Sociedade

Escola de anjinhos

Por favor, obrigado, desculpe, com licença... Crianças aprendem o bê-á-bá das boas maneiras em aulas de culinária, jardinagem, pintura e bordado

Por: Carolina Daher - Atualizado em

Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Meninas de 7 a 9 anos em oficina de culinária: elas preparam um prato e põem a mesa conforme as regras

São 8h30 de uma sexta-feira ensolarada e os alunos chegam animadíssimos à escola. Estranho? Mais ainda quando a aula for sobre boas maneiras. Sim, eles aprenderão que os cotovelos jamais vão à mesa, que a dona da casa é sempre responsável pelo bem-estar de seus convidados e que, para cozinhar, é preciso usar touca e lavar muito bem as mãos. Há trinta anos, a escola Maria Arte e Ofício, no Carmo, ajuda a transmitir bons modos para a garotada. Segundo Maria do Carmo Guimarães Pereira, a proprietária, com o fim das aulas de etiqueta nas escolas e com muitos dos pais fora de casa em tempo integral, abriu-se uma lacuna na educação. "A ideia das aulas surgiu quando percebi esse espaço vazio", conta ela. De lá para cá, quase 5 000 belo-horizontinos passaram por suas oficinas. "Ainda me emociono quando recebo o convite de casamento ou de formatura de um ex-aluno", revela Maria.

A casa lembra a da vovó. Jardim e quintal com brinquedos, uma cozinha onde todo mundo é convidado a entrar e uma mesa imensa na copa. Nos 300 metros quadrados são oferecidas diversas atividades, como bordado, culinária, cerâmica, jardinagem, mosaico, pintura e marcenaria. Em cada aula, a etiqueta está sempre presente. Os encontros ocorrem às segundas e às sextas, de manhã e à tarde. As turmas são formadas por idade. Meninos e meninas de 4 a 6 anos ficam juntos. A partir dos 7 anos, eles são divididos por sexo.

Os monitores usam as questões vividas no cotidiano pelas crianças como "ganchos" para a discussão de como se comportar. Durante a aula de culinária, por exemplo, depois de prepararem juntas uma torta de abobrinha, as meninas vão para a sala. Primeiro, aprendem a dobrar o guardanapo e, depois, a pôr a mesa. Garfo à esquerda e faca à direita. "A serra da faca deve estar virada para o lado do prato, assim se evita que alguém se corte", explica a aluna Gabriela Francisco, de 9 anos. "Tem gente que acha que etiqueta é careta. Muito pelo contrário, é uma ferramenta de socialização", diz a terapeuta ocupacional Ana Cristina, filha da fundadora e que hoje atua ao lado da mãe. "As regras não vêm para limitar e, sim, para libertar. Se sei me comportar, sou aceita em qualquer ambiente." A professora Glaura Helena Panadés de Castro viu em poucos meses a mudança de atitude da filha, Helena. "Santo de casa não faz milagre", acredita ela. "Quando uma pessoa de fora do convívio fala, as crianças assimilam melhor." Para Glaura, no entanto, as aulinhas não eximem a responsabilidade dos pais. "Os filhos repetem os nossos comportamentos", destaca.

Durante as duas horas semanais que passam na escola, palavras e expressões bonitas como por favor, com licença, sinto muito e obrigado são repetidas exaustivamente. "A Gabi é incapaz de chegar a um lugar e não cumprimentar os presentes", orgulha-se Isabella Kuschel Nagl, referindo-se à filha Gabriela, de 9 anos. Há cinco, a menina frequenta a Maria. Os resultados motivaram a administradora a levar neste semestre também a caçula, Fernanda, de 4. "Elas não faltam de jeito nenhum."

A propaganda é o famoso boca a boca. Assim, a economista Roberta Carvalho matriculou os filhos, Eduarda, de 4, e Diogo, de 6, e, de quebra, o afilhado, Bernardo, de 5, graças à indicação de uma amiga. As mensalidades custam em média 170 reais, mais a taxa de material de 125 reais por semestre. Não incluído, o lanche (biscoito, bolo ou pão artesanal, fruta e suco) sai por 5,50 reais. Não há taxa de matrícula. "É um investimento que vale a pena. Lá eles aprendem, além de normas de comportamento, a lidar com o senso de justiça, com o não fazer com o outro o que você não gostaria que fizessem a você", diz Roberta. Para a fundadora, Maria, os pais também recebem algumas lições. "Algumas mães dizem que a vida fica mais complicada", conta. "As crianças chegam em casa e chamam a atenção caso a mesa não esteja arrumada corretamente, alguém se sente com a postura errada ou fale muito alto." Aluno desde o início de 2012, Pedro Henrique Valente, de 5 anos, estava concentradíssimo na tarefa de culinária. "Eu consegui cortar a abobrinha todinha sem me machucar", lembra. Depois, ajudou a fazer uma torta. "Ficou uma delícia."

Os dez mandamentos da etiqueta infantil

1. Não fale mal dos outros. Fazer fofoca é muito feio.

2. Fale sempre a verdade. Isso é sinônimo de respeito às outras pessoas.

3. Pense antes de agir e seja uma criança responsável.

4. Coloque-se sempre no lugar do outro. Não faça nada que você não gostaria que fizessem com você.

5. Seja organizado e guarde seus objetos com bastante cuidado.

6. Preste atenção no que faz. Assim você evita se machucar, quebrar objetos e ser uma criança estabanada.

7. Quando se sentar, fique quietinho na cadeira, seja a do avião, a da escola ou a do cinema.

8. Seja gentil, e diga "por favor", "obrigado" e "com licença". Assim será bem-vindo nos lugares.

9. À mesa, jamais deite a cabeça sobre os braços nem mantenha os cotovelos apoiados.

10. Não leve para casa o que não é seu. Vale brincar com o brinquedo do colega, mas não pode pegar.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE