Crise hídrica

Empresas de lava a jato e lavadores autônomos de BH tentam se adequar ao risco de falta de água

Sistemas de reaproveitamento e redução dos desperdícios estão na pauta para quem ganha a vida limpando automóveis

Por: Glória Tupinambás - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

O empresário Flávio Castro Netto fechou o tradicional Car Wash Uruguai: "Ficou economicamente inviável"

Segundo o último balanço divulgado pela Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), 46,3% dos moradores da Grande BH reduziram o consumo de água no mês passado, em comparação com o mesmo período em 2014. Mas o medo de ficar com as torneiras secas fez com que a mudança de hábitos não se restringisse a atividades domésticas, como evitar desperdícios na hora de tomar banho e escovar os dentes. Fora de casa, uma forte evidência da economia feita pelos belo-horizontinos está no mercado de lavagem de carros. Uma das mais tradicionais empresas de lava a jato da capital, a Car Wash Uruguai fechou as portas no bairro Sion, depois de 22 anos em atividade. "Não possuíamos sistema de reaproveitamento de água e, naquele ponto, o negócio ficou financeiramente inviável", lamenta o proprietário, Flávio Castro Netto, que tinha, em média, sessenta clientes por dia. Na nova unidade montada por ele no bairro de Lourdes, com sistema de reúso de água, são cerca de quinze atendimentos diários.

A cobrança dos fregueses por soluções ecologicamente corretas também obrigou o Posto Arnaldo, na Avenida Brasil, no bairro Santa Efigênia, a instalar um sistema de reaproveitamento. O novo equipamento, em operação desde meados de março, custou mais de 60 000 reais e deve ajudar o estabelecimento a reduzir a conta de água, que chega perto dos 3 000 reais mensais. "Os resíduos captados são filtrados e tratados para ser reutilizados dezenas de vezes", diz o gerente do posto, Edmar Santos. Para cada lavagem, são necessários 120 litros de água. Mas os esforços para evitar desperdícios do líquido precioso não são exclusividade das grandes empresas. Nas ruas, os lavadores autônomos de carro buscam alternativas para driblar a escassez hídrica e agradar à clientela mais exigente. É o caso de Ronan Félix, que montou uma gambiarra com canos de PVC para captação de chuva na Rua Padre Marinho, no bairro Santa Efigênia, onde trabalha há mais de duas décadas. Depois da coleta, a água é tratada e armazenada. "Antes eu trabalhava com uma mangueira. Agora respeito o limite de um balde para limpar cada veículo", conta.

Na Assembleia Legislativa, o reaproveitamento dos resíduos da lavagem de carros deve receber atenção especial da Comissão Extraordinária das Águas. Entre os 35 projetos com foco na preservação dos recursos hídricos que serão apresentados nos próximos dias, há o que prevê a obrigatoriedade da instalação de sistema de tratamento em todos os postos de combustíveis e empresas de lava a jato de Minas Gerais. Está nas mãos dos deputados transformar em lei o que hoje são apenas bons exemplos isolados.

Bom exemplo em lourdes

Os lavadores autônomos de carro ganharam um suporte ecologicamente correto na Praça Marília de Dirceu, na Região Centro-Sul. A água de três nascentes naturais do local foi canalizada pela Associação de Moradores do Bairro de Lourdes (Amalou) e abastece um reservatório construído no subsolo da praça. Os 12 000 litros captados diariamente são usados para lavar calçadas e bancos; limpar pisos e garagens dos prédios da região; irrigar jardins e canteiros da praça; e ainda para encher o balde dos lavadores interessados. "Fizemos a análise da água e constatamos que ela não é potável, mas pode perfeitamente ser usada para limpeza", explica o presidente da Amalou, Jeferson Rios. Antes da iniciativa, toda a água era despejada na rede pluvial.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE