Crônica

Fantasia de carnaval

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Tenho uma fantasia para este Carnaval: aplicar um Photoshop no mundo.

Antes de mais nada, tiraria do poder o seu aspecto viciante. Em cada cabeça coroada pelo povo pesaria o ouro da responsabilidade, de modo que sair dali sem um feito nobre seria um vexame difícil de amargar - motivo para um autoexílio imediato. Honestidade e honra voltariam a ser valores e a vaidade finalmente seria usada em favor da população.

Começaria usando o software no Brasil, é claro, transformando toda a verba aplicada na Copa de 2014 em saúde e educação. Os estádios se tornariam arenas democráticas de discussão, onde ricos e pobres encontrariam objetivos comuns. Cada novo passo de uma reforma política seria comemorado como um legítimo gol de placa.

Em algum tempo esse retrato cinza de uma Belo Horizonte envolta em pânico ganharia novas cores. Índices de criminalidade seriam taxas de crescimento econômico. Revólveres se tornariam livros, protestos de famílias de vítimas seriam as comemorações de seu aniversário. Mãos ao alto acabariam em abraços. Anúncios de assalto seriam piadas entre amigos de longa data. O botão de pânico instalado pelos taxistas para pedir socorro seria apenas o acionamento do ar-condicionado. Os sons de tiros na favela aqui ao lado seriam fogos de artifício para comemorar cada novo emprego conquistado por um morador. E, na falta de bandidos a buscar, helicópteros jogariam flores nos locais que sobrevoassem.

Expressões de desânimo se revelariam serenidade. Gritos seriam de cócegas, acabando sempre em gargalhadas.

Os políticos corruptos, é claro, iriam para a cadeia como num passe de mágica. O semblante dos criminosos presos em carceragens superlotadas se tornaria a expressão atenta de crianças em salas confortáveis, interessadas em aulas conduzidas por professores bem remunerados.

Transformaria preconceito em amizade, discussão em diálogo, medo em liberdade, crítica em crescimento. Diferenças elevariam as discussões rumo a um novo código de ética. Como seria bonito um Brasil vestido de gente!

Eu sei, você vai dizer que é um sonho bobo. De que modo acreditar, então, se não de maneira tola? Ter um filho pequeno é insistir na esperança por pura precisão. Sinto-me como aquele personagem do filme A Vida É Bela, tentando ignorar a malícia que nos cerca. Quem sabe assim me engano também.

Há quanto tempo não se alimenta mais o sonho de um Brasil melhor? Sonhamos com a possibilidade de não piorar. Não virar estatística já terá sido uma grande conquista.

Pensando bem, a ideia do Photoshop não é nova. É isso que nossos governantes tentam fazer, pelo menos por ora. Imagine, então, depois da Copa.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE