Crônica

O gradil e a Liberdade

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Deve ter sido em 1963. Eu era garoto, andava pela Praça da Liberdade com alguns amigos num início de noite, sem o que fazer depois do lanche no Xodó, quando ouvimos a banda da Polícia Militar tocar o Hino Nacional em frente ao Palácio da Liberdade. Corremos para lá. Na época, o acesso era livre, não havia aquele gradil de ferro que separou o povo de seus representantes, ou melhor, encastelou os políticos. Atravessávamos sem impedimento os jardins do palácio para chegar mais rápido à Avenida Cristóvão Colombo, ao lado do Servas. Em dezembro, colhíamos mangas no pomar, sob a vista grossa dos guardas. Havia, ainda, as tâmaras, mais fáceis de apanhar: o pé ficava junto à guarita. Nós as derrubávamos, após subir no muro. Eram uma raridade, os frutos mais exclusivos do poder. Meio sem gosto, confesso. Para um amigo, contudo, possuíam a feminilidade oriental, a volúpia das odaliscas. Lembravam o harém que ele sonhava ter quando crescesse. Arroubos de orador precoce.

No fim do Hino Nacional, o então governador, Magalhães Pinto, fez um breve discurso e preparou-se para plantar um pau-brasil no meio do canteiro principal, perto da escultura de mármore de um casal se beijando. Enveredei entre o séquito de auxiliares, até chegar junto do governador. Quando ele ia colocar a muda na cova, examinou os arredores, me viu e me convidou para ajudá-lo, quem sabe guiado pelo faro de político: plantaria a árvore ao lado de um garoto, plantaria para o futuro. Jogamos a terra, apertei-a um pouquinho com o pé, flashes brilharam. No dia seguinte, apareci na primeira página de um jornal. A fotografia rendeu assunto na escola, na família e entre os amigos.

A manchete em breve foi esquecida, mas nunca me esqueci daquele pau-brasil. Era a minha árvore, aquela que eu ajudara a plantar. Assumi-a. Sempre que passava ao lado dela, tocava-a com carinho de pai-menino. Crescemos juntos, eu mais depressa no início, porém ela logo me ultrapassou. Deve ter sido por causa dos grãos de adubo que lhe levei diversas vezes. Adubo e carinho fazem milagres.

Nesta semana, por acaso, ganhei de presente uma revista antiga, a Manchete datada de 10 de abril de 1964. Magalhães Pinto aparece numa foto ao lado do pau-brasil, recebendo cumprimentos pelo êxito do golpe militar. Deve ter sido o primeiro duro golpe que o pau-brasil recebeu. Logo vieram outros: instalaram o gradil e proibiram a entrada do povo nos jardins. Mudou o povo ou mudaram os políticos?

De repente, nesse susto que é a vida, descobri que a árvore está completando cinquenta anos. Meio século de proximidade ao poder. Fui visitá-la, eu do lado de fora, olhando-a de longe, do passeio da praça, nossa amizade proibida, há décadas, pelo muro de metal. Levei outro susto: ela anda combalida. Tem um rombo no coração, no meio do tronco, causado sabe-se lá por qual dos golpes. Parece que, tomada pela fraqueza, se sustenta com dificuldade. Imagino que não resistirá muito tempo. Se pudesse, eu a socorreria com grãos de adubo. Quem sabe mais um pouco de carinho a recuperaria?

Concluí que o pau-brasil da Liberdade morre de vergonha - ou de tristeza. Cinquenta anos se passaram, cometemos muitos erros, tivemos acertos, mas ainda não aprendemos o que é a democracia plena. Pergunto outra vez: mudou o povo ou mudaram os políticos? Por que, então, continua instalado aquele intimidador gradil em frente ao palácio que tem, em memória da luta dos mineiros que nos antecederam, o nome de Liberdade? Por que o povo foi afastado da sede de seu governo, alguém se lembra? O motivo permanece? Libertas quae sera tamen. Triste ironia, 200 e tantos anos depois dos inconfidentes.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE