Literatura

Escritor Humberto Werneck relança o Desatino da Rapaziada em Belo Horizonte

Livro detalha a relação entre literatura e jornalismo em Minas Gerais entre os anos de 1920 e 1970

Por: João Renato Faria - Atualizado em

Divulgação
(Foto: Redação VejaBH)

Os apaixonados pela história e pela literatura de Belo Horizonte têm programa certo na terça (4). O escritor Humberto Werneck chega à capital para relançar o livro O Desatino da Rapaziada, que completa vinte anos de publicação com uma edição especial. O bate-papo será no Teatro Ney Soares, no campus Lagoinha do Uni-BH e tem entrada gratuita.

Lançada em 1992, a obra conta como sucessivas gerações literárias surgiram em torno de jornais e revistas do estado. Os personagens são autores de alto calibre, como Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Murilo Rubião, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Fernando Gabeira, Ivan Ângelo, Roberto Drummond e vários outros, que ajudaram a transformar Minas em um dos grandes centros da literatura nacional.

Mas se engana quem acha que a história é acadêmica ou professoral. O Desatino da Rapaziada é uma crônica saborosa e fluida, fundamentada não só em pesquisas, mas também na vivência do próprio Werneck, um dos integrantes do último grupo literário articulado de Belo Horizonte. Como bom mineiro, ele salpica no texto vários casos, que ajudam a entender e contextualizar a relação tão íntima entre a escrita de um livro e a produção de uma reportagem para o jornal.

Para o relançamento, ele revela que releu O Desatino da Rapaziada pela primeira vez em vinte anos e ficou tentado a acrescentar um detalhe sobre um dos personagens que inclui a presidente Dilma Rousseff. Em São Paulo desde 1970, ele revela também que quase voltou para BH, em 1982, para assumir o Suplemento Literário do Minas Gerais, mas desistiu quando viu a situação precária em que a redação se encontrava.

O que foi feito para o relançamento do livro? Muita coisa teve que ser revista?

Esse livro foi lançado em 1992 e teve três reimpressões, tecnicamente são quatro edições. Recentemente ele esgotou e a Companhia Das Letras propôs essa nova edição, comemorativa. E eu fui reler o livro pela primeira vez nesses vinte anos e vi que não era o caso de fazer uma atualização. Ele cobre um período de cinquenta anos, e se fosse fazer todas as atualizações, até hoje, virava um outro livro. Então acertei umas feiuras de texto, alguns pequenos ajustes mesmo, quase cosméticos, de construção de algumas frases. Mudei uns tempos de verbo, principalmente de quem já morreu, e reformulei as legendas. Mas foi isso.

Você chegou a pensar em mexer profundamente em alguma coisa?

Olha, a mão coçou. Tem uma parte que eu falo de um bar, o Bucheco, que era meio moderninho, e um dos donos, o Cláudio Galeno Magalhães Linhares participou do primeiro sequestro de avião do Brasil, desviado para Cuba em 1970. E na ocasião ele era casado com uma moça chamada Dilma Rousseff. Mas não tinha cabimento por isso, por que é uma coisa que não tem importância. Quero dizer, importa hoje, mas o livro termina o seu relato mesmo em 1970 e nessa época ela ainda não era presidente, não era nada.

Será que não valia um pé de página?

Tenho horror à nota de pé de página. Tem gente que põe tanta nota que o livro vira uma centopeia. E isso quebraria o tom do livro, ele é uma crônica, tudo bem que apurada com rigor jornalístico, mas ainda assim uma crônica, que se pretende saborosa.

O Desatino da Rapaziada tem vinte anos, mas continua sendo lido, discutido e fonte da história cultural de Minas. Por que ele ainda tem essa relevância?

Os personagens são de primeira ordem. Quando se tem bons personagens, tem meio caminho andado. As histórias deles são saborosas. E por fim, a obra desses caras, pelo menos a maioria deles, são coisas sólidas, monumentais. Então, para estragar isso, precisaria de ser muito barbeiro. O mérito que eu posso ter tido é de administrar um material de primeira ordem. Mas nunca tive a pretensão de fazer um estudo. Mamãe já dizia que eu não era estudioso, e não era mesmo. O que fiz foi contar uma história, que é uma ótima história. Hoje o livro faz parte da bibliografia de dissertações de mestrado, teses de doutorado, me deixa até meio sem graça. E eu tenho horror ao provincianismo, essa coisa que só o vizinho entende. Acho que consegui contar uma historia que interessa à gente de outros lugares e outros tempos.

O livro tem uma pesquisa praticamente arqueológica sobre a história dos jornais de Minas. Como foi ela feita?

Daqui de São Paulo, eu pautava pesquisadoras em BH que ajudaram bastante nisso. Demorei sete meses para escrever o livro e também pesquisei bastante e para isso me valeu a prática de repórter. E várias pessoas ajudaram, eu escrevia e viajava, pesquisava arquivos e livros de vários lugares.

Por que existiu essa simbiose entre jornalismo e literatura e por que ela aconteceu com tanta intensidade em Minas Gerais?

Acho que em qualquer parte existia isso, de pessoas que tem um bom trato com a palavra recorrerem ao jornalismo para complementar renda. Mas em Minas não havia alternativas. Os escritores ou eram burocratas ou jornalistas, isso quando não eram os três. E como Minas sempre teve uma tradição na literatura e no jornalismo, acho que foi natural que isso se casasse desse jeito.

O livro é repleto de bons casos: as empadinhas do Trianon, o candidato Jubileu de Almeida, a carta do Rosário Fusco para o Mário de Andrade, as brincadeiras do Otto Lara Resende com oJoão Ettiene Filho... Qual dos casos do livro é o seu preferido?

Tem coisas que acho incríveis, não sei. Difícil se comprometer com isso. O Rosário Fusco todo era uma história hilária, ficava sem roupa conversando com as pessoas pela janela de casa. Teve aquela vez que o Roberto Drummond comprou um casal de nordestinos... são muitas histórias. No livro eu cito uma vez em que o Hélio Pellegrino veio a Belo Horizonte e foi encontrar com a turma do Suplemento no Maria das Tranças. Ele incitava o pessoal a sair do estado, ir para o Rio ou São Paulo, e vendo aquela travessa, com o molho, ele falou: "Minas é um útero pantanoso". E foi muito marcante, ele era muito performático. E eu estava lá, agora posso admitir isso, fui um dos que viu essa fala.

O livro termina em 1970, quando o Suplemento cai nas mãos da Academia Mineira de Letras. Por que terminar ele ai? Não existiu, de fato, mais nenhuma geração literária em Minas?

O Suplemento nasceu em descrédito. E quando deu certo quiseram tomar, não mediram expediente para isso. E o jornal, enquanto o Murilo Rubião comandou, foi incrível. Ele era o cara mais democrático que já vi, acolheu tudo que tinha qualidade mesmo que não fosse do gosto dele. Eu não conheço ninguém que fez isso. Agora, acho que foi a ultima geração articulada. Depois do AI-5, houve uma desarticulação da sociedade como um todo, e como grupo literário, mesmo, nunca mais houve nada. Mas não sei nem se deveria ter, os tempos mudaram tanto. E veja bem, não estou falando que não houve produção, houve sim, mas não naquele sentido de uma união de pessoas.

Você foi um dos mineiros que o livro define como sem defeito de fabricação, ou seja, "exportável" e está desde 1970 em São Paulo. Você vem com que frequência para BH? Como a cidade te parece, principalmente na produção literária e na imprensa?

Eu sempre quis morar num lugar maior. Minha família é carioca, mas meu avô foi para Minas tratar de tuberculose e ficou. Brinco que sou mineiro por causa do bacilo. E eu sempre quis morar no Rio, mas nos anos 1960 a Abril criou suas revistas, o Estado de S. Paulo lançou o Jornal da Tarde e o fluxo mudou para São Paulo, já que os salários aqui eram maravilhosos. O Ivan Ângelo, por exemplo, quando veio para cá, ganhava mais do que nos três empregos que ele tinha em BH. Três empregos, imagine isso. Mas eu vou com bastante frequência. Meus pais, quando era vivos, estavam aí, todos meus irmãos, tenho oito deles vivos ainda, vários sobrinhos. E eu adoro ir a Belo Horizonte. Quando eu saí, em 1970, estava indisposto com a cidade, o abafamento moral, a falta de perspectiva, a falta de trabalho frequente. Tenho uma frase que não é só piada, mas BH melhorou muito depois que eu saí.

E você pensa em voltar a morar aqui?

Uma vez eu pensei. Em 1982, estava na VEJA e insatisfeito. O Tancredo foi eleito e o Murilo Rubião estava assumindo a Imprensa Oficial e me convidou para o tocar o Suplemento e disse que ia tentar me conseguir vencimentos paulistas. Para isso, eu ia ser de uns cinco conselhos de administração de empresas públicas, uma articulação complicadíssima. Mas quando eu fui lá na redação para conversar, eu vi uma lâmpada nua, pendurada por um fio, e uma meia dúzia de funcionários com vencimentos não paulistas, mas acreanos. E dimensionei aquilo, e desisti.

Sempre um Papo com Humberto Werneck. Teatro Ney Soares, UniBH. Rua Diamantina, 463, Lagoinha. Telefone: 3262-1501. Terça (4), 19h30.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE