Teatro

FIT-BH comemora vinte anos com a maior programação de sua história

Festival é considerado um dos cinco maiores festivais do gênero da América Latina

Por: Isabella Grossi - Atualizado em

André Stefano
(Foto: Redação VejaBH)

Tiago Leal, José Sampaio, Luiza Gottschalk e Katia Calsavara: o drama Adormecidos, da Cia de Teatro Os Satyros, mostra os conflitos entre dois casais

Passaram-se quase duas décadas a contar do dia 2 de junho de 1994, quando a cidade experimentou o frenesi causado por dezenas de atores pintados de azul - tirando som de seus grandes barris de metal -, durante a abertura do primeiro Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte (FIT-BH), na Praça da Estação. Consagrada mundo afora, a companhia francesa Générik Vapeur retorna à capital como convidada de honra da edição comemorativa dos vinte anos do evento. A escolha é significativa, uma vez que o objetivo é realizar a maior festa cênica de todos os tempos, em quantidade e, claro, qualidade. De terça (6) ao dia 25, circulam por aqui dezoito atrações internacionais, doze nacionais e 25 locais, num total de 168 apresentações espalhadas por mais de quarenta espaços, incluindo os teatros Francisco Nunes e Marília, que serão reinaugurados (veja o quadro na pág. 26). "Não será uma festa restrita aos iniciados", diz um dos curadores, o ator, dramaturgo e diretor Jefferson da Fonseca. "Mais do que nunca, estamos focando o cidadão comum", completa o coordenador-geral, Cássio Pinheiro. Embora tenha havido uma predileção por trupes mineiras, numa aposta clara por tornar o FIT uma vitrine da capital, são os espetáculos de fora que mais chamam atenção (confira as dez atrações mais aguardadas a partir da pág. 26). Em especial, Hamlet, montagem de um dos mais importantes grupos de teatro europeus, o Berliner Ensemble, fundado pelo dramaturgo Bertolt Brecht e por sua mulher, a atriz Helene Weigel. "Será um grande prazer levar esta peça a BH. São 450 anos de Shakespeare, sessenta anos de apresentações do Berliner no Theater am Schiffbauerdamm (em Berlim) e vinte anos do FIT-BH. Que explosão de aniversários", brinca o diretor, Leander Haussmann. Os ingressos estão à venda no Mercado das Flores, pelo site htticket.com.br/fit2014 e, a partir da estreia, nas bilheterias. Desta vez, não haverá pacotes nem limite de venda por pessoa. Dá para curtir sem moderação.

As dez apostas do FIT 2014

1. prazer

(Cia. Luna Lunera / Belo Horizonte). Inspirado em fragmentos do livro Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, da escritora Clarice Lispector (1920-1977), o drama conta a história de quatro amigos que tentam superar as inquietações e angústias do cotidiano. Isabela Paes, Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva e Odilon Esteves arrancam risadas e lágrimas com um texto simples, ficcional, porém inundado de experiências autobiográficas (105min). 16 anos.

› Teatro Francisco Nunes (543 lugares). Avenida Afonso Pena, s/nº, Parque Municipal, Centro, ☎ 3277-6320. → Terça (6), quarta (7) e quinta (8), 21h. R$ 20,00.

2. O Homem Travesseiro

(Cia. Teatro Esplendor / Rio de Janeiro). Katurian, interpretado por Bruce Gomlevsky, é um escritor que vive em uma nação fictícia governada por um regime totalitário. Certo dia, é interrogado e detido por detetives que veem semelhanças entre seus contos e uma série de assassinatos envolvendo crianças. O abuso de poder e a força da arte aparecem como referência no drama do inglês Martin McDonagh (170min). 16 anos.

› Teatro Marília (256 lugares). Avenida Alfredo Balena, 586, Centro, ☎ 3277-4697. → Sexta (9) e sábado (10), 21h, e domingo (11), 19h30. R$ 20,00.

3. Jamais 203

(Générik Vapeur / Marselha, França). Os mais novos fãs de bike vão se interessar pela fabulosa performance do grupo francês, um dos mais significativos que já passaram pelo FIT-BH, em 1994 e 1997, virando a cidade de cabeça para baixo com Bivouac, protagonizada por dezenas de homens azuis e seus tambores. As estrelas do teatro de rua agora são as magrelas. O diretor dá a largada, e os atores-ciclistas tomam a Praça da Estação, em um espetáculo que lembra um circo a céu aberto. A direção é de Caty Avram e Pierre Berthelot (60min). Livre.

› Praça da Estação, s/nº, Centro. Sábado (10), 17h30. Grátis.

4. Materia Prima

(La Tristura / Madrid, Espanha). Quatro atores mirins cuidadosamente ensaiados pelo grupo dialogam como adultos no drama espanhol, que instiga uma reflexão sobre a forma com que o homem lida com a sua existência, com o outro e com o mundo em que vive. Um bom programa para todas as idades, de jovens a cinquentões que andam revendo a vida (75min). 12 anos.

› Teatro Francisco Nunes (543 lugares). Avenida Afonso Pena, s/nº, Parque Municipal, Centro, ☎ 3277-6320. → Dia 13, 20h, dias 14 e 15, 15h, dias16 e 17, 20h, e dia 18, 19h. R$ 20,00.

5. Hamlet

(Berliner Ensemble / Berlim, Alemanha). Uma das tragédias mais conhecidas de William Shakespeare (1564-1616) recriada pela companhia alemã, fundada pelo dramaturgo Bertolt Brecht e por sua mulher, a atriz Helene Weigel, apresenta um mocinho que se transforma em um sujeito cruel. A montagem faz o espectador enfrentar uma verdade inconveniente: a de que o mal terrível é parte de todos. E ganha uma pegada divertida e bem-humorada, segundo o diretor, Leander Haussmann, que desembarca em BH com uma equipe de 41 pessoas (210min, com intervalo). 14 anos.

› Palácio das Artes - Grande Teatro (1 705 lugares). Avenida Afonso Pena, 1537, Centro, ☎ 3236-7400. → Dia 17, 20h, e dia 18, 19h. R$ 20,00.

6. Adormecidos

(Cia. de Teatro Os Satyros / São Paulo). Dirigidos por Rodolfo García Vázquez, dois casais se revezam no palco no drama do norueguês Jon Fosse, que mistura sonho e realidade para mostrar como cada indivíduo projeta em seu parceiro as suas necessidades. Os personagens levam a vida em meio a projeções para o futuro, decepções e o conformismo do agora. Geralmente provocativo, o grupo - com 25 anos de estrada - opta, desta vez, pela delicadeza (85min). 14 anos.

› Funarte - Galpão 1 (139 lugares). Rua Januária, 68, Floresta, ☎ 3213-3084. Dia 17, 21h, e dia 18, 19h. R$ 20,00.

7. Emilia

(TIMBRe4 / Buenos Aires, Argentina). Uma experiência biográfica do diretor e dramaturgo da companhia portenha, Claudio Tolcachir, deu vida ao delicado drama sobre um homem, já adulto, com mulher e filho, que reencontra sua antiga babá. Ao recordar os fatos esquecidos de sua infância, o protagonista põe em xeque a estrutura familiar e a dor do próximo (90min). 16 anos.

› Funarte - Galpão 3 (100 lugares). Rua Januária, 68, Floresta, ☎ 3213-3084. Dias 20 e 21, 20h. R$ 20,00.

8. Glory Box

(Finucane & Smith / Melbourne, Austrália). O cabaré já foi apresentado em mais de dez línguas, e, em todas elas, fascinou. No palco, seis divas desafiam as definições de gênero com esquetes transgressoras, que vão do circense ao bizarro (110min). 16 anos.

› Music Hall (600 lugares). Avenida do Contorno, 3239, Santa Efigênia, ☎ 3209-8686. Dias 21, 22, 23 e 24, 22h30, e dia 25, 19h30. R$ 20,00.

9. Cine_Monstro

Depois de estrear In on It (2009) e A Primeira Vista (2012), Enrique Diaz volta a mergulhar da dramaturgia do canadense Daniel MacIvor. Desta vez, porém, como diretor e protagonista. Sozinho no palco, o ator se desdobra em treze personagens, que narram histórias cruzadas. O pano de fundo do drama é um crime bárbaro cometido por um filho contra o próprio pai (90min). 16 anos.

› Teatro Marília (256 lugares). Avenida Alfredo Balena, 586, Centro, ☎ 3277-4697. → Dias 23 e 24, 21h, e dia 25, 19h30. R$ 20,00.

10. Os Gigantes da Montanha

(Grupo Galpão / Belo Horizonte). O texto do dramaturgo italiano Luigi Pirandello (1867-1936) revela a chegada de uma companhia teatral decadente a uma vila mágica, povoada por fantasmas e governada pelo Mago Cotrone. Sob a direção de Gabriel Vilella, os atores lançam mão da música tocada e cantada ao vivo para traduzir a fábula num belo teatro de rua (80min). Livre.

› Estádio Mário Ferreira Guimarães (Baleião). Rua Santa Rita, 4250, Vila Fazendinha. Dia 25, 20h. Grátis.

O Francisco Nunes: investimentos de 13 milhões de reaisEnfim, revitalizados

Nos últimos cinco anos, Belo Horizonte perdeu três importantes símbolos culturais: o Teatro Clara Nunes, o Teatro Francisco Nunes e o Teatro Marília, todos no Centro. Sob os aplausos do público, dois deles estão prestes a ser reinaugurados. Fechado desde 2009 por causa de problemas com cupins no teto, o Chico Nunes só começou a ser restaurado efetivamente em maio de 2013, com investimentos de 13 milhões de reais. O espaço recebeu novo palco, cadeiras (são 543 lugares) e ar-condicionado. Também houve mudança nos sistemas de som e iluminação, nos camarins, na bilheteria, nos banheiros e na lanchonete. Em comparação com o Chico, o custeio do Marília foi mínimo, porém, suficiente para recuperar a originalidade do edifício. Com 1,8 milhão de reais, foram mudados a fachada, o revestimento e os ambientes internos. Foram criadas escada e rampa de acesso independente e direta da rua para o palco, além de duas coxias. A capacidade pulou de 179 para 256 pessoas. "É um presente para a cidade", comemora o presidente da Fundação Municipal de Cultura, Leônidas José de Oliveira. Segundo o coordenador-geral do 12° FIT-BH, Cássio Pinheiro, logo que terminar o festival serão divulgados os editais de ocupação para o segundo semestre.

Programas casados

Neste ano, não haverá o tradicional Ponto de Encontro. Aproveite para conhecer bares e restaurantes próximos aos teatros

Centro

Antes ou depois de curtir as peças, vale dar uma conferida nos novos inquilinos do Edifício Maletta (Rua da Bahia, 1148). Embora ainda não tenha passado a moda do Dub, do Arcangelo Bar Café ou do Café Biografias, reinvente a visita marcando ponto no Objetoria (sobreloja 6, ☎ 9111-3084) ou na nova unidade do Duke'n'Duke (Avenida Augusto de Lima, 245, ☎ 3567-7570).

Santa efigênia

A movimentada esquina do Oratório (Avenida Brasil, 161, ☎ 3241-7112) já ganhou status de pré-balada pelos frequentadores do Music Hall. O programa é sentar-se e beber uma ou outra cerveja antes de fechar a noite.

Serra

Não é que o Estádio Baleião seja assim tão próximo dos bares e restaurantes da região, mas é merecida a ida à Taberna Baltazar (Rua Oriente, 571, ☎ 3221-7361). Sentar-se a uma das mesas da calçada à tardinha é revigorante. O Zé Pretinho Bar e Restaurante (Rua Gravataí, 260, ☎ 2510-8190) também anda chamando atenção para as bandas de lá.

Floresta

Não há quem resista às delícias do bar Salumeria Central (Rua Sapucaí, 527, ☎ 2552-0154), com vista para a bela imagem da Praça da Estação. Faça uma horinha antes de seguir para a Funarte. Dependendo da disposição, passe antes no charmoso Petit Café (Rua Sapucaí, 285, ☎ 3586-0090).

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE