do clichê "dinheiro não traz felicidade". Mesmo porque ser infeliz em Berlim tem muito mais charme que ficar na fossa à beira do Rio Arrudas. Mas tenho pena de quem não sabe o que é chamar alguém para jantar e ter medo de que o outro peça um prato muito caro. Quem não sabe o que é ter de pedir emprestado o vestido da prima para não ser obrigada a repetir um único traje de festa em três eventos seguidos.

Pobre de quem não conhece a alegria infantil de chegar a um hotel cinco-estrelas e descobrir ali um vasto menu de travesseiros. Que privilégio é partir a salada sem saber que é proibido. Tomar vinho tinto para acompanhar o peixe. Comer pastel na Galeria do Ouvidor e conhecer a explosão de sabores de que é capaz uma nota de 5 reais - dois de queijo, um de carne e um de banana, com direito a suco de laranja.

Que maravilha é de­vorar um pacote de biju comprado no semáforo, infestando o carro de farelos. A não ser, claro, que o carro tenha acabado de sair da concessionária — e quem não sente um entusiasmo de criança com o cheiro de carro novo?

"Na Zona Sul não tem empada. Na Zona Sul só tem quiche", diz a cabeleireira da novela das 9, depois de se mudar do subúrbio. E existem momentos em que só uma empada traz a felicidade — que reside no exato instante em que mordemos a azeitona.

A obsessão pela riqueza é tema recorrente nos folhetins, a fala da suburbana convicta é uma espécie de confissão ao contrário, em que a classe alta expõe sua maior fragilidade: onde sobra pose falta alegria. É muito chato ficar o tempo todo sem poder soltar o ar e ser feliz — mesmo que soltar o ar signifique deixar saltar uma gordurinha por sobre a calça justa de cintura baixa.

Talvez por isso "o Divino" retratado na novela faça tanto sucesso. Sonhamos com um lugar assim, em que o luxo é a liberdade de poder ser o que se é. É ali que a criança que há em nós gostaria de morar, sem risco de assalto ou sequestro. Com espaço de sobra para suas ignorâncias e alienações.

Nossa alegria mora no Divino e anda do jeito que veio ao mundo, sem pose nem plástica. Não por acaso, o nome remete ao sagrado, e sagrada é a nossa alma. Esse divino maravilhoso que trazemos em cada um de nós.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE