Crônica

Doença crônica

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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Sou do tipo que liga a TV e repara no corte de cabelo do William Bonner enquanto ele anuncia em tom grave o ataque de um avião às Torres Gêmeas. Nasci com essa mania de prestar atenção no periférico. Ou no óbvio, que, por ser óbvio, quase não é notado. Na mesa de bar, ouço a conversa do casal ao lado, curiosa para descobrir se eles acabam de se conhecer ou se vivem uma crise no casamento. Dizem que sou capaz de acompanhar dois diálogos ao mesmo tempo. Verdade. Meu ouvido tem pernas e vai longe, mesmo que as minhas próprias tenham preguiça de sair do lugar.

Faz um ano que esse meu olhar bisbilhoteiro frequenta esta revista. Semana sim, semana não, ocupo um espaço em branco que me amedronta. Não medi a altura da queda antes de saltar pela primeira vez. Lancei-me ao desafio, com apenas uma promessa: convidar o leitor para um papo despretensioso, como quem bebe com um amigo uma cerveja gelada. Às vezes, teço um comentário sem importância, só para provocar um sorriso em meu companheiro de mesa. Já discorremos sobre muitos outros assuntos - é hora de relaxar.

Sem hora para sair, teço lembranças e arrisco sonhos, entre a ironia e a filosofia. Há espaço para lamentos cotidianos, mundos que se acabam, sérios desabafos e um certo mau humor. No ano que passou, confissões sobre uma memória carente de descanso se revezaram com verdades ditas na cara depois de alguns copos, culminando com momentos de sono e reflexão. Protestei contra o queijo de plástico, naveguei mares que não existem, falei de flores e de amor - como não? Atirada, convidei o leitor para passear de mãos dadas pela cidade: no trajeto, nossas mãos nos contaram verdades reveladoras. Nos momentos de cansaço, tomamos ônibus, táxis ou pegamos carona em grandes carros que circulavam vazios num trânsito caótico. Arrisquei até um carrinho de rolimã, cansada de aguardar por um metrô que não vem. Mas meu trajeto mais perigoso foi sobre duas rodas. Tomei um tombo e um susto, fui parar muito além do acostamento e, de volta à estrada, trouxe comigo o aprendizado: ser feliz é bem

mais importante que sustentar opiniões.

Se nos velhos tempos escrever em revista era ser apenas lido, hoje é falar e ouvir, levar reflexões para casa e se debruçar sobre elas. Em minhas andanças, encontrei todo tipo de companhia, exercitando a arte de conviver. Entre um percurso e outro, muitos cafés para acordar. Fui tomada pelo vício e já emendo um assunto no outro, feliz pela companhia. E, agora, vamos falar sobre o quê?

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE