Artes

Espaço onde Amilcar de Castro trabalhou nos últimos anos de vida é aberto à visitação

Ateliê nas montanhas do escultor mineiro abriga cerca de 1 000 peças

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A psicanalista Ana Maria de Castro: "Meu pai trabalhava diariamente e tinha uma produção intensa". O edifício que é sede do Instituto Amilcar de Castro (de cima para baixo), em Nova Lima, o material de trabalho que faz parte do acervo e o artista: memória preservada

Um caminho de pedras no condomínio Ville de Montagne, em Nova Lima, leva às esculturas do artista Amilcar de Castro (1920-2002). As obras instaladas na pracinha são um convite para entrar no ateliê em que o mineiro, um dos principais nomes da arte neoconcreta brasileira, trabalhou nos dois últimos anos de vida. No moderno edifício de três andares, com uma bela vista para as montanhas, estão cerca de 1 000 peças que resumem uma carreira de mais de sessenta anos. O acervo reúne desde gravuras até suas famosas esculturas em chapa de ferro. Pincéis, vassouras e outros materiais de trabalho, do jeito que ele os deixou, também estão preservados. Esse tesouro, administrado por seus três filhos - Rodrigo, Ana Maria e Pedro -, já pode ser conhecido, por enquanto apenas em visitas agendadas. Em janeiro, porém, será aberto definitivamente ao público. "A ideia é transmitir toda a memória de um artista e servir de centro de formação", diz Ana Maria, que se divide entre a carreira de psicanalista e a presidência do Instituto Amilcar de Castro.

Desde 2004, a entidade sem fins lucrativos vem se empenhando na catalogação e certificação das obras. "Meu pai trabalhava diariamente e tinha uma produção intensa, por isso há muito que fazer", afirma a filha. Para acelerar o processo, ela busca parcerias com universidades e com a iniciativa privada. Se conseguir apoios, a inauguração poderá ser antecipada. No espaço que Ana Maria chama de "ateliê-casa", há também pinturas do irmão mais velho, Rodrigo, e mobiliário do caçula, Pedro - os dois seguem a trilha criativa do pai. A psicanalista está construindo o "jardim de esculturas", que abriga as peças maiores e servirá de espaço para eventos. "Queremos fazer a cultura circular por aqui." A obra mais importante, a premiada Estrela, de 1953, continua, entretanto, na casa de Ana Maria. "Ela é o meu xodó", confessa. "Mas, evidentemente, em algum momento vou trazê-la para cá."

Amilcar de Castro, nascido em Paraisópolis, no sul do estado, chegou a BH ainda menino, no fim dos anos 30. Assim como o pai, um promotor de Justiça de quem herdou o nome, ingressou no curso de direito. Quando estava no 3º ano, assistiu às primeiras aulas do pintor Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), que, a convite de Juscelino Kubitschek (1902-1976), então prefeito da capital, fundara aqui uma escola de arte. E acabou fazendo duas carreiras paralelas, como advogado e artista. Na década de 50, Amilcar se entregou a novas experiências, como a reformulação gráfica do Jornal do Brasil. Por causa de uma paixão, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se casou com Dorcília Caldeira. Lá, aproximou-se de outros artistas renomados, como Hélio Oiticica (1937-1980). Na década de 60, sua obra foi reconhecida no exterior, e ele resolveu residir, com a mulher e os três filhos, em Nova York. Em 1972, voltou para Belo Horizonte, de onde não mais saiu. Amilcar costumava dizer que parte do seu sucesso vinha da alegria que sua obra continha, uma coisa "clara, precisa, sem subterfúgios". É esse o sentimento que seus trabalhos provocam e que os visitantes agora poderão vivenciar.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE