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De helicópteros, repórteres de rádio e TV flagram cenas do cotidiano de BH

Do alto de três veículos, jornalistas fazem a cobertura da vida da cidade

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Odin
(Foto: Redação VejaBH)

O piloto Eduardo Barbatti e o cinegrafista Amadeu Barbosa, na aeronave da Record: os "meninos do ar"

Operações policiais, congestionamentos, incêndios, enchentes... Esse é o dia a dia dos repórteres aéreos que acompanham Belo Horizonte de cima. A capital mineira tem três veí­­culos de comunicação que fazem cobertura jornalística diária com helicóptero: Sistema Globo de Rádio (CBN BH, Rádio Globo e BH FM), TV Globo e TV Record. Os profissionais que decolam do Aeroporto da Pampulha se indignam com a falta de infraestrutura da cidade para suportar a frota de 1,5 milhão de veículos, choram por vítimas de acidentes graves e dão risada daqueles que fazem peripécias para suas câmeras.

As emissoras tentam não só transmitir o que está acontecendo, mas dar alternativas a quem está aqui embaixo. "Tem ouvinte que liga para a redação antes de sair de casa", afirma Luiz Henrique Yagelovic, gerente de jornalismo do Sis­­tema Globo de Rádio. A cidade "encheu e esticou" para o Vetor Sul, rumo a Nova Lima, e também para o Vetor Norte, na direção da Cidade Administrativa. "Ficou impossível fazer cobertura jornalística só de carro, mesmo porque um acidente pode parar a cidade." Em São Paulo já existe uma rádio em que a programação é dedicada exclusivamente aos motoristas — um sucesso.

Aqui, os olhos dos ouvintes do Sistema Globo de Rádio são de Simone Crisóstomo, que iniciou a carreira há mais de quinze anos, no Rio de Janeiro. Em 2007, quando se deu conta de que o trânsito era caótico também em outras capitais, escolheu Belo Horizonte para usar sua experiência. Fã de aeronaves desde criança, ela se mudou para perto do aeroporto, de onde decola sempre duas vezes por dia, por volta das 7 da manhã e no fim da tarde. De longe, identifica os principais pontos da cidade que a acolheu. Tem pelo menos 7 000 horas de voo, mais do que muito piloto de carreira. Com o olhar fixo no chão e microfone preso à cabeça, conta ao vivo tudo o que vê do pequeno e, à primeira vista, frágil Robinson 22 sem portas. Corajosa, a única repórter de rádio a fazer transmissões direto de um helicóptero se assusta com os muitos carros com uma única pessoa e um transporte coletivo abarrotado de gente. "Dá para ver que as obras não resolverão de vez os gargalos", diz. "O governo precisa investir em transporte de massa, mas as pessoas também têm de colaborar." Segundo ela, os motoristas mais mal-educados são os da Zona Sul. "Eles adoram fechar cruzamentos."

Na televisão, o helicóptero garante informações exclusivas em tempo real. A TV Record, a emissora comercial com o maior tempo de programação local, usa as imagens aéreas durante os telejornais e os programas Balanço Geral e Cidade Alerta. "É um investimento altíssimo, mas possibilita ao telespectador enxergar a cidade com outros olhos", afirma o gerente de jornalismo, Tiago Feitosa. Sem revelar números, ele conta que a Record vem investindo na estrutura em alta definição para transmissões. Com ela, é possível registrar a placa de um veículo a uma distância de até 5 quilômetros. Hoje, no Robinson 44, um modelo de aeronave para quatro pessoas, são acopladas três câmeras: uma na cauda, uma na frente e uma interna. O equipamento de edição e o cinegrafista Amadeu Barbosa ocupam os dois lugares traseiros. Indicar os melhores ângulos ao piloto e escolher em seus monitores as imagens para ser transmitidas é o desafio de Barbosa. O que o telespectador vê é a seleção do que os "meninos do ar" — como os chama o apresentador da emissora Carlos Tramonte — registram a no mínimo 150 metros do chão, sob o forte barulho das hélices. "A imagem aérea tem de ter movimento, pois é uma dança bonita, que, mesmo sendo trágica, prende a atenção", filosofa o cinegrafista. Ele já se acostumou com a rotina da cidade vista de cima, mas admite que perde o sono quando vê acidentes como os que "espalham mortos" no Anel Rodoviário.

Odin
(Foto: Redação VejaBH)

No sentido horário: equipe da Record; o piloto Flávio Silva, o repórter Wendel Teixeira e o cinegrafista Benjamim Fridman, da Rede Globo: quatro câmeras para registrar a cidade; O comandante João Batista Cardoso Filho e a repórter Simone Crisóstomo, do Sistema Globo de Rádio: dois voos por dia

O Globocop, o helicóptero modelo Robinson 44 da Globo Minas, já está adaptado à tecnologia de alta definição. Com uma câmera a mais do que o da Record, decola desde 2008, mas só quando há notícia. "A cobertura aérea vence grandes distâncias rapidamente e chega a lugares onde a equipe teria dificuldades em terra", diz o chefe de redação, Clécio Vargas, fã da geometria da Praça Raul Soares vista do alto. Não há repórter fixo, mas Wendel Teixeira é o mais escalado. "Parece que todos da cidade começam e terminam o dia no mesmo horário, mas nos intervalos podemos contemplar o belo horizonte", afirma. No início, não conseguia identificar todas as ruas e avenidas. "De cima, elas parecem iguais." Hoje, ele é capaz de captar flagrantes e transmitir imagens e notícias exclusivas em tempo real.

Teixeira e os outros repórteres não têm medo do trabalho aéreo, mas todos lembram de ao menos um sufoco para contar. "Seríamos atingidos por uma tempestade e tivemos de pousar no campo do Estádio Independência. Mas minha lembrança mais intensa é da beleza de ver a chuva chegando cada vez mais próximo do helicóptero." Belo Horizonte encanta quem está lá em cima. "No Rio, fora da orla, não tem nada de bonito. Aqui, a beleza da Serra do Curral se vê de todo lugar", diz Barbosa, o cinegrafista da Record. "Quando me aproximo da pista de pouso, o espelho-d'água da Lagoa da Pampulha se mistura com o céu, em uma fusão que alivia a gente da maluquice do dia a dia", afirma Simone, do Sistema Globo de Rádio. Os profissionais também se distraem com cidadãos pitorescos. Mulhe­­­­res rebolam na laje e algumas até levantam a camisa. Nas suítes com piscina de motéis, casais não fazem questão de se esconder. E não é raro haver quem arrisca a vida para garantir a sua imagem na TV. "Durante uma enchente, um homem que já estava em segurança pulou dentro da água de novo quando viu o helicóptero", conta o câmera da Globo, Benjamim Fridman. Ele, claro, não virou notícia.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE