Memória

BH se despede de José Góes, dono do maior acervo de imagens antigas de Minas

Responsável por clicar Juscelino Kubitschek, o fotógrafo tinha mais de meio milhão de negativos históricos 

Por: Glória Tupinambás - Atualizado em

Reprodução Acervo José Góes
(Foto: Redação VejaBH)

A posse de JK na Presidência da República, em 1956

São 6 000 fotos de Juscelino Kubitschek e meio milhão de negativos com registros de personalidades e fatos marcantes. Dono do maior acervo de imagens antigas de Minas, o fotógrafo José Góes morreu no último domingo (4), aos 77 anos, em decorrência de um AVC, e deixou para Belo Horizonte as memórias colecionadas ao longo de seis décadas de carreira. Por suas lentes passaram oito governadores - em poses oficiais e flagrantes bastante descontraídos - entre 1966 e 1984, período em que foi o fotógrafo oficial do Palácio da Liberdade. Tancredo Neves com um saboroso prato de frango ao molho pardo nas mãos, a chegada do papa João Paulo II a BH em 1980 e uma vista aérea do rompimento da Pampulha em 1954 estão entre os cliques da inseparável Rolleiflex. Mas além de imagens de sua autoria, Góes dedicou boa parte da vida à compra de acervos de outros fotógrafos, o que o transformou em guardião dos últimos 120 anos da história do estado.

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Reprodução Acervo José Góes
(Foto: Redação VejaBH)

Góes com Pelé, em 1970; e abraçado ao amigo Tancredo Neves, no início da década de 80: amostras dos sessenta anos de carreira

Natural de São João Evangelista, no Vale do Rio Doce, Góes passou a infância em Conceição do Mato Dentro. Foi ali que, aos 6 anos, conheceu seu maior ídolo, JK, na época prefeito da capital. Anos mais tarde, toda a família se mudou para BH, e seu pai, um militar, trabalhou como segurança do então governador Kubitschek. Para ajudar nas despesas, Góes vendia balas em cinemas e trabalhava como laboratorista na Casa Lucena, antiga loja de fotos da cidade. Na ausência de um dos profissionais do estabelecimento, ele acabou sendo escalado para fazer as imagens de um casamento, e não demorou para que abrisse o próprio estúdio. Na década de 50, foi convidado para trabalhar como repórter fotográfico do governador Bias Fortes e teve a chance de acompanhar a posse de JK como presidente da República, em 1956.

Reprodução Acervo José Góes
(Foto: Redação VejaBH)

o início das obras do Mineirão, em 1959

"Meu pai era tiete, amigo e um homem de confiança da família de Juscelino", conta a psicóloga Soraia Góes, terceira dos oito filhos do fotógrafo. A construção de Brasília, a inauguração da nova capital e o exílio de JK na França durante a ditadura. Nada escapou às lentes de Góes, que, de tão próximo, ficou famoso por oferecer jantares ao político na cozinha de sua casa, em Santa Tereza. Nos animados encontros, que chegavam a reunir 500 convidados, o fotógrafo revelava duas outras paixões: a culinária e a música. Exímio cozinheiro de frango caipira com fubá torrado - batizado por ele de frango xororó -, Góes também promovia serestas que só terminavam ao amanhecer. "Ele era um bon-vivant que se alegrava em ver os outros felizes", diz o amigo Marcelo Ferreira, auditor fiscal aposentado. Para que as boas lembranças e o rico acervo de Góes não se percam com o tempo, os herdeiros se mobilizam para criar um livro e um centro cultural. BH torce para que os planos se concretizem e os cliques desse mestre da fotografia sejam imortalizados.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE