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Fernando Pimentel é o primeiro petista a ocupar o governo de Minas Gerais

Preso durante a ditadura militar, ex-prefeito da capital e ex-ministro, o governador fala sobre o que virá na sua gestão

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Victor Schwaner/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Pimentel: ele se orgulha de ter sido um "rebelde com causa"

Depois de vencer a batalha das eleições, o governador eleito Fernando Pimentel, de 63 anos, viajou. Foi à Itália com sua noiva, Carolina Oliveira, 30 anos, a fim de ganhar fôlego para assumir o novo gabinete, no Palácio Tiradentes, na Cidade Administrativa. Mesmo antes de tomar posse, no último dia 1º, o petista tran­cou-se em reuniões atrás de reuniões. O ritmo frenético o fez abandonar no criado-mudo, pelo menos por um tempo, as 432 páginas do livro Civilização, do historiador escocês Niall Ferguson. Na obra, o professor da Universidade Harvard mostra como, em cerca de 400 anos, as nações do Ocidente sobrepujaram as do Oriente. Mas a atenção de Pimentel agora está focada em questões mais próximas, como a estruturação de sua equipe, a varredura nas contas do estado, a criação de fóruns regionais e a implantação de mecanismos de participação popular. Pela frente, tem o desafio de superar os quase doze anos do PSDB no poder e ainda se fortalecer entre as lideranças de seu próprio partido para uma futura possível indicação de seu nome à Presidência da República.

"A nossa marca será a de uma mudança no modo de governar, em que o povo vai, de fato, participar", afirmou, em entrevista a VEJA BH, sem ainda detalhar como a sua principal proposta de campanha sairá do papel. O tom dessa renovação surgiu já no dia da posse. Na Assembleia Legislativa, mandou abrir as galerias da Casa ao público. Rapper nascido e criado na favela Alto Vera Cruz, uma das mais populosas de Belo Horizonte, Flávio Renegado cantou o Hino Nacional. "Não é novidade que vivemos em um estado altamente conservador, mas espero que ele governe para o povo", diz o cantor, que participou ativamente da campanha de Pimentel. Foi justamente o que o novo morador do Palácio das Mangabeiras frisou em seu primeiro discurso: "Não acredito que, no mundo de hoje, grupos encastelados possam decidir o destino de milhões de pessoas. Não farei o governo do eu, mas o de nós." Da Assembleia Legislativa, em vez de ir sozinho pela alameda central da Praça da Liberdade até o palácio, ele caminhou acompanhado por representantes de movimentos sociais. O slogan da sua administração, lançado na primeira semana, reforçou a ideia: "Governo de todos".

Osvaldo Afonso
(Foto: Redação VejaBH)

O dia da posse: caminhada com eleitores pela praça antes de entrar no Palácio da Liberdade

Para atender às necessidades dos 21 milhões de mineiros, entretanto, Pimentel, além de aumentar a participação popular, precisará conseguir resultados concretos como a redução dos índices de criminalidade, a descentralização do atendimento médico e a melhoria da qualidade do ensino. Terá também de fazer avançar obras como as do metrô, do Anel Rodoviário e do Rodoanel. Espera-se que a dobradinha formada pelo PT - no governo estadual e na Presidência da República - seja profícua para isso. Pimentel iniciou o mandato alarmando os quase 550 000 servidores estaduais. De acordo com sua equipe, o antigo governo não deixou dinheiro em caixa para o pagamento de salários. Somente cinco dias após o estardalhaço, garantiu que os depósitos seriam feitos normalmente no quinto dia útil de janeiro. O ex-governador Alberto Pinto Coelho (PP) informou em coletiva, em 30 de dezembro, que o superávit nas contas era de 200 milhões de reais. A oposição acusou Pimentel de fazer terror. Durante a campanha, seus adversários usavam contra ele o fato de responder a cinco processos judiciais, todos por questões administrativas. O petista era, segundo a ONG Transparência Brasil, o candidato ao governo de Minas mais encrencado com a Justiça.

No auge de sua carreira política, Pimentel não se arrepende de ter recusado o destino que o pai, dono da loja Belorizonte Couros, tentou lhe traçar, o de ser empresário. Em vez de assumir os negócios da família, tornou-se um "adolescente rebelde com causa", do que se orgulha. No fim dos anos 60, com o recrudescimento do regime militar, o estudante do Colégio Estadual Central filiou-se ao Comando da Libertação Nacional (Colina) e juntou-se à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Amigo desde os anos de chumbo, o cineasta Helvécio Ratton recorda que a turma se encontrava na casa em que Pimentel vivia com os pais, na Rua Espírito Santo, perto da Igreja São José. "Eu não era uma liderança expressiva naquele período, era uma mascote; mas morava em um apartamento grande, no Centro, e era mais fácil marcar reuniões por lá", conta o governador. "Desde aqueles tempos imaginei que ele seguiria carreira política: pensava em conjunto, planejava bem, decidia rápido e resolvia problemas", lembra Ratton, que na época se exilou no Chile. Já Pimentel foi preso em uma tentativa desastrada de sequestrar um cônsul americano em Porto Alegre. Ao todo, foram mais de três anos de detenção. Em uma penitenciária de Juiz de Fora, conheceu o atual prefeito da capital, Marcio Lacerda (PSB).

Carlos Alberto
(Foto: Redação VejaBH)

A primeira-dama e nova presidente do Servas, Carolina Oliveira: casamento à vista

"Nossas celas individuais ficavam quase de frente uma para a outra. Era possível encostar-se à porta e conversar", lembra o prefeito. "Eu o via como um jovem maduro, equilibrado, culto, solidário e aberto." Depois de solto, Pimentel trabalhou em uma empresa na qual Lacerda era diretor de engenharia. Mais tarde, uniu-se ao senador Aécio Neves (PSDB) para lançar a candidatura de Lacerda à prefeitura. "Hoje, na política, estamos em campos diferentes, mas nem por isso deixamos de ter uma relação amistosa", afirma Pimentel. Ditadura é um assunto que o deixa emotivo. Em sua diplomação, no dia 19 de dezembro no Palácio das Artes, chorou depois de um desabafo em relação às manifestações a favor da volta do militarismo: "Podem pedir o que pedem esses nossos patrícios. Têm esse direito. Não correm o risco de ser perseguidos, de ter seus direitos civis cassados, de ser presos ou torturados, nem o perigo de perder a vida, de se tornar desaparecidos."

Em liberdade, Pimentel formou-se em economia na PUC Minas, onde conheceu a sua ex-mulher, a historiadora Thaís Cougo. Eles ficaram casados por três décadas e adotaram o casal de gêmeos Irene e Mathias, hoje com 18 anos. Thaís não quis dar entrevista sobre o ex-marido. Divorciado, Pimentel pretende se casar com a brasiliense Carolina, jornalista filha de mineiros de Patos de Minas, que conheceu há oito anos e que foi a sua assessora de imprensa no Ministério do Desenvolvimento. "Minha admiração vai além do homem inteligente, íntegro e comprometido com a vida pública", derrete-se a noiva, que assumiu a presidência do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas). Os dois estão de mudança para o Palácio das Mangabeiras. "O desafio será reservar um pouco do tempo para uma dose de vida comum, como encontrar amigos e assistir a um bom filme", diz o governador.

Fotos Arquivo Pessoal
(Foto: Redação VejaBH)

Três flagrantes de sua trajetória em BH (a partir do alto, à esq.): uma selfie com os filhos gêmeos, Mathias e Irene; quando era professor na Faculdadede Ciências Econômicas da UFMG, em 1978

Muitos ainda o chamam de "professor". É que, no fim dos anos 70, Pimentel integrou-se ao corpo de docentes da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG. Seu ex-aluno Mauro Borges (que o sucedeu no Ministério do Desenvolvimento e acabou indicado à presidência da Cemig) destaca características daqueles tempos que podem ser observadas ainda hoje. "Ele sempre teve um perfil técnico e absolutamente racional", diz. Pimentel ini­ciou-se no Executivo como secretário municipal de Fazenda, em 1993, na gestão de Patrus Ananias (recém-empossado ministro do Desenvolvimento Agrário). Foi eleito vice-prefeito em 2001 e, dois anos depois, assumiu o cargo de prefeito com o afastamento de Célio de Castro (1932-2008) por motivo de saúde. Tomou posse como prefeito eleito em 2005. "Ele foi escolhido pelo partido, lá atrás, para cumprir essa trajetória", diz Murilo Valadares, que trabalha com Pimentel desde o governo Patrus e assumiu a Secretaria de Estado de Transportes e Obras Públicas. "A gente se entende: ele não é tão ríspido como a presidenta Dilma, mas, quando não gosta da conversa, nem se envolve." Diante de tanto a ouvir e, principalmente, a fazer, desafio maior será terminar a leitura de seu livro de cabeceira e, na sequência, cumprir uma "ordem" de Dilma. "Quando contei à presidenta sobre Civilização, ela disse que eu tinha de assistir à série Marco Polo, da Netflix." Ainda não sabe quando arrumará tempo para isso.

Dez curiosidades sobre Pimentel

- Filho de um comerciante e de uma professora de música, viveu no bairro Carlos Prates até os 14 anos. Depois se mudou para um apartamento na Rua Espírito Santo, ponto de encontro de militantes contra a ditadura.

- Ainda menino, frequentava a praia em São João da Barra, no Rio, ondeos pais tinham casa. O imóvel foi emprestado ao prefeito Marcio Lacerda para sua lua de mel.

- A mãe era católica. O pai, agnóstico até a adolescência do filho, converteu-se à religião presbiteriana. Pimentel se considera um "cristão sem denominação".

- Gosta de praia, mas diz preferir as serras da Mantiqueira e da Canastra.

- Adolescente, jogava bola com seminaristas da PUC Minas.

- Ao participar de ações armadas contra a ditadura militar, no grupo Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), usava os codinomes Oscar, Chico e Jorge.

- Quando viaja de férias para o exterior, o destino escolhido é quase sempre a Itália.

- Não se conforma de o Palácio da Liberdade ter se transformado em museu. Por isso, pretende despachar de lá duas vezes por semana.

- Foi o candidato ao governo de Minas com o maior número de processos judiciais: cinco, segundo a ONG Transparência Brasil. Todos por questões administrativas, como a dispensa de licitação para a instalação de câmeras do projeto Olho Vivo na capital, em 2004.

- Registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um patrimônio de 2,4 milhões de reais.

Arquivo Pessoal
(Foto: Redação VejaBH)

um registro da infância

O que não pode faltar...

...na geladeira: queijo.

...no guarda-roupa: calça jeans.

...nas horas de descanso: encontro com os meus filhos.

...no criado-mudo: um livro, atualmente Civilização, de Niall Ferguson.

...na mesa do trabalho: meu notebook.

...na agenda da semana: reunião com os amigos para tomar vinho. Gosto dos italianos, mas, dado o preço, tenho comprado os chilenos. Depois de um tempo, descobri que cerveja me faz mal.

...na carteira: nunca usei, ando com o dinheiro no bolso. É um hábito desde que dava aulas na Faculdade de Ciências Econômicas, na Rua Curitiba, e trabalhava na loja do meu pai, a Belorizonte Couros, na Avenida Paraná, no Centro. Via muita gente ser assaltada.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE