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Escola de Samba Cidade Jardim, em favela do Luxemburgo, ganha reforma e novo visual

Quadra da escola, com festas abertas ao público, foi repaginada por artistas plásticos

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Victor Schwaner/Odin - Arquivo Escola de Samba Cidade Jardim - Bernardo Biagioni
(Foto: Redação VejaBH)

O galerista Bernardo Biagioni e o pintor Emanuel Mosh, na agremiação (à esquerda), um dos novos painéis (à direita) e a foto de um desfile dos anos 60: história reinventada

Quem disse que belo-horizontino não sobe o morro para sambar? Depois que virou ponto de balada para moderninhos, a quadra do Grêmio Recreativo Escola de Samba Cidade Jardim, no Morro de Santa Maria, a três quarteirões da Avenida Raja Gabaglia, mudou para receber melhor os frequentadores, cerca de 1 200 jovens que lotam o galpão nas tardes e noites de sábado. "A gente aluga o espaço a uma produtora de eventos e, além de fomentar o samba, usa o dinheiro para fazer oficinas, de balé a capoeira", conta o presidente, Alexandre "Lee" Costa. Artistas plásticos da galeria de arte Quartoamado, que vem se destacando no cenário belo-horizontino, foram contratados para garantir a repaginação do lugar. "Criamos o projeto Residência Cidade Jardim, onde vivemos as experiências de lá por um mês", explica o galerista Bernardo Biagioni. O resultado está espalhado pelas paredes: desenhos coloridos que resgatam as raízes da agremiação.

A escola de samba foi fundada em 1961, por Jairo Pereira da Costa, pai de Lee. Aposentado aos 44 anos, ele resolveu dedicar o tempo livre a sua paixão, o samba. Em 1957, entrou para a Escola União Serrana, do bairro Serra. Quatro anos depois, acabou criando a própria escola, no bairro Cidade Jardim, onde morava, nos moldes das do Rio de janeiro. Os foliões da bandeira vermelha e branca saíram pela primeira vez em 1962 e, a partir do ano seguinte, emplacaram onze títulos consecutivos no Carnaval de rua da cidade. "Todas as escolas ganharam, nos anos 70, um espaço para a construção de galpão, mas nós fomos os únicos que realmente erguemos um", lembra Lee. A década de 80 foi áurea. "Era o tempo de uma bela disputa entre Cidade Jardim e Canto da Alvorada. Naquela época, nossos desfiles eram melhores que os de São Paulo", recorda, orgulhoso. Sem verba, os anos 90 foram perdidos. A retomada, segundo ele, só ocorreu em 2002, quando os desfiles ocuparam a Avenida dos Andradas. "Em 2008, ano em que meu pai morreu, quase fomos desapropriados, mas demos a volta por cima mais uma vez e transformamos a quadra em um centro cultural onde são realizados shows, oficinas de teatro e celebrações", diz o presidente.

A intervenção dos artistas da Quartoamado - Clara Valente, Emanuel Mosh e Luís Matuto - renovou a quadra sem romper com sua identidade visual. Todo o trabalho de restauro foi registrado em um documentário da produtora iLoveBubble. O projeto de renovação prevê ainda a instalação de um painel com fotos históricas. Entre as lembranças que a agremiação quer eternizar estão a participação da ex-passista Maria da Penha Ferreira, a Pinah, estrela da Beija-Flor de Nilópolis (RJ), que ficou conhecida por ter dançado com o príncipe Charles, em 1978, no Rio de Janeiro, e a do polonês Roberto Szaniecki, que hoje é carnavalesco da Grande Rio. "A história de nossos mestres, porta-bandeiras e passistas não pode morrer", afirma Lee.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE