Moda

Estilista mineiro Victor Dzenk colhe os frutos da consagração

Queridinho de atrizes, cantoras e socialites, ele pretende abrir maisons em Búzios, Trancoso e São Paulo

Por: Carolina Daher - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A modelo Renata Johnson, que veste peça da próxima coleção, e Dzenk: flores inspiradas no estilo da cantora Clara Nunes

Ao longo de duas décadas, o estilista belo-horizontino Victor Dzenk conquistou o respeito nas passarelas e certa fama de mal-humorado. "Quando você só planta e não vê resultado, acaba ficando emburrado, é inevitável", justifica-se. Ele jura, porém, que melhorou muito nos últimos tempos. E não era para menos. Afinal, não lhe faltam motivos para desfranzir a testa. Um deles é a realização de seu sonho: ter lojas próprias espalhadas por aí. Embora sua marca já fosse bastante conhecida e admirada — está à venda em cerca de 150 endereços no Brasil e em mais de vinte no exterior -, ele só conseguiu estampar seu nome no letreiro em 2011. A primeira maison foi inaugurada em Ipanema, no Rio de Janeiro. No ano passado, abriu mais duas: uma em Lourdes, a primeira em sua cidade; outra no Rio, na Barra da Tijuca. Até 2014, pretende aportar em balneários luxuosos como Búzios, no litoral fluminense, e Trancoso, no sul da Bahia. São Paulo também está nos planos. Queridinho de atrizes globais, cantoras e socialites, é hoje, aos 43 anos, um criador celebrado e um empresário rico. Não dava mesmo para continuar mal-humorado.

Victor Corrêa Dzenkauskas - o sobrenome é de origem lituana - poderia ter seguido carreira militar como o pai, o suboficial reformado Vitautas. Mesmo depois de se mudar para Lagoa Santa, na região me­­tropolitana, continuou cursando o ensino mé­­dio no Colégio Militar, na Zona Norte da capital. Excelente aluno, formou-se com notas que lhe garantiam uma vaga na Aca­­demia Militar das Agulhas Negras, que forma oficiais para o Exército, em Resende (RJ). "Preferi trabalhar com as agulhas brancas", brinca. Desde muito novo, ele gostava de ver a mãe, Tereza, costurando para os três filhos. Ficava imaginando modelos, embora não soubesse como pôr suas ideias no papel. Aos 15 anos, ainda aluno do Colégio Militar, matriculou-se em um curso de desenho de moda no Senac. Queria aprender a fazer croquis. Um ano depois, conseguiu seu primeiro emprego no ramo, como estagiário da Casa Rolla. "Foi uma escola e tanto: lá eu conheci os tecidos", lembra. Acabou contratado e passou três anos desenhando roupas exclusivas para clientes da tradicional loja da capital mineira. Em 1989, foi estudar moda na escola Esmod, de Paris, onde passou quatro anos. De volta a BH, só pensava em abrir sua confecção, o que conseguiu em 1998. No mesmo ano, fez seu primeiro desfile, no extinto BH Fashion Week, e apresentou o estilo em estamparia digital que se tornaria sua marca registrada. "No início, tinha de mandar fazer a impressão na Ásia", lembra ele, que hoje mantém em seu ateliê um grupo de profissionais para cuidar exclusivamente das estampas.

A rigidez com que encara o trabalho é herança da formação militar. Dzenk costuma ser implacável com quem faz corpo mole. "Exijo o melhor de mim e da equipe." Segundo Bárbara Bovareto, uma de suas estilistas, o chefe é ansioso. "Quando tem uma ideia, quer ver logo tudo pronto", conta. Não é fácil trabalhar com ele, mas o time o admira pelo talento para a moda e para o mundo dos negócios. "Ele é um artista e, ao mesmo tempo, um grande empreendedor", afirma a coordenadora de marketing da grife, Camila Chiari. Dzenk sabia que, para alcançar sucesso nacional, precisava transpor as montanhas de Minas. Em 2003, resolveu desbravar o mercado do Rio de Janeiro. Achava que seu estilo cheio de estampas e cores cairia no gosto das cariocas. Não estava enganado. Seu primeiro desfile no Fashion Rio despertou o interesse de figurinistas da Rede Globo, que começaram a incluir algumas de suas peças no guarda-roupa das estrelas. O divisor de águas, porém, só ocorreu em 2007, quando a atriz Camila Pitanga passou a usar seus vestidos em cenas da novela Paraíso Tropical. Esse novo look, chique e sen­sual, marcou a transformação da personagem Bebel, uma garota de programa que virou grã-fina.

De lá para cá, ele vem colecionando atrizes, modelos e cantoras famosas em sua carteira de clientes. Camila Pitanga, Paola Oliveira, Leandra Leal, Cleo Pires, Zezé Polessa, Fernanda Abreu e Vanessa da Mata são apenas algumas das parceiras fiéis. "Ele valoriza a feminilidade em suas criações", diz a modelo Luiza Brunet. "Suas estampas são incríveis e com o passar do tempo tomam um ar vintage." Outra que se tornou freguesa - e amiga - é a cantora Preta Gil. "Victor entende o corpo das mulheres como ninguém, sejam elas magras ou não", comenta Preta, que é conhecida pelas curvas generosas. "Vejo todo tipo de mulher vestindo as roupas dele." Para ela, Dzenk acaba de criar uma estampa exclusiva em homenagem ao pai, Gilberto Gil. É com o modelo que Preta subirá no trio elétrico no sábado (9) de Carnaval, em Salvador. As criações do estilista, aliás, têm feito sucesso nas folias mais badaladas do país. Ele assina há quatro anos o visual da rainha do prestigiado Baile do Copacabana Palace, no Rio. Neste ano, quem vai envergar o modelo é a atriz Cris Vianna.

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A sala de ginástica, onde malha com o personal trainer Thiago Menezes

Dzenk brilha nas novelas, nos festejos de Momo e em algumas das bodas mais fotografadas do país. A empresária e socialite Ana Gutierrez fez questão de ser vestida por ele para seu casamento, em setembro de 2012. "Sou louca pelo caimento das roupas do Victor", diz Ana, cliente há mais de doze anos. Na semana passada, ela visitou a loja em Lourdes e acabou levando dois vestidos para casa. "É irresistível." Nas araras da butique, os preços variam de 300 a 3 000 reais. Mas, se feito sob encomenda, um modelo pode chegar a 15 000 reais. Elas pagam sem reclamar. "A mulher que veste Dzenk é exuberante, quer chegar e acontecer", descreve Lilian Pacce, editora de moda e apresentadora do programa GNT Fashion, exibido pelo canal pago GNT. "A brasileira é sexy, e ele entendeu do que ela gosta, faz uma moda sensual, cheia de cores", define a jornalista Susana Barbosa, diretora de moda da revista ELLE. A próxima coleção de verão, que será apresentada pela primeira vez no Minas Trend Preview, em 9 de abril, tem a cantora Clara Nunes (1943-1983) como fonte de inspiração. Os vestidos aparecerão em estampas com flores do campo, sabiás e pôr do sol.

Há três anos Victor Dzenk se divide entre Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Mantém um apartamento em Lourdes, onde fica de segunda a quinta, e uma cobertura em Ipanema, onde passa os fins de semana. "As duas cidades me completam", diz. Aqui, seu "porto seguro", leva uma rotina de malhação e trabalho. Lá, relaxa. Os amigos cariocas o consideram um embaixador de Minas Gerais. Ele sempre os reúne em sua casa para degustar receitas típicas do estado. No último dia 24, foi pessoalmente ao Mercado Central escolher os ingredientes para o jantar que ofereceria em seu endereço à beira-mar, no dia seguinte, à socialite mineira Bethy Lagardère. Levou taioba, ora-pro-nóbis e queijo minas fresco. Quem comandou as caçarolas na noite - o cardápio teve rabada e risoto de feijoada - foi o chef Eric Marty, que já chefiou a cozinha de dois restaurantes daqui, A Favorita e Mes Amis. "Mineiro quando se encontra é sempre ao redor de uma mesa. Adorei essa ideia de trazer um chef para uma degustação das delícias mineiras", contou a homenageada. "Vamos repetir a experiência a cada quinze dias."

Jantar com amigos é programa que ele não dispensa. Para desfrutar os prazeres da boa mesa sem peso na consciência, malha bastante. De segunda a quinta, exercita-se na sala de ginástica do prédio, acompanhado de um personal trainer, e ainda costuma fazer aulas de spinning em uma academia. Apesar de não ter tendência a engordar - seu peso oscila entre 72 e 74 quilos, e ele mede 1,74 metro -, tem pavor de ficar barrigudo. Assume que é vaidoso, mas diz que já foi mais. Há cinco anos, parou de fazer aplicações de Botox e de pintar o cabelo. "Se a barriga aparecer, voltarei a tingi-lo", confessa. "Não dá para ser barrigudo e grisalho."

O estilista anda menos consumista do que já foi. Para si mesmo, tem comprado poucas roupas e sempre prioriza o conforto. "Não resisto a um belo pijama e àqueles chinelinhos fofos de ficar em casa", conta. Gastar ele gasta mesmo, sem dó, com viagens. Na estante da sala de seu apartamento em BH, exibe objetos que trouxe de Dubai, Itália, França, Colômbia e Índia, entre outros países. Os suvenires têm destaque ao lado de suas obras de arte preferidas, como a pantera negra assinada pelo escultor Leopoldo Martins. Dzenk costuma aproveitar o sossego de sua casa belo-horizontina para ficar estendido no sofá, lendo um livro. Atualmente, divide-se entre Clara Nunes - Guerreira da Utopia, do jornalista Wagner Fernandes, e Uma Vida Inventada, da atriz Maitê Proença. Revela que gosta de morar sozinho. Talvez por isso seus relacionamentos nunca durem muito tempo. "Estou sempre solteiro", afirma. "Só sinto falta de um amor quando estou doente, mas todo mundo quer um colo quando está mal." Se não fosse por não saber dirigir e precisar do seu motorista particular sempre à disposição, ele diria que é um homem completamente independente, que não dá satisfação a ninguém sobre o que faz. Uma conquista que lhe custou muitas lágrimas. Não foi nada fácil, aos 15 anos, enfrentar o pai militar e dizer que queria trabalhar com moda. "Ele não aceitou, foi um drama", recorda. Na mesma época, Victor Dzenk assumiu sua ho­­mossexualidade. "Naquele momento, já sabia com o que queria trabalhar e o que queria para a minha vida afetiva." Ainda garoto, ouviu um conselho da mãe de um amigo sobre o que deveria fazer para driblar o preconceito: "Se quer ser gay, faça sucesso". Foi exatamente isso que ele fez.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE