Polícia

Helicóptero da família do senador Zezé Perrella é apreendido com 445 quilos de cocaína no Espírito Santo

Aeronave usada para o tráfico de drogas pertence ao deputado estadual Gustavo Perrella

Por: Luisa Brasil e Paola Carvalho - Atualizado em

Divulgação
(Foto: Redação VejaBH)

A aeronave em Afonso Cláudio (ES), durante a operação policial, e os tabletes da droga: no momento, a polícia descarta a participação dos Perrella no crime

Entre os vários luxos que o senador, empresário e ex-cartola Zezé Perrella (PDT) possui, um é poder cruzar os ares a bordo de um helicóptero Robinson 66, ano 2011. Equipado com um motor da marca britânica Rolls-Roy­ce, um modelo zero-quilômetro custa 1,9 milhão de reais. A aeronave está registrada em nome da Limeira Agropecuária, pertencente aos filhos do senador, o deputado estadual Gustavo Perrella (Solidariedade) e Carolina Perrella, e ao sobrinho André Almeida Costa. Costuma ser usada para trabalho, lazer e compromissos políticos. Quando levantou voo no último domingo (24), no entanto, não servia a nenhum desses propósitos. Ao sair de São Paulo com destino à cidade de Afonso Cláudio, na divisa do Espírito Santo com Minas Gerais, estava sendo utilizada como veículo para o tráfico de drogas.

Uma operação conjunta das polícias Federal e Militar do Espírito Santo encontrou o helicóptero em uma fazenda, carregado com 445 quilos de cocaína. Foram presos o piloto, Rogério Almeida Antunes, funcionário dos Perrella, e o copiloto, Alexandre José de Oliveira Junior, além de dois outros homens que recebiam a droga no momento da operação. Até a última quinta, os quatro permaneciam presos em Viana, no Espírito Santo.

Inicialmente, a polícia descartou o envolvimento dos Perrella no esquema de tráfico. Gustavo chegou a falar que não havia dado autorização para o uso da aeronave e pensava que ela estava em manutenção. Mas mudou sua versão. "O piloto pediu ao Gustavo autorização para fazer um frete no valor de 12 000 reais, mas evidentemente o deputado não sabia que se tratava de drogas", afirma o advogado da família, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Antunes alega que foi pressionado pelo copiloto a aceitar o voo. No depoimento, ele declarou saber que estavam transportando algum produto ilícito, mas não que era cocaína. "A função do piloto não era conferir a carga", diz o advogado de Antunes, Nicácio Pedro Tiradentes. "Ele entrou em desespero quando chegou à fazenda e percebeu que era droga." Já o copiloto Oliveira admitiu à polícia que não sabia nada sobre o conteúdo do frete, embora tenha confirmado que receberia 60 000 reais pelo serviço. O contratante seria um tal de "Harley".

O senador revelou estar "pasmo" com a situação. "Ele foi bem recomendado, é evangélico", afirmou, referindo-se a Antunes. Para Gustavo, a contratação do piloto, há cerca de um ano, foi feita apenas com base na experiência dele. "O que pesou foram as horas de voo." Mas isso não explica a contratação nebulosa do piloto como funcionário comissionado da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Em março deste ano, por indicação de Gustavo, ele assumiu o cargo de "agente de serviços de gabinete", uma função que exige apenas nível fundamental e cujas atribuições são simples, como efetuar ligações e auxiliar o recebimento de documentos no gabinete. De acordo com Zezé, o piloto atendia à Limeira nos fins de semana e dava expediente na Assembleia nos dias úteis. Seu salário no Legislativo era de 829,67 reais, acrescido de 600 reais em benefícios - bem abaixo dos 12 000 reais que costumam ganhar os companheiros de profissão que comandam aeronaves do mesmo padrão. Na Limeira, o comandante ganhava em torno de 7 000 reais, segundo Zezé. Antunes foi exonerado na terça-feira. O Ministério Público de Minas Gerais abriu uma investigação para saber se ele era funcionário-fantasma. Os promotores também prometem apurar se houve desvio de recursos públicos para o uso privado do helicóptero. O Robinson costumava ser abastecido com verba indenizatória dos Perrella. De acordo com o site de transparência da Assembleia Legislativa, o deputado registrou, neste ano, despesa de 14 078 reais em combustíveis de aviação. Já seu pai declarou ao Senado gastos de 11 175 reais com abastecimento de aeronaves em 2013. Ele informou que utilizou recursos públicos para encher os tanques de seu avião bimotor, vendido há quatro meses, e do helicóptero. "Usei o helicóptero para compromissos profissionais, mas isso é permitido", disse. "Se há algum problema, que se mude o regimento do Senado."

"Usei o helicóptero para compromissos profissionais. Se há algum problema, que se mude o regimento do Senado."

Zezé Perrella, senador, ao explicar por que abastecia o Robinson 66 com verba pública

"O que pesou na contratação do Rogério foram as horas de voo."

Gustavo Perrella, deputado estadual, sobre as especulações de que teria relações pessoais com o piloto

Zezé exercia simultaneamente a cartolagem e a política até 2011, ano em que deixou a presidência do Cruzeiro. Antes disso, foi deputado estadual (1999-2002) e deputado federal (2007-2010). No Senado, assumiu como suplente a vaga aberta com a morte de Itamar Franco. O senador é conhecido por suas atividades empresariais agropecuárias, mas, em sua última declaração de bens, o patrimônio informado é relativamente modesto, somando 490 000 reais. Já Gustavo ingressou na política em 2010, quando assumiu o atual mandato como deputado estadual. Seus bens estão avaliados em 1,98 milhão de reais. Do montante, quase a metade vem da Limeira Agropecuária, cujas cotas valiam 900 000 reais na declaração feita ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Além dos dois casos da semana passada, há pelo menos outros quatro sendo apurados pelo Ministério Público envolvendo a família Perrella. O primeiro refere-se a um possível esquema de fraudes no fornecimento de comida ao sistema penitenciário mineiro por meio da empresa Stillus Alimentação. Outro tenta provar a celebração irregular de convênio entre a Limeira Agropecuária e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig). Um terceiro está relacionado aos gastos do senador com combustível no período em que foi deputado estadual. Há ainda, desde 2003, uma investigação de enriquecimento ilícito de Zezé enquanto esteve à frente do Cruzeiro. O promotor Eduardo Nepomuceno explica que uma parte da apuração foi encaminhada à Polícia Federal e que outra foi "trancada" pela Justiça estadual. "Mandaram extinguir por entender que o Ministério Público não tem legitimidade para investigar", afirma.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE