Crônica

Eleições limpas

Por: Luís Giffoni - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)

Uma curiosidade me perseguiu durante a semana: quem sintetizaria os candidatos a vereador nas eleições de outubro em Belo Horizonte? Depois de percorrer as listas de todos os partidos, descobri o nome desse personagem fictício: Zé da Maria da Oficina da Rua dos Ipês. Ele tem forte parentesco com centenas de postulantes, cujas maiores credenciais são a rua em que moram, seu ofício, seu local de trabalho ou alguma relação de afeto. Os Zés da Maria talvez sejam excelentes escolhas, fundamentais para o aperfeiçoamento democrático, mas o eleitor nunca saberá o que eles pretendem fazer. Há candidatos de mais, quase 1 200, partidos de mais, quase trinta, propostas e tempo de menos. O horário eleitoral não ajuda os Zés da Maria. Em seus parcos segundos de fama, eles mal conseguem dizer o próprio nome, quanto mais a que vieram. Sem falar que, em geral, chovem no molhado. Slogans como "causas sociais", "ecologia", "renovação", "juventude" ou similares são repetidos como se, num passe de mágica, seduzissem o eleitor.

Boa intenção os Zés da Maria possuem, é claro, mas de boa intenção o inferno está superlotado há séculos. A bem da verdade, os bem-intencionados talvez equivalham, em número, aos oportunistas. A maioria dos candidatos está de olho em algum encosto na administração municipal, caso seu postulante a prefeito chegue lá. A quase totalidade sabe que não será eleita e entra na disputa apenas para se garantir na futura divisão de cargos. Sempre que se inaugura uma nova gestão, centenas de adversários e desafetos são postos sumariamente na rua, para a alegria dos novos ocupantes. Faz parte do jogo democrático, porém nosso voto acaba tragado pelo caldeirão do diabo, ali onde tudo se troca, onde tudo se iguala, onde vale tudo, com destaque para o interesse particular.

Por outro lado, vários candidatos me deixam com terrível sentimento de mesquinhez e culpa, já que esbanjam dinheiro do próprio bolso para servir à sociedade, embora, por modéstia, não o admitam. Cálculos mostram que, para garantir um assento na Câmara, o postulante deverá investir entre 500 000 e 1,5 milhão de reais. Não sei por quais caminhos o dinheiro garante a votação necessária, mas ele faz o milagre. É o que afirmam os marqueteiros. Digamos, então, que por 1 milhão o cidadão se torne vereador. Façamos as contas. Se a grana for tomada em banco, só os juros absorverão os quinze salários anuais a que o eleito fará jus durante o mandato. Como ele liquidará o principal? Essa aritmética básica me perturba. O desprendimento financeiro de­­veria ser a tônica da propaganda desses mecenas. Quem não se comoveria com tamanha generosidade por Belo Horizonte? A virtude fica ainda mais patente ao observarmos que a vasta maioria dos partidos declarou não ter verbas milionárias para investir em seus candidatos.

Já que o assunto é eleição limpa, pressinto sujeira até o dia 7 de outubro. Não me refiro à possibilidade de algum ficha-suja ser eleito. Refiro-me à sujeira nos muros de Belo Horizonte, sobretudo nos bairros da periferia. Haja pichação. A imundície sobreviverá por anos, até depois da Copa. No dia 7, teremos a apoteose da sujeira. Apesar de a boca de urna ser proibida, santinhos serão fartamente distribuídos — e Belo Horizonte se verá inundada por eles. Não sei que loucura atinge os cabos eleitorais, pois eles, de repente, talvez por desespero, começam a lançar o material de propaganda pelos ares, cobrindo as ruas com toneladas de papel, mesmo que seus candidatos defendam atitudes ecológicas.

Já acompanhei eleições em diversos lugares — por exemplo, França, Inglaterra e Estados Unidos. A democracia funciona por lá, mas não provoca tanta sujeira. Temos muito caminho pela frente para atingir o patamar desses países. Eleições limpas são o passo fundamental. Em todos os sentidos.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE