Copa do Mundo

A epopeia do Mineirão

A menos de seis meses do fim do prazo de conclusão, 2 700 operários trabalham em ritmo acelerado para terminar a reforma orçada em 695 milhões de reais

Por: Cedê Silva - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)

Na reta final: funcionários têm até dezembro para entregar as obras

Eram 9 horas da última segunda-feira (2) e um pelotão de operários aguardava às portas da entrada principal do Estádio Governador Magalhães Pinto, o Mineirão, na Avenida C, na Pampulha. Eles se juntariam a outras centenas de funcionários que, do lado de dentro, estão envolvidos em uma operação de guerra para concluir, até o próximo dia 21 de dezembro, a monumental reforma da arena para a Copa do Mundo. Um mês atrás, havia 2 200 homens trabalhando nela. Outros 500 chegaram nas últimas semanas. O ritmo é alucinante, e a pressa não é sem razão. Cada dia de atraso na conclusão das obras - orçadas em 695 milhões de reais - implica uma multa de 100 000 reais para o consórcio Minas Arena, que venceu a licitação para concretizar o projeto e será responsável pela sua administração por 25 anos. Iniciadas em junho de 2010, elas vão consumir 107 000 metros cúbicos de concreto e 9 000 toneladas de aço, mais que o triplo do que foi gasto no Estádio Independência. Ocorrem ali, em essência, duas obras. Uma é a reforma do próprio Mineirão, que passará a ter capacidade para 64 000 pessoas e atenderá a todas as exigências de infraestrutura da Fifa. A outra é a construção de uma esplanada com 80 000 metros quadrados de piso, uma área livre que equivale a dez praças da Estação, e capacidade para um público de mais de 60 000 pessoas. "A ideia é que o espaço abrigue eventos durante a semana inteira", explica o arquiteto Bruno Campos, um dos três responsáveis técnicos pelo projeto. O plano é transformar o local em uma grande praça, com bancos, jardineiras, lojas, área para shows e restaurantes. Além de tomar sol e andar de skate ou bicicleta, será possível almoçar com vista para a Lagoa da Pampulha.

Em dias de jogo, o imenso vão livre garantirá espaço para a circulação da multidão, resolvendo um problema histórico do Mineirão. Em caso de emergência, garante o consórcio, as arquibancadas e os camarotes poderão ser esvaziados em apenas oito minutos. As longas filas que se formavam na escadaria pouco antes de uma partida fazem parte de uma cena que não será mais vista. Na nova arena, haverá 106 catracas para garantir a entrada rápida dos torcedores. Todos os assentos serão numerados e retráteis. A visão do gramado, muito melhor. A distância da linha de fundo do campo até o início da arquibancada foi reduzida de 42 para 20 metros. Nas laterais, ela caiu de 29 para 19 metros. Os 88 pórticos de concreto armado, tombados pelo Conselho do Patrimônio Histórico de Belo Horizonte, servirão de suporte para as treliças de aço da nova cobertura sobre a arquibancada.

Os operários trabalham duro para dar conta da encomenda. "Vamos entregar tudo na data combinada", afirma o mestre de obras Adnilson Santos da Silva, de 44 anos. Todos os dias, ele levanta às 4h30, para não se atrasar. Às 6 horas, pontualmente, abre o turno da turma de 380 operários que está sob sua supervisão. Segundo o último relatório do Ministério dos Esportes, divulgado em maio, as obras no estádio mineiro caminham conforme os prazos previstos, embora não sejam as mais adiantadas entre as planejadas para a Copa de 2014. A liderança está com o Castelão, em Fortaleza, que anda em ritmo mais acelerado. De acordo com a Secretaria Estadual Extraordinária da Copa, na semana passada 67% das intervenções no Mineirão já estavam concluídas. Faltavam ser instaladas apenas 5% das peças pré-moldadas da esplanada. Nas arquibancadas, a fase é de colocação dos pisos. Nos banheiros e bares, o trabalho já está em fase de acabamento. E o nivelamento do gramado começará em breve. A responsabilidade é grande. Um ano antes da Copa do Mundo, em junho de 2013, o Mineirão será palco de três partidas da Copa das Confederações. Se o Brasil for líder de seu grupo na primeira fase da competição, vai jogar a semifinal aqui. Já na Copa do Mundo, há a possibilidade de a seleção fazer em BH os jogos das oitavas de final e da semifinal.

A sofisticada intervenção para adequar o Gigante da Pampulha aos padrões internacionais levará, ao todo, trinta meses. Será menos, claro, do que os cinco anos da construção da arena original. "Mas 90% das obras foram feitas entre novembro de 1964 e setembro de 1965", lembra Abílio Pereira Veiga, de 74 anos, um dos treze engenheiros envolvidos na obra original. "Todo mundo trabalhava doze horas por dia, de domingo a domingo." Em meados da década de 60, então um recém-formado, solteiro, Veiga supervisionava o turno da noite, das 19h às 7h, quando eram feitos os arremates. Durante a partida inaugural, em 5 de setembro de 1965 - quando a seleção mineira venceu por 1 a 0 o River Plate da Argentina -, Abílio cochilou. Havia passado os três dias anteriores trabalhando quase sem interrupção.

O feitor de carpintaria Juvecino Gomes, de 55 anos, é outro que tem lembranças muito vivas dos tempos em que o Mineirão estava sendo erguido. Seu pai, Alacrino, hoje com 92 anos, foi um dos pedreiros da obra. "Ele dormia e comia aqui, e depois viu o Pelé jogar", recorda. "Meu pai gosta de contar que ele ajudou a construir e eu, a reformar." No famoso poema Quem Faz a História, o dramaturgo alemão Bertolt Brecht pergunta: "Quem construiu a Tebas das sete portas? Nos livros constam os nomes dos reis. Os reis arrastaram os blocos de pedra?". No nosso Mineirão, o nome do governador Magalhães Pinto continuará estampado na fachada. Em cada metro quadrado, porém, estarão as marcas de guerreiros como Alacrino e Juvecino Gomes.

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(Foto: Redação VejaBH)

A luz do estádio

Morador do bairro Florença, em Ribeirão das Neves, José Ricardo Soares Ferreira, de 50 anos, levanta às 4h para chegar ao Mineirão antes das 6h. Depois de abrir valas para as tubulações hidráulicas, Ceará, como é chamado pelos colegas, passou para a instalação das luminárias. A rotina é pesada e o trabalho só acaba às 19h, mas não lhe falta disposição para continuar por lá. Às quintas, fica até mais tarde para as partidas do campeonato interno de futsal, realizado no Mineirinho. Ele é o goleiro do Jacaré Futebol Clube. "O bom da obra é o nosso futsal", brinca. Nascido no sertão cearense, ele tinha 18 anos quando chegou a BH em busca de oportunidades. "Aqui é uma cidade maravilhosa", diz. Com o salário mensal de 750 reais, aumentado pelas horas extras, Ceará sustenta a mulher e o casal de filhos que teve por aqui.

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Trabalho que liberta

Chefe da equipe de faxina, Francisco das Chagas Queiroz, de 52 anos, comanda 38 funcionários, muitos detentos como ele, que cumpre pena há dezessete anos por assalto a banco e, todos os dias, precisa voltar à Penitenciária José Maria Alkmin para dormir. Chiquinho, como é conhecido, espera quitar sua dívida com a Justiça em breve. A cada três dias de trabalho, um é deduzido da pena. Seu desempenho acima da média garantiu duas promoções em apenas sete meses. Exigente, cobra de seu grupo a manutenção da limpeza dos banheiros e refeitórios da obra. "Nosso trabalho não pode ser igual, tem de ser melhor", diz. Quando encerra o turno, antes de voltar ao presídio, ainda tem disposição para frequentar as aulas da faculdade de enfermagem. Chiquinho já fez planos para o futuro: quando ganhar a liberdade, além de passar mais tempo com a família, quer continuar trabalhando no Mineirão. "O consórcio vai ficar aqui por 25 anos, quero ficar também."

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O capitão do time

Se depender do mestre de obras Adnilson Santos da Silva, o Bahia, de 44 anos, tudo será entregue dentro do prazo. "Gosto de me preparar, para não dar correria", afirma. Apesar de morar no Castelo, a apenas quinze minutos de carro do Mineirão, ele acorda às 4h30 para tomar o café da manhã tranquilamente. Chega ao estádio às 6 horas, lê os projetos e distribui as tarefas à equipe que coordena, de 380 pessoas. Bahia, que estudou até a 8ª série, orgulha-se de hoje investir na educação dos dois filhos, matriculados em escola pública e em um curso particular de inglês. "Aqui para mim é um trabalho divertido", diz. "Tenho muito orgulho de estar nessa obra."

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De volta ao campo

Que ninguém pense que Viviane Aline da Silva, de 27 anos, perdeu a paixão pelo futebol. Depois de disputar a Copa Centenário, em 1997, e jogar no Santa Cruz ao lado de Marta (considerada por cinco vezes consecutivas a melhor jogadora do mundo), Viviane deixou o esporte para terminar o ensino médio e procurar emprego. Para ela, participar da reforma do Mineirão é uma honra. Começou na faxina e foi promovida a apontadora. De prancheta na mão, ela entra em campo para fazer a lista de presença dos funcionários. "Esta é a primeira obra em que trabalho, e estou gostando muito porque aprendo coisas sobre várias áreas", conta. No campeonato de futsal dos operários, ela mata a saudade da bola: joga como pivô - é a única mulher nas partidas.

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Nas alturas

Para chegar ao posto de trabalho, o operador de grua Heleno Santos de Melo Júnior, de 34 anos, precisa subir 42 metros. E diz que é pouco. "Fiz um prédio no Belvedere em que eu subia 100 metros", relata. Carioca, Melo Júnior participou, nos últimos quatro anos, de algumas das maiores obras feitas por aqui. Veio para Belo Horizonte em 2008, para trabalhar na construção da Cidade Administrativa, e acabou sendo chamado para outras empreitadas. Lá do alto, ele - que é filho de um operador de grua - manobra caçambas de concreto de um ponto a outro do estádio. Recebe instruções pelo rádio, mas está sempre sozinho. "Eu e Deus." Embora não falte trabalho para ele na capital mineira, sonha mesmo é em voltar para o Rio de Janeiro com a mulher e a filha quando o Mineirão ficar pronto.

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De pai para filho

O Mineirão faz parte da história da família do feitor Juvecino Gomes, de 55 anos. Foi graças ao dinheiro que seu pai, o pedreiro Alacrino, ganhou durante a construção do estádio, na década de 60, que ele e os dez irmãos puderam mudar-se de Caratinga, no Vale do Rio Doce, para a capital. "Ele comprou um lote pertinho do Cristo, no Barreiro", lembra. Na obra de reforma do estádio, Gomes cuida hoje da sinalização e segurança, mas começou como carpinteiro, fazendo as fôrmas das vigas que recebem concreto. Quase cinco décadas depois, é ele quem ajuda nas despesas do pai com a renda que obtém trabalhando na obra do grandioso estádio dos mineiros.

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Um sonho concretizado

Inaugurado em setembro de 1965, o Mineirão foi construído ao longo de cinco anos. O sonho de erguer uma grandiosa arena na capital começou com o governador Juscelino Kubitschek (1902-1976), mas só seria concretizado dois governos depois, na gestão de José de Magalhães Pinto (1909-1996), que batizaria o estádio. Trabalhando em dois turnos, 3 000 operários estavam envolvidos no projeto. A partida inaugural - quando a seleção mineira derrotou o River Plate da Argentina por 1 a 0, com gol de José Roberto Bougleaux, o Buglê, do Atlético - teve um público de 73 000 pessoas. Foi um dos primeiros estádios frequentados por mulheres. "O Cruzeiro de Raul, Tostão e Piazza fascinou as mulheres numa época em que o Mineirão as libertou para que descobrissem o futebol como primeira participação feminista mineira", publicou a revista PLACAR de 15 de julho de 1983. O recorde de público é de 1997, quando 132 000 torcedores viram a vitória do Cruzeiro sobre o Villa Nova

por 1 a 0 na final do Campeonato Mineiro.

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(Foto: Redação VejaBH)

5 000 desenhos para acompanhar

Um dos responsáveis técnicos pelo novo Mineirão, o arquiteto Bruno Campos, de 40 anos, vai até lá semanalmente para assegurar que tudo saia como planejado. "São quase 5 000 desenhos, considerando todos os projetos, desde os de arquitetura até os da parte elétrica e ar condicionado", enumera. "É um ritmo alucinante, e todo dia tem um ajuste a ser feito." Ele diz que o desafio é deixar não apenas uma estrutura que comporte os jogos da Copa do Mundo, mas um legado que, depois, seja usado em eventos menores. "É como se fossem dois projetos em um." Experiência não lhe falta. Com os sócios Marcelo Fontes e Silvio Todeschi, Campos foi responsável pelo projeto do Complexo Esportivo de Deodoro, no Rio de Janeiro, erguido para abrigar quatro modalidades dos Jogos Pan-Americanos de 2007.

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Fonte: VEJA BELO HORIZONTE