Saúde

Excesso de fofura das crianças na mira dos pais e dos médicos

Com alimentação pouco saudável e uma rotina sedentária, que inclui várias horas diante da TV ou do computador, nossos pequenos começam a enfrentar doenças de adulto

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

O que faço para que meu filho passe a gostar de legumes e verduras? Modere nos sanduíches, doces e refrigerantes? Use menos o computador, não fique hipnotizado diante da TV e só jogue games com parcimônia, trocando tudo isso, sempre que possível, por esportes e exercícios? Atrás de respostas para dúvidas como essas - que tanto afligem os pais -, mais de 200 mães foram ao Minascentro, no fim de outubro, assistir à palestra de Gabriela Kapim, nutricionista e apresentadora do programa Socorro! Meu Filho Come Mal, transmitido pelo canal pago GNT. "Hoje as crianças controlam os pais e determinam o que vão comer", diz Gabriela. "É preciso inverter os papéis." Em silêncio, com olhos e ouvidos em alerta, muitas mães se encontravam ali na esperança de achar uma saída para um dilema cada vez mais comum na família: crianças que ficam longe da alimentação saudável, entopem-se de guloseimas calóricas e vêm se tornando obesas. Uma pesquisa realizada pela prefeitura em escolas da rede municipal revela que um em cada cinco estudantes belo-horizontinos de 6 a 14 anos está acima do peso. E um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que o problema fica mais grave à medida que se sobe na pirâmide socioeconômica. Segundo a última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), divulgada em 2010, nas famílias com renda per capita mensal acima de cinco salários mínimos 51% dos meninos entre 5 e 9 anos estão acima do peso e 30,8% podem ser considerados obesos. No caso das meninas, esses índices são 39,3% e 14,8%, respectivamente. "O mau hábito alimentar e o estilo de vida sedentário antecipam doenças respiratórias, cardiovasculares e metabólicas", afirma a gerente de referência técnica da nutrição da Unimed-BH, Juliana Algarve Magalhães.

Se a criança ou o adolescente recusa verduras, legumes e frutas, tem o hábito de beliscar, come em frente à TV, não mastiga direito, troca água por outra bebida e não pratica atividade física, é sinal de que os pais estão atrasados: já deveriam ter procurado ajuda para enfrentar o problema. "Mas nunca é tarde para criar novos hábitos", garante Juliana. É o que está tentando fazer Douglas Silva, de 14 anos, que mede 1,62 metro e pesa 90 quilos. "Estou deixando de comer sanduíche e salgadinhos e de beber refrigerante, mas ainda não faço exercícios", conta o menino. Outro desafio para Douglas é diminuir o chamado tempo de tela, as quatro horas diárias que passa vendo televisão ou usando o computador. De acordo com Roberta Rocha, coordenadora do ambulatório de obesidade infantil da Santa Casa, o desafio de emagrecer não é exclusivo dos pequenos. "O excesso de peso é fruto de um ambiente errado", aponta ela. "Os pais são responsáveis pelos alimentos disponíveis em casa e por encontrar o exercício ideal para o filho."

Na luta contra a balança, é preciso aprender a desvendar a composição dos alimentos, especialmente dos industrializados. O alerta é do médico Cláudio Leone, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e autor de um estudo - realizado em cinco capitais brasileiras, incluindo Belo Horizonte — no qual mostra que crianças e adolescentes entre 3 e 17 anos estão trocando o consumo de água e leite por bebidas açucaradas, como refrigerantes e sucos prontos. Essa substituição é uma das explicações para o aumento dos casos de obesidade infantil. O resultado da pesquisa de Leone é preocupante. Cada criança ou adolescente deveria consumir até 18 quilos de açúcar por ano. Constatou-se, no entanto, que só de bebidas prontas eles ingerem 21 quilos. "Substituir o refrigerante pelo achocolatado ou suco em caixinha não é a solução", afirma o médico. "Se a criança está com sede, tem de tomar água."

Quando se trata de uma alimentação saudável, o açúcar não é o único vilão. O sal faz companhia a ele. "Pesquisas mostram que 76% do consumo de sal vem de produtos industrializados, como salgadinhos, biscoitos, congelados, embutidos e enlatados", explica o médico Celso Amodeo, chefe do departamento de hipertensão do instituto paulista Dante Pazzanese, que esteve por aqui no início do mês para participar de um congresso da Sociedade Brasileira de Cardiologia. "O indivíduo que ganha peso retém sal e elimina pouco líquido, provocando vasoconstrição, o que leva ao aumento da pressão", acrescenta. Segundo ele, a hipertensão pode ser genética, mas a obesidade e o sedentarismo são as principais causas. Amodeo reforça o conselho sobre a leitura de rótulo de produtos industrializados: "É preciso observar a quantidade de sódio, que representa 40% do sal do alimento, e o teor de gordura".

Para mudar o cardápio das crianças, pelo menos dentro das escolas, o governo estadual sancionou em 2009 a Lei nº 18372, que ficou mais conhecida como "anticoxinha", proibindo a venda de produtos com alto teor de gordura saturada, gordura trans, açúcar e sal, ou com poucos nutrientes. Saíram das vitrines das lanchonetes todos os salgados fritos, por exemplo. Mas a lista dos produtos calóricos que continuam liberados é extensa e inclui tentações como pizzas, além dos sucos de caixinha. "Toda atenção com a alimentação dos filhos é pouca", diz a engenheira civil Karina Rodrigues. Ela conhece bem as consequências do descuido. Com uma rotina puxada de trabalho, quando ia ao supermercado ela dava preferência aos alimentos prontos para consumo. Seu filho Gabriel chegou aos 7 anos pesando 56 quilos, 22 a mais que o ideal para sua altura e idade. Obeso, o menino passou a ser vítima de bullying dos colegas. Acabou mudando de escola. Por recomendação do pediatra, Karina procurou uma nutricionista e matriculou o filho na natação e no futebol. "Gabriel está empenhado em emagrecer para ser aceito e já perdeu 6 quilos", conta a mãe. "Não precisava ter chegado a esse ponto."

Daniel Olmer

Idade: 8 anos

Altura: 1,35 m

Peso: 46 kg

Ele não se cansa de comemorar sua última conquista: precisar usar cinto para que uma calça velha não caia. O significado do cinto vai além da perda de alguns centímetros na circunferência abdominal. Daniel, que preferiu sair do futebol por causa das brincadeiras dos amiguinhos, está se dando bem no tae kwon do, na natação e nas demais atividades da academia que frequenta. Nos últimos três meses, ele perdeu 3 quilos e ganhou autoestima e ânimo. No caderninho em que registra sua evolução clínica, só falta preencher a nova taxa de colesterol. "A gente pensa que colesterol alto é coisa de adulto. Foi um susto", afirma a mãe, Valéria Olmer, que acompanha e incentiva o filho na nova rotina. "Eu tenho um amigo que pesa 58 quilos e só fica em casa", conta o menino. "Ele vai explodir, e não quero que isso aconteça comigo."

Maria Clara Queiroz

Idade: 13 anos

Altura: 1,44 m

Peso: 45 kg

Em março de 2012, aos 12 anos, Maria Clara pesava quase 42 quilos. O que surpreendeu a família não foi a fofura, e sim o diagnóstico de colesterol alto - quase o dobro da taxa adequada para a idade. "Minha mãe, em vez de jantar, preferia lanchar cachorro-quente, hambúrguer e pizza", conta. Consultada, a nutricionista foi categórica: nada de gordura, fritura, massa, doce e refrigerante. "Passei a comer muita salada e a beber muita água. E adoro", diz a menina, empolgada. Desde então, ela coleciona todos os seus exames, diários nutricionais, ficha de medidas e tudo o mais que se refere à sua saúde. Passado um ano e meio, tem orgulho de mostrar a sua última avaliação. "Eu cresci 11 centímetros, engordei menos de 3 quilos e meu colesterol baixou." O significado do cinto vai além da perda de alguns centímetros na circunferência abdominal. Daniel, que preferiu sair do futebol por causa das brincadeiras dos amiguinhos, está se dando bem no tae kwon do, na natação e nas demais atividades da academia que frequenta. Nos últimos três meses, ele perdeu 3 quilos e ganhou autoestima e ânimo. No caderninho em que registra sua evolução clínica, só falta preencher a nova taxa de colesterol. "A gente pensa que colesterol alto é coisa de adulto. Foi um susto", afirma a mãe, Valéria Olmer, que acompanha e incentiva o filho na nova rotina. "Eu tenho um amigo que pesa 58 quilos e só fica em casa", conta o menino. "Ele vai explodir, e não quero que isso aconteça comigo."

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(Foto: Redação VejaBH)

Bruna Bicalho

Idade: 13 anos

Altura: 1,69 m

Peso: 67 kg

Para intensificar o emagrecimento, além de recorrer a práticas esportivas na escola e na academia - treinamento suspenso com tiras, musculação e vôlei -, ela buscou o auxílio de uma nutricionista. A garota que chegou a pesar 71 quilos já conseguiu perder 4 e quer, a longo prazo, atingir a meta de 50 quilos. "Insistindo, passei a gostar de legumes", diz. Hoje, Bruna também lê o rótulo dos produtos que compra. "Quanto menos caloria, melhor." O aumento de peso ocorreu na transição da infância para a adolescência, quando ela ganhou autonomia para comprar seu lanche na escola. "Um salgado assado mais uma bebida pronta, duas horas antes do almoço, têm alto valor calórico", ensinou-lhe a mãe, a professora de educação física Beatriz Bicalho.

Theo Dias

Idade: 9 anos

Altura: 1,32 m

Peso: 41 kg

A professora de música Waniaceli Dias se acostumou a ouvir comentários de familiares e amigos sobre seu filho Theo. "Não o prive de comida porque é uma fase" era uma das falas frequentes. Waniaceli não se preocupou com o assunto até o menino completar 5 anos e o pediatra chamar sua atenção sobre o risco de o excesso de peso resultar em colesterol alto e diabetes. O susto fez toda a família mudar. "Procuramos um nutricionista e começamos a fazer atividade física", relata ela. Hoje, Theo esnoba bons hábitos e faz inveja a muitas mães. "Minha salada preferida tem brócolis e couve-flor. De sobremesa, gosto de abacaxi", afirma, sem pestanejar, o menino que, quando crescer, quer ser cientista e criar um carro voador, missão mais complexa do que conseguir emagrecer.

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(Foto: Redação VejaBH)
Fernanda Rodrigues

Idade: 13 anos

Altura: 1,54 m

Peso: 65 kg

Quando criança, Fernanda fazia natação e balé. Aos 8 anos, parou com tudo. "Eu ficava muito à toa, via televisão o tempo inteiro, beliscava bobagens", lembra. Os abusos daquele período, quando até as notas iam mal, resultaram em aumento de peso. "Comecei a me sentir incomodada porque já não podia usar qualquer roupa." Foi aí que ela resolveu aplicar a conhecida fórmula, que muitas vezes é negligenciada pela família: atividade física mais reeducação alimentar é igual a saúde. "Passei a tomar café da manhã, comer de três em três horas, colocar mais verde e ferro no prato e deixar doces só para o fim de semana", detalha. Com dieta balanceada e exercícios, Fernanda pretende pesar menos de 60 quilos. "O esforço vale a pena."

Sophia Costa

Idade: 12 anos

Altura: 1,55 m

Peso: 51 kg

Estrogonofe como prato principal e sorvete de chocolate de sobremesa. Essa é a refeição preferida de Sophia, embora há algum tempo não apareça na mesa de jantar de sua casa. É de propósito. "Parei de comer besteira para emagrecer", conta. Neste ano, ela mudou seus hábitos alimentares, começou a fazer aulas de dança e passou a ir para a escola a pé. "Ela tem cada vez mais fôlego para encarar os morros do bairro onde moramos", comemora a mãe, a advogada Clécia Costa. Na escola, contudo, não é tão fácil manter o controle. "Até vendem coisas saudáveis, mas a vitrine do que não pode é mais bonita", reclama a estudante. "É difícil resistir."

Júlia Lopes

Idade: 14 anos

Altura: 1,55 m

Peso: 58 kg

"Eu sentia vergonha de sair com as minhas amigas porque achava que nenhuma roupa ficava bem em mim. Daí, dava a desculpa de que meu pai não me deixava ir", conta Júlia. Ainda assim, ela gostava de passar no supermercado com uma amiga para uma tarde entre chips e refrigerante. O mau hábito foi abandonado há menos de um ano, depois de ela e o pai decidirem juntos se consultar com uma nutricionista. Foi suficiente para, em pouco tempo, perder 3 quilos. "Comecei a comer mais coisas saudáveis e menos besteiras, mas não é fácil seguir uma dieta." Os estudos, principalmente a ansiedade no período de provas, atrapalham. "Eu acabo escapulindo", confessa. "Acho que os pais e as escolas deveriam ensinar - e insistir com a gente - a importância de ter bons hábitos."

Dez dicas leves

Os conselhos da nutricionista Gabriela Kapim aos pais

1. Evite deixar uma criança comendo sozinha.

2. Não coloque o prato pronto na frente dela. Crie regras para que ela mesma faça uma escolha acertada.

3. Prepare um cardápio variado e colorido.

4. Se ela recusar um alimento, ofereça-o novamente, mas não pegue no pé. Diante de pais que se tornam chatos, a resposta mais fácil será o "não".

5. Leve-a ao sacolão e ao mercado. Isso ajuda a despertar a consciência sobre a alimentação.

6. Só compre o que pode ser consumido. Se você não quer ver seu filho tomando refrigerante nem comendo doces, salgadinhos, enlatados e embutidos, não os tenha em casa.

7. Convide a criança para participar da preparação de alguma receita.

8. Varie a forma de apresentar o alimento. Legumes, como cenoura, podem ser ralados, fatiados ou cortados em cubinhos.

9. Comida não é moeda de troca. Não pode haver negociação entre uma refeição e brinquedos e passeios.

10. Os pais são sempre os melhores exemplos para os filhos. Então, atenção ao que se come na frente deles.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE