Crônica

Um escritor no CTI

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Senti falta de ar quando subia um dos morros do Parque das Mangabeiras, minha mulher insistiu para darmos uma passadinha no pronto-socorro, resisti, acabei indo. Disseram que eu sofria um ataque do coração, me grudaram, tiraram a roupa, mandaram para o CTI, me espetaram todo. Crucificaram-me no leito: nos braços abertos, sem que eu pudesse movê-los, aparelhos apitavam igual submarino afundando em filme da II Guerra e agulhas entravam não sei quantos metros dentro das veias. Fiquei com os olhos deste tamanho. Até então, eu só tinha passado em hospital para visitar amigos e parentes ou para procedimentos rápidos.

Minha primeira reação foi negar tudo. Nunca houve um único caso de infarto na família, meus exames de sangue são normais, tenho bom condicionamento físico, privilegio dieta de verduras, frutas e carne magra, não fumo, meu ergométrico recente recebeu nota 10. Por que eu? Mas os médicos e sua parafernália sabiam mais que minha negação. Para me consolar, o cardiologista disse que sofri o infarto dos sonhos: levinho, sem dor, numa artéria periférica, sem nenhum comprometimento do coração, o que me permitiria levar uma vida absolutamente normal. Infarto dos sonhos? Pesadelo também é sonho.

O CTI me pareceu, a princípio, uma sala de tortura. Ouvi respirações ofegantes, eventuais gritos, testemunhei corre-corre com aparelhos que lembravam os de inquisidores e ditadores. Depois me senti prestes a ser abduzido. Surgiram sobre meu leito uns homenzinhos verdes com uma máquina que, em minha sonolência, me remeteram a ficção científica: raptavam-me para algum planeta distante. Enganei-me. Era apenas um aparelho de raios X. Os vampiros, porém, foram reais. Com a desculpa de fazerem exames, banquetearam-se com litros de meu sangue. Um deles, depois de quase esvaziar minhas veias, voltou para encher mais um tubo. Esquecera-se da sobremesa.

A partir do segundo dia, comprovei, uma vez mais, que nossa humanidade está presente em cada cantinho do mundo, até naquele onde a morte circula com desenvoltura. Descobri a dura luta pela sobrevivência que enfrentam os enfermeiros, às vezes tratados com certo desprezo pelos médicos. Um deles larga o plantão de doze horas, voa para outro hospital para assumir novo plantão, também de doze horas. Confessou-me que estava exausto, ano após ano nessa labuta. Escutei, através do corredor, casos de amor proibido, paixões reprimidas, problemas financeiros insolúveis, filhos rebeldes. Uma senhora rezava dia e noite num terço com contas tão grandes que cada pai-nosso valia por três. Um paciente recusou o leito no canto do CTI, pois ali o feng shui não era bom. Vizinhos me obrigaram a acompanhar todos os programas de televisão madrugada adentro. Fiquei emocionado com a garota que passou a última noite de mãos dadas com o avô desenganado. De fato, de manhã cedo, à minha esquerda, ela chorava o desenlace. Mais tarde, à minha direita, foi a vez de o paciente com infecção generalizada partir. Não vi a hora em que a morte saltou meu leito, poupando-me. Ainda bem.

Depois de oito dias no CTI e um stent na artéria, retomei a vida. Vida normal, sem sequelas. Já andei no Parque das Mangabeiras e por nossas ruas. Mas caminho por Belo Horizonte com um olhar diferente, como se minha cidade se tivesse revelado. Não senti a dor do infarto. O que agora me dói é a dor que infarta tanta gente e que não pode ser curada por nenhum stent.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE