Crônica

Um doce de crônica

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
VEJA
(Foto: Redação VejaBH)

Posso até imaginar a cena. Pouco depois de inventar o limão, Deus se refestela numa rede ao lado de Dorival Caymmi e, contemplando outra de suas maiores criações, cantarola com o amigo: "O mar, quando quebra na praia, é bonito…" Comemoram entornando cervejas mexicanas com pitadas do novo invento e amanhecem com insolação e ressaca, despertados pela baiana que passa vendendo seu acarajé - é quando o Cara, azedo, resolve inventar o coco ralado, a fim de ampliar o segmento de atuação da moça.

O que se há de fazer: ninguém, nem Ele, pode agradar a todos. Teria sido melhor fazer como Caymmi e se entregar a mais uma preguiça na rede. Para que ser original todos os dias, meu Deus? Que ficasse no limão mesmo, quem sabe inventando outro maior no dia seguinte, outro com mais suco (que não poderia se chamar limão-capeta, por questões jurídicas), até chegar ao limão-siciliano - quando então descansaria, satisfeito por Sua inserção na alta gastronomia.

Nada contra os amantes do coco ralado - se é que existe algum. Mas, se na vida quase tudo fica melhor com uma pitada de limão, por outro lado, nada é tão ruim que não possa ser piorado com um pouco de coco ralado por cima. O limão é o refresco, a dose de humor, o antídoto para a monotonia, a razão de existir do camarão ao alho e óleo, o gelato italiano com direito a uma Veneza em volta. Da fruta se fazem limonadas, tortas, musses, risotos, caipirinhas, picolés e até lições de vida. Já o coco parece ter sido criado a fim de combater um dos sete pecados capitais - não há gula que resista à tarefa hercúlea de mastigar uma espécie de feno que não termina nunca.

Coco ralado é aquela piada sem graça de longa duração, que em lugar da gargalhada provoca um sorriso amarelo no final. Seu maior êxito é manter a visita sentada à mesa enquanto o anfitrião mostra fotos de suas últimas férias em Las Vegas. Funciona também como emagrecedor: causa uma produção extra de suco gástrico, sem que nada seja engolido, de modo que o estômago come a si mesmo, tornando desnecessária a cirurgia de redução. Bom também para aperfeiçoar metáforas já desgastadas pelo uso: "É muito coco ralado para o meu pratinho"; "Você não passa de um filete de coco ralado no Universo". Talvez a areia seja o único item substituído pelo coco com vantagens. Se é na praia que costuma nascer coqueiro, que o ralado passe ao menos a forrar a orla, a fim de minimizar os efeitos do sal no corpo.

Dito isso, segue aqui o meu conselho, caro leitor: se a vida lhe der um limão, procure no Google e encontrará uma infinidade de receitas além da limonada. Se, no entanto, ela só lhe der um bocado de coco ralado, o jeito é colocar uma marchinha de Carnaval e jogar para cima, que nem confete. Pelo menos assim acaba mais rápido.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE