Drogas

Crack: relatos do horror

As famílias pedem socorro e o governo promete tornar mais ágil a análise das solicitações de internação involuntária dos viciados

Por: Luisa Brasil - Atualizado em

Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Sentado à mesa de um café no bairro Santa Efigênia, o técnico em informática confessa: "Até hoje sinto muita vontade de usar crack". Faz um ano e dois meses que D.T. está limpo, como se diz na linguagem dos usuários, mas ele ainda sofre com as sequelas deixadas pelo vício. Durante a entrevista para esta reportagem, fumou um cigarro convencional atrás do outro, gesticulou freneticamente e disse que sua memória recente já não é a mesma. A narrativa sobre a dependência segue o roteiro clássico: começou com o uso "recreativo" de entorpecentes considerados mais leves, como a maconha, e acabou em um precipício. Ele perdeu a lucidez, os amigos, a convivência familiar, a saúde e a dignidade. Viu a maioria de seus companheiros de crack morrer ou ser presa. "Só um ou dois conseguiram largar", conta (veja abaixo depoimentos de pessoas que lutam contra esse vício). Atualmente, a pedra feita a partir da pasta de cocaína é a substância que mais desafia as autoridades encarregadas do combate às drogas. Isso por causa da oferta farta, do preço relativamente baixo - é possível comprar uma pedra por 5 reais - e do efeito devastador. Uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Municípios mostrou que o entorpecente já está em 75% das cidades mineiras.

Com dificuldade para enfrentar o tráfico, o governo estadual tenta avançar no tratamento dos usuários. A partir desta segunda (4), o Comitê de Cooperação Institucional e Acompanhamento de Medidas de Internação analisará pedidos de internação involuntária de viciados. Caberá ao grupo formado por representantes da Secretaria Estadual de Defesa Social, do Ministério Público Estadual, da Defensoria Pública e de duas ONGs, Mães de Minas contra o Crack e Defesa Social, analisar os pedidos de hospitalização contra a vontade do paciente, decidindo qual é o encaminhamento mais adequado. A internação involuntária - e também a compulsória, por determinação judicial - é uma medida prevista na Lei Federal nº 10  216, que dispõe sobre o tratamento de portadores de transtornos mentais, categoria na qual são enquadrados os dependentes químicos. Só neste ano, 1 036 pessoas com problemas psiquiátricos foram internadas involuntariamente nas redes pública e privada da capital. A ideia é que o comitê consiga agilizar o processo de internação dos viciados.

Em Belo Horizonte, o pedido pode ser registrado pela própria família, no SOS Drogas (Rua Rio de Janeiro, 471, no Centro), ou pelos profissionais de saúde ligados aos centros de acolhimento de viciados. O paciente que se enquadrar nos critérios adotados pelo comitê será encaminhado para a rede pública de atendimento e, provavelmente, ficará hospitalizado apenas durante a fase mais aguda da crise. Mesmo com a recomendação para internação, não é fácil conseguir uma vaga. Existem 3 000 leitos nas alas psiquiátricas dos hospitais públicos da cidade, um número insuficiente. "Cerca de 70% deles estão ocupados por usuários de drogas, particularmente o crack", informa o coordenador de saúde mental da Secretaria de Estado de Saúde, Paulo Repsold. O governo de Minas receberá 200 milhões de reais do Programa Nacional de Enfrentamento ao Crack para abrir mais 500 vagas. Mas elas só estarão disponíveis em 2014. A necessidade de uma maior quantidade de leitos se deve ao fato de que o crack, no início dos anos 90 relegado às classes mais baixas, ascendeu socialmente e passou a atingir em cheio as classes A e B - além disso, espalhou-se por toda a cidade. Mesmo para as famílias abastadas não é fácil encontrar uma vaga para internar viciados. Na região metropolitana, há sete clínicas - seis na capital e uma em Betim -, que cobram entre 7 000 e 14 000 reais por mês. Em qualquer uma delas, na semana passada, só era possível deixar o nome na lista de espera. Todas estavam lotadas. "Dado o potencial destrutivo do crack, a internação involuntária está se tornando cada vez mais comum", afirma Bruno de Castro Costa, coordenador da Novos Rumos, localizada em Betim. Dos setenta internos na clínica, 49 chegaram até lá contra a vontade. Para conseguir internar o parente, a família precisa comprovar que o caso atende aos critérios de admissão. "Só há indicação quando o juízo crítico da pessoa está alterado", explica Costa.

A falta de vagas para uma internação mais prolongada obrigou a empregada doméstica Sônia Moreira a recorrer à Justiça. No ano passado, sua filha Carolina, de 24 anos, foi a primeira mineira maior de idade a obter uma decisão judicial obrigando o estado a arcar com os custos da internação em uma clínica particular. "Minha filha estava praticamente morta e era muito difícil achar vaga para mulher", lembra Sônia. A clínica em Atibaia, no interior de São Paulo, custou 4 000 reais por mês. Depois de nove meses, a moça recebeu alta, em meados de maio. Mas Sônia ainda não está totalmente segura em relação à cura. Não é para menos. Dos 15 aos 24 anos, foram 72 internações. De muitas delas, Carolina escapou. Confiando na promessa de que, fora da clínica, ela conseguiria pedras para todos, os próprios internos a ajudavam a fugir.

A euforia que alimenta o vício em crack é imediata. Em dez segundos, a fumaça produzida pela queima da pedra chega ao sistema nervoso central, diferentemente do que ocorre com a cocaína em pó, que leva cerca de dez minutos para fazer o mesmo trajeto. O efeito dura de três a dez minutos. Logo depois, é comum a depressão, o que leva o usuário a querer fumar novamente, para voltar ao estado de êxtase. "O nariz tem área de absorção entre 3 e 5 centímetros quadrados, enquanto a superfície do pulmão, se pudéssemos esticar seus alvéolos, equivale ao tamanho de uma quadra de tênis", diz Frederico Garcia, coordenador do Ambulatório de Dependências Químicas do Hospital das Clínicas da UFMG. A consequência é que uma quantidade bem maior da droga acaba absorvida e há mais liberação de dopamina. "É muito fácil passar três, quatro dias usando direto", conta o massagista N.L. "Eu ia para a favela, entrava no quarto que alugava e passava a noite inteira ali."

Embora legalmente instituída desde 2001, a internação involuntária ainda provoca polêmica. De acordo com os médicos, o que é bom para os familiares nem sempre é bom para o usuário. "Tem mãe que quer internar o filho que se envolveu com o tráfico para livrá-lo da polícia", afirma Robert Willian, coordenador da ONG Defesa Social. Segundo a diretora do Centro Mineiro de Toxicomania, Raquel Pinheiro, a "internação social" é comum quando as pessoas próximas ao drogado não conseguem mais lidar com o problema. "É uma espécie de fuga", diz. Raquel conta que 43% das pessoas atendidas no centro são usuárias de crack. Independentemente do tipo de tratamento adotado, a motivação do paciente é determinante. "A carta de alforria só vem se há força de vontade", aponta o advogado criminalista Ércio Quaresma. Em 2010, como responsável pela defesa do ex-goleiro do Flamengo Bruno Fernandes, acusado de envolvimento no desaparecimento e na morte da ex-amante Eliza Samudio, ele estava em evidência. Quaresma, porém, viu seu prestígio profissional ruir ao ser flagrado fumando crack por um cinegrafista amador. O vídeo foi exibido no país inteiro. Por determinação da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), teve de cumprir três meses de suspensão. Hoje, o advogado garante que está limpo e atua na defesa de Marcos Aparecido dos Santos, apontado como comparsa de Bruno. Mas Quaresma sabe que dependentes podem levar anos para superar o vício e estão sujeitos a recaídas frequentes. Mais importante do que ter voltado ao processo, constata, é ter voltado "aos eixos". Diz ele: "Se eu me aproximar novamente da droga, é porque não tenho nenhum instinto de autopreservação". Um instinto, infelizmente, que muitas vezes o crack trata de destruir.

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(Foto: Redação VejaBH)

Eterna vigilância

Por trinta anos o massagista N.L., de 48, foi usuário de diversas drogas, passando por maconha, álcool, cocaína e LSD. Mas durante os cinco anos de consumo do crack é que sofreu os efeitos mais nefastos da dependência: desfez um casamento e perdeu momentos preciosos do desenvolvimento do filho. No auge do vício, ele chegava a gastar 1 000 reais por semana com a droga. A internação em uma clínica paulista foi ideia dos irmãos. Ele quis sair, mas a família não cedeu. "Sem apoio eu não teria conseguido", conta. Quatro meses após deixar a clínica, teve uma recaída, sofreu um acidente de moto e quebrou a perna. Os irmãos aproveitaram para interná-lo de novo. Desde o episódio, há quatro anos, ele se diz recuperado do vício. Até hoje, no entanto, o tratamento é supervisionado pela irmã, que o acompanha em reuniões e controla seus gastos pessoais.

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(Foto: Redação VejaBH)

Mais de setenta internações

Depois de nove meses em uma clínica de reabilitação em Atibaia, no interior de São Paulo, a jovem Carolina Moreira, de 24 anos, finalmente pode brincar com sua filha, Ana Luiza, de 3 anos. A jovem, que retornou para casa com 73 quilos, em meados de maio, não lembra em nada a pessoa franzina de 39 quilos internada em agosto do ano passado. A decisão de se tratar foi um alívio para a mãe, Sônia Moreira, que testemunhou a autodestruição da filha durante dez anos. O uso da droga começou por influência de uma amiga da escola. O resto da história é uma tragédia em vários atos: no período em que esteve viciada, a moça foi internada mais de setenta vezes, vendeu peças de roupa e pertences da família, engravidou e, no auge do vício, fumou 45 pedras de crack em um só dia. "Meu sonho é voltar a estudar, completar o ensino médio e começar um curso técnico em radiologia", conta.

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(Foto: Redação VejaBH)

Convivência arruinada

A psicóloga V.M. conhece o poder destrutivo das drogas para a convivência familiar. Seu segundo filho é dependente há pelo menos quinze anos. Em surtos psicóticos, ele já tentou o suicídio quatro vezes. Hoje, está limpo há um ano e dois meses. Até chegar a esse estágio, passou por inúmeras internações. Todas forçadas. O rapaz ficava bravo, mas a mãe não cedia. A vida pós-vício do filho é marcada por pouca autonomia. Além de continuar o tratamento com medicamentos e terapia, ele é constantemente vigiado pela família. Trabalha em casa ajudando o irmão e tem todos os gastos controlados. "Acredito na internação porque é como um degrau. A cada uma, a pessoa melhora um pouco", afirma V.M. Hoje, ela e os filhos fazem

terapia em grupo para tentar se recuperar dos traumas familiares.

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(Foto: Redação VejaBH)

Trancada em casa

A designer T.L. lembra com clareza o momento em que descobriu que sua mãe usava crack. Ela encontrou um cachimbo no banheiro de casa e, na época com 19 anos, não entendeu do que se tratava. "Foi meu namorado quem disse que aquilo era droga, e das mais pesadas." No dia da descoberta, a mãe prometeu se tratar, mas a situação só se agravou nos anos seguintes. Primeiro ela abandonou o trabalho, como diretora de uma escola. Para sustentar o vício, vendeu o carro. Emagreceu, perdeu os dentes e passou a ficar trancada em casa. Hoje vive da renda de um imóvel alugado. Sai muito pouco e somente com os amigos também drogados ­— os únicos que sobraram no círculo social dela. Apesar de tudo, T.L. não pensa em internar a mãe à força. "Acredito que o primeiro passo para a pessoa melhorar seja entender que está doente."

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(Foto: Redação VejaBH)

Longe da turma

Desde os 13 anos, o técnico em informática D.T., 30, fumava maconha. Aos 18, conheceu a cocaína. O crack veio logo depois, apresentado por uma amiga. Em pouco tempo, ele já estava "queimando" em drogas os 2 500 reais de seu salário mensal. Comprava uma média de dez pedras por dia. Quando o dinheiro acabava, usava artimanhas para conseguir mais dos pais. "Falava que estava ameaçado de morte e pedia a eles 200, 300 reais." Numa ocasião, passou dois dias seguidos dentro de um motel, fazendo uso da droga. Foi quando decidiu se internar. Um ano e dois meses depois, D.T. está limpo, mas é franco: ainda sente falta das pedras. Para não ter recaídas, afastou-se da turma barra-pesada, evita passar perto dos locais onde costumava comprar a droga e mantém-se ocupado. Hoje, faz aula de inglês e pós-graduação, além de trabalhar.

Odin
(Foto: Redação VejaBH)
Flagrado em rede nacional

O advogado criminalista Ércio Quaresma era uma figura pública com um problema privado. Em 2010, quando advogava para o ex-goleiro do Flamengo Bruno Fernandes, ele se viu em meio a uma "inquisição nacional" ao ser flagrado fumando crack por um cinegrafista amador. Ele diz que a pedra entrou em cena cinco anos antes, em consequência de uma curiosidade mórbida depois de visitar a boca de fumo para comprar outras drogas. Depois de passar parte da madrugada consumindo crack, ele dormia até tarde e só começava a trabalhar após as 11 horas. O tratamento veio em 2007, depois do apelo da mulher. Conseguiu cumprir o tratamento sem internações, indo duas vezes por semana a São Paulo para se consultar. Segundo Quaresma, em outubro de 2010, quando o vídeo foi gravado, ele se encontrava em uma recaída. "Para a minha infelicidade, o cinegrafista estava no lugar certo na hora certa." Hoje, o advogado se diz recuperado. "O crack é devastador. Se pudesse dar um conselho, seria: nunca chegue perto do primeiro tapa."

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE