Trânsito

Enquanto o projeto de modernização fica emperrado na burocracia, Anel Rodoviário de BH sofre com cerca de nove acidentes por dia

Mais de 150 000 motoristas arriscam a vida a cada 24 horas na via obsoleta e cheia de armadilhas no percurso

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

O trecho sobre a Avenida Amazonas: uma das prioridades do projeto de reforma

Fim de férias, carros cheios de crianças alegres, via movimentada no retorno pa­­­­ra a cidade. Em um deles está Laura Gibosky, de 4 anos, voltando de um passeio com a tia ao volante e duas primas no banco traseiro. As quatro estão presas no engarrafamento do Anel Rodoviário, na altura do bairro Betânia, quando uma carreta bitrem carregada com 37 toneladas de trigo não consegue reduzir a velocidade e arrasta quinze veículos. Em segundos, uma reviravolta. Cinco mortos, doze feridos, lágrimas que não secam. Depois da tragédia que chocou a cidade, ocorrida há três anos, as autoridades se apressaram em prometer obras de modernização no corredor mais movimentado da região metropolitana, onde a cada dia são registrados nove acidentes. Até agora, porém, a grande reforma não saiu do papel. "A vida continua sendo desrespeitada", reclama, cheio de dor, o servidor público Ricardo Carvalho. Ele é o pai de Laura, uma das vítimas do acidente naquele 28 de janeiro de 2011. A menina teve traumatismo no crânio, no abdômen e na perna esquerda. Ficou com sequelas graves. Hoje, não fala e tem movimentos limitados. Seus pais ainda tentam superar as consequências da perversa conjunção de fatores que destruiu os sonhos para o futuro da filha. De um lado, a imprudência de um caminhoneiro. De outro, o descaso dos governos, que, mandato após mandato, protelam as melhorias no Anel.

As desculpas mais frequentes para tal situação são a falta de verbas e a burocracia do processo de licitação para realizar uma obra de tamanha magnitude, orçada em 1,5 bilhão de reais e com prazo de execução estimado em quatro anos. Construído há cinco décadas como uma alça para conectar três rodovias federais que passam por aqui — hoje batizadas de BR-040, BR-262 e BR-381 —, o Anel Rodoviário se transformou em uma grande avenida, onde viagens de longa distância se misturam aos deslocamentos locais. O projeto original era para comportar uma circulação de 1 500 veículos por dia. Atualmente, ele recebe 154 000, um aumento de fluxo que reflete o crescimento dos 34 municípios da região metropolitana. A última — e única — ampliação ocorreu no fim dos anos 70, quando o Anel ganhou mais 8 quilômetros de extensão, chegando aos atuais 27 quilômetros.

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

KM 14 - Trevo da Avenida Pedro II - Problema: redução da velocidade por causa dos congestionamentos constantes na saída e na entrada do Anel. Solução: aumento da capacidade das alças para facilitar o acesso.

Desde a chocante tragédia no início de 2011, o governo federal, responsável pela via, negocia com o Estado uma parceria para a solução do problema. A intervenção que se discute agora tem por objetivo, entre outras modificações, a criação de viadutos, faixas marginais para o trânsito local e acostamentos. No ano passado, o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (Dnit) delegou ao Departamento Estadual de Estradas e Rodagem (DER-MG) a elaboração de um projeto executivo para as obras, que seriam realizadas com verbas federais. O consórcio vencedor da licitação, que fará o detalhamento das plantas a um custo de 15,6 milhões de reais, tem até novembro para entregar o trabalho. Se tudo sair de acordo com o cronograma, a reforma só ficará pronta no fim de 2018. Diante da urgência, o governo estadual chegou a propor uma ação paralela, um plano emergencial com melhorias operacionais em cinquenta pontos. A ideia era pôr em prática boa parte dele antes da Copa do Mundo, em junho, mas a proposta foi descartada por falta de verba. Chegou-se então à conclusão de que era necessário dividir a modernização em etapas e antecipar a entrega de pelo menos três trechos considerados críticos: sobre as avenidas Amazonas, Ivaí (Praça São Vicente) e Pedro II. Assim, esse primeiro estágio poderia ser concluído até o fim de 2016. Esse plano parcial foi encaminhado ao Dnit no último dia 10, mas corre o risco de mofar em uma gaveta por causa da cruel burocracia.

Para dar prosseguimento ao processo, o que significa realizar audiência pública e abrir concorrência para contratar as obras, o governo estadual precisa ser delegado para tal pelo Dnit. O departamento, porém, alega que Minas Gerais não entregou os documentos necessários para que a formalidade seja cumprida. Aqui, as autoridades argumentam que o órgão federal está exigindo certidões que não podem ser apresentadas, como a de disponibilidade orçamentária, porque se trata de uma obra com recursos federais, e não estaduais. E assim se torna cada dia mais improvável que os motoristas vejam cumprida a promessa mais recente: de que a reforma começaria até o fim deste semestre. "Tenho fé em que o início das obras ocorrerá ainda em 2014", diz o dire­tor-geral do DER-MG, José Élcio Monteze. Segundo ele, uma vez carimbada a tal delegação, levaria apenas três meses para as máquinas entrarem em cena.

Enquanto plantas e documentos percorrem o tortuoso caminho entre Brasília e Belo Horizonte, as estatísticas reforçam a necessidade de uma canetada urgente. O número de óbitos em acidentes registrado no ano passado foi 13% maior que o de 2012. No balanço das 3 201 ocorrências, foram 35 mortes, dezessete delas por atropelamento. "Está virando uma bola de neve, porque a frota e a quantidade de moradores do entorno não param de crescer", afirma o tenente da Polícia Militar Rodoviária Geraldo Donizete, responsável pela fiscalização da via. O Anel passa por 44 bairros em várias cidades e recebe o tráfego de 21 grandes corredores. Apesar das 23 passarelas, muitas vítimas são pedestres que se arriscam na travessia da pista. Do total das ocorrências, 89,6% se devem a falha humana, sobretudo desobediência às regras de trânsito, como os limites de velocidade. A polícia contabiliza uma média mensal de 1 000 autuações, grande parte delas por excesso de pressa ao volante. Uma fatia significativa dos registros, 7,9%, resulta exclusivamente de deficiências no projeto do Anel, como estreitamento de pistas, que são verdadeiras armadilhas para os motoristas. VEJA BH percorreu toda a extensão da via, do bairro Olhos D'Água ao Jardim Vitória, e constatou a média de uma cilada a cada 2,3 quilômetros.

Para Paulo Resende, coordenador do Núcleo de Infraestrutura e Logística da Fundação Dom Cabral (FDC), a modernização do Anel Rodoviário não é mais suficiente para resolver o problema. "No máximo, vai melhorar um pouco a segurança para a circulação, mas não acabará com o impacto negativo no trânsito geral", concorda Nilson Tadeu Ramos, professor do departamento de engenharia da UFMG. Como Resende e Ramos, muitos técnicos cobram a construção do Rodoanel, uma via no entorno de Belo Horizonte para tirar da área urbana caminhões e automóveis que estejam de passagem para outras cidades e Estados. "É a única solução para impedir que o tráfego pesado entre na capital", afirma o diretor da consultoria ImTraff, Frederico Rodrigues. Estudos da Agência de Desenvolvimento da Região Metropolitana mostram que a implantação do Rodoanel significaria uma redução de pelo menos 27 000 veículos no volume diário. Orçado em 4 bilhões de reais, o projeto, que seria construído pelo governo estadual no modelo de parceria público-privada (PPP), é mais um que está preso na pilha da burocracia. Outro é o plano de reativar a malha ferroviária para o transporte de passageiros na Grande BH e reduzir em mais 17 000 carros o tráfego da via. A cada dia em que decisões são proteladas, nove novos acidentes somam-se à trágica estatística do cinquentenário corredor. Quantas Lauras terão a vida estraçalhada para que alguém finalmente se mexa?

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE