Crônica

Coitado do compadre jacaré!

Por: Luís Giffoni - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)

O IBGE divulgou recentemente estatísticas iné­­­­­­ditas sobre o Brasil, baseadas no Censo 2010. Elas abor­­­­dam, entre outras novidades, a situação de nossas calçadas, rampas para deficientes físicos e pavimentação urbana em municípios com mais de 1 milhão de habitantes. Belo Horizonte não ficou mal no ranking nacional, conseguiu algumas primeiras colocações, o que causou ufanismo em vários de nossos políticos. Ufanismo precoce.

Por coincidência, no dia em que os números foram divulgados, eu caminhava pela Avenida Bandeirantes, próximo ao final da Rua do Ouro, quando encontrei uma mãe que acabara de descer de um ônibus e em­purrava numa cadeira de rodas seu filho adolescente. O rapaz tinha sérias dificuldades pa­­ra falar, além de incapacidade para coordenar o movimento de pernas e braços. Dirigiam-se à Associação Mineira de Rea­bilitação (AMR), um centro de referência em ortopedia e recuperação de deficientes físicos. O problema de mãe e filho piorou quando tentaram subir a rua que dá acesso ao hospital. Para começar, do lado direito, tomado por dezenas de carros estacionados em local proibido, não existe passeio, apenas um amontoado de pedras, uma delas talvez pesando meia tonelada. Do outro lado, não sei se poderia classificar como passeio a sucessão de buracos, trincas, fendas e rugosidades que quase impedem o movimento de cadeirantes.

Conhecedora das dificuldades do acesso, a mãe evitou a calçada, optando por usar a rua. Então desceu em alta velocidade o ônibus que serve a região, quase atropelando a dupla. Ajudei a mãe a conduzir a cadeira ao passeio e a levei até a portaria da AMR. No trajeto, senti na pele as dificuldades dos deficientes físicos em Belo Horizonte — e daqueles que eventualmente os transportam. Nossas calçadas exigem esforço, muito esforço para vencê-las. São ruins em qualquer bairro, pouco importa se no centro ou na periferia. Ultrapassar obstáculos como pedras soltas, raízes levantadas, fendas no cimentado, serviços de entrada de água e de luz mal executados, tudo isso faz da vida do deficiente um inferno. Sob nossos pés, Belo Ho­­rizonte é um remendão sem fim.

Não sofre apenas o de­­ficiente. Tente empurrar um carrinho de bebê na vizinhança de sua ca­­sa. Quem nunca torceu o pé num buraco no passeio ou nun­­ca chutou um obstáculo que jamais deveria estar no meio da calçada? Em rápido le­­van­­tamento descobri que, to­­dos os dias, nossos prontos-socorros re­­­cebem várias pessoas, so­­bretudo idosas, com en­­torses ou fraturas sofridas em nossas vias públicas. Eu mesmo já levei um tombo cinematográfico em plena Avenida Afonso Pe­­na, perto da prefeitura, por causa de uma base de semáforo abandonada. Tro­­­­­­pecei no pedaço de concreto, desequilibrei-me, saí dando patadas no chão, em balé de bêbado, até aterrissar de queixo em cima do pavimento. Não sei o que doeu mais: os arranhões ou as gargalhadas dos que passavam.

Praticamente não existe na cidade uma faixa contínua de apenas 50 metros cuja calçada esteja benfeita e bem mantida. Mesmo nas redondezas do Palácio da Liberdade, o problema está presente, situação que se repete até diante de edifícios luxuosos espalhados pelos nossos bairros.

Os ufanistas poderiam contestar que, no Brasil, Belo Ho­­rizonte está muito bem colocada nas estatísticas recém-divulgadas pelo IBGE. Esse argumento não resiste à nossa triste realidade. Lembra, ainda, uma versão da velha fábula da festa no céu, à qual não poderiam comparecer bichos de boca grande. O sapo, bancando o esperto, fingiu que não era com ele e fuzilou:

— Coitado do compadre jacaré!

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE