Especial

Heróis dentro de campo, jogadores levam o Cruzeiro à conquista do tricampeonato

Fábio, Dedé, Nilton, Ricardo Goulart e Éverton Ribeiro são os grandes heróis do título celeste

Por: João Renato Faria e Thiago Alves - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)

Nilton, Dedé, Fábio, Ricardo Goulart e Éverton Ribeiro: os destaques da equipe campeã

No início do Brasileirão, achava que faltava ao Cruzeiro um fora de série, como foi Alex em 2003", admitiu o cronista esportivo Tostão, em sua coluna publicada no último domingo (10), nos jornais O Tempo e Folha de S.Paulo. "Não foi necessário. O time atual possui também um craque, o coletivo", completou. O ex-atacante, um dos maiores ídolos da torcida celeste de todos os tempos, tem razão. Na campanha que levou o time ao tricampeonato, o que se viu foi a supremacia de um trabalho de grupo. Na última quarta, o Cruzeiro derrotou o Vitória, em Salvador, por 3 a 1, mas nem precisava. O clube já havia se sagrado campeão no intervalo da partida, quando acabou o jogo em que o Atlético Paranaense perdeu por 2 a 1 para o Criciúma. "Todos os jogadores evoluíram, principalmente Éverton Ribeiro, que foi o melhor do campeonato", escreveu Tostão. "Outros destaques foram Fábio, Dedé, Nilton e Ricardo Goulart." Tostão atribuiu grande parte do sucesso ao estilo do técnico Marcelo Oliveira, o treinador que chegou a ser rejeitado pelos torcedores no início do campeonato. "O Marcelo imprimiu um jeito de jogar que impressiona", avaliou o cronista, em entrevista a VEJA BH. "Ele se consagra como um dos principais técnicos em atividade no país."

O título só foi confirmado na quarta, mas a torcida já estava em ritmo de comemoração desde o domingo anterior, quando, no Mineirão lotado, a Raposa derrotou o Grêmio por 3 a 0. Os jogadores deram até a volta olímpica no estádio, pois só mesmo uma combinação quase impossível de resultados poderia lhes tirar o título. Por toda a cidade havia buzinaços e estouro de foguetes. Não era para menos. Esse time é realmente fora de série. Até agora somou no Campeonato Brasileiro 23 vitórias, cinco empates e apenas seis derrotas - a melhor campanha feita por um clube nesta etapa do torneio, a 34ª rodada. O Cruzeiro conquistou a liderança no 16º jogo, no fim de agosto, e não a perdeu mais. Foi a primeira vez no campeonato que uma equipe conseguiu vencer, pelo menos uma vez, todos os outros dezenove participantes. Neste Brasileirão, não há dúvida, é a imagem do Cruzeiro que resplandece.

Capitão elástico

Com mais de 530 jogos disputados pelo Cruzeiro, o goleiro Fábio é o grande ídolo da torcida. O mato-grossense de 33 anos está em sua segunda passagem pelo clube. Estreou aqui em 2000, mas no ano seguinte foi transferido para o Vasco. Voltou para Belo Horizonte em 2005 e virou titular absoluto. Neste Brasileirão, fez defesas impressionantes. Cada vez que o arqueiro de 1,88 metro impediu um gol do adversário, a torcida o reverenciou e gritou: "O Fábio é o melhor goleiro do Brasil". Evangélico fervoroso, o capitão do time desde 2010 atribui seu desempenho aos céus. "Deus é grande, Deus é bom, Deus ajudou", repete sempre, quando lhe pedem para comentar suas defesas. A julgar por sua performance, ele parece mesmo estar em uma fase abençoada. Só falta chamar a atenção do técnico da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari. "A não convocação do Fábio para a seleção é a maior injustiça que eu já vi", diz o comentarista Milton Neves, da Band. "Ele está há quase dez anos jogando em altíssimo nível no Cruzeiro."

Um xerifão na defesa

Comprado do Vasco por 13 milhões de reais, Dedé se tornou o jogador mais caro da história do Cruzeiro. O zagueiro, de 25 anos, foi recebido com festa pelos torcedores, em abril. No entanto, não correspondeu de imediato ao que se esperava dele. Falhou em lances que resultaram em gols dos adversários. Segundo ele, a explicação para a falta de concentração em campo era um problema particular. Logo que chegou à Toca da Raposa, sua irmã foi internada por causa de uma encefalite. O Mito, como é chamado, deu a volta por cima. Arrumou um setor que era considerado problemático - a defesa, hoje a segunda menos vazada do Brasileirão, atrás apenas da do Corinthians. Com 1,92 metro, o jogador, natural de Volta Redonda, no Rio de Janeiro, é um xerifão na grande área. A boa atuação no campeonato o levou a ser convocado novamente para a seleção brasileira.

Um maridão que defende, arma e faz gols

Conhecido pelo apelido Paulada, que ganhou nos tempos do Vasco, por causa das entradas duras no meio de campo, o volante Nilton não estava nos planos da diretoria do Cruzeiro. Afinal, havia no elenco seis jogadores na posição. "Tive de insistir muito pela contratação dele", lembra o técnico Marcelo Oliveira, que o conheceu quando comandou o time carioca, em 2012. Nilton foi o elemento-surpresa em campo. Com a camisa celeste, mudou bastante seu estilo de atuação. Continuou firme na marcação, mas passou a sair mais para o jogo e mostrou faro de artilheiro. Ele já marcou sete gols no Brasileirão. Para a torcida, o mato-grossense de 26 anos é o "maridão azul". Tudo por causa de sua mulher, Karin Lopes da Silva, que se tornou quase tão famosa quanto ele. Karin não perde uma partida. Do camarote, ela dá bronca no marido e xinga o juiz. Virou a "corneteira azul".

O Rei dos Gols Bonitos

Tímido fora do gramado, o meia-atacante Éverton Ribeiro se transforma quando entra em campo. Com dribles desconcertantes e lançamentos precisos, o talentoso jogador de 25 anos brilhou como um dos protagonistas na conquista do título. Com a camisa 17, tornou-se o artilheiro dos gols bonitos. Em janeiro, quando foi apresentado pelo clube, poucos acreditavam que ele pudesse ser o maestro do meio-campo. Homem de confiança do técnico Marcelo Oliveira - que já o havia levado para o Coritiba, em 2011 -, Éverton era o primeiro da lista de reforços pretendida pelo treinador ao assumir o clube. "Eu não esperava por essa liga que conseguimos no campo", afirma ele. Com contrato garantido até 2018, o jogador paulista conta que está gostando muito de morar em Beagá. Aproveita as folgas para ir ao cinema com a noiva, Marília Nery, geralmente no shopping Ponteio, onde é menos assediado pelos fãs. Mas não vai ser fácil mantê-lo por aqui. Clubes da Europa e do Oriente Médio estão de olho no craque. Propostas na casa dos 10 milhões de euros já chegaram à mesa do presidente, Gilvan de Pinho Tavares.

De reserva a protagonista

Ex-Goiás, o meia-atacante Ricardo Goulart chegou aqui sem muito alarde. O paulista de 22 anos começou a temporada como reserva do badalado Diego Souza. Foi em meados de julho, depois da venda do camisa 10 para o Metalist, da Ucrânia, por 18 milhões de reais, que ele se tornou titular e não saiu mais do time principal. Nem mesmo a chegada de Júlio Baptista, que jogou a Copa do Mundo de 2010 e teve passagens bem-sucedidas por Arsenal, Real Madrid e Roma, ameaçou sua posição. Apesar de não ser centroavante, Goulart é o artilheiro do clube no Brasileirão, com dez gols marcados, ao lado do camisa 9, Borges. O número de tentos, dizem os analistas, é resultado do ofensivo esquema montado pelo técnico Marcelo Oliveira. "O Cruzeiro ataca com muito volume, com três ou até quatro jogadores chegando de trás", explica o jornalista Juca Kfouri. "Os atletas sempre invertem posições para confundir a marcação." E Ricardo Goulart soube confundir como ninguém. "Ele é o jogador mais intenso do Cruzeiro, corre o tempo todo", diz Osvaldo Reis, o Pequetito, comentarista da Rádio Globo.

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)
O maestro do tri

O técnico do Cruzeiro ainda era Celso Roth quando vazou a informação de que Marcelo Oliveira havia sido contratado para comandar o time em 2013. Dezenas de torcedores foram à Toca da Raposa 2 protestar contra a escolha. A reação indignada pegou Marcelo de surpresa. "Pensei em desistir", confessa. "Mas entendi que a rejeição não era pelo meu trabalho, e sim pelo que vivi no Atlético", diz. Aos 14 anos, o belo-horizontino começou a jogar no infantil do Cruzeiro, mas só passou duas semanas por lá. O vizinho Campos, então atacante do Galo, levou-o para o Atlético, onde ele acabou escrevendo a maior parte de sua história no futebol. Meia-atacante habilidoso e bom batedor de faltas, nos anos 70 e 80 chegou a ser convocado para alguns jogos da seleção brasileira. "Quando vi o protesto, fiquei preocupada e orei muito pedindo proteção para ele", conta sua mãe, Luiza Oliveira. Mas a rejeição ficou no passado. O estilo seguro e tranquilo do treinador conquistou a torcida. "O Telê Santana é minha inspiração", afirma. Levantar a voz e gritar palavrões não é com ele. Persistência, sim. Marcelo não hesita em parar um treino para que o escanteio seja batido dez, quinze, vinte vezes - até sair como ele quer. E não tem medo de colocar no banco jogadores consagrados, como fez com o meio-campista Júlio Baptista. Os torcedores agora pedem a renovação de seu contrato.

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Os números da campanha histórica*

74 pontos

23 vitórias foram conquistadas. É o único time a derrotar todos os adversários pelo menos uma vez na história do Brasileirão

10 gols foram marcados por Ricardo Goulart e Borges, os artilheiros

72 gols no total fazem do Cruzeiro o time com o melhor ataque da competição

30 vezes a meta do goleiro Fábio foi vazada, deixando a Raposa com a segunda melhor defesa

28 714 torcedores é a média de público dos jogos da equipe como mandante - a maior do campeonato

* até a 34ª rodada

Com o patrocínio da torcida

Os mais de 43 000 inscritos no programa Sócio do Futebol reforçaram o caixa do Cruzeiro

A meta do programa Sócio do Futebol do Cruzeiro era alcançar 30 000 inscritos até o fim de 2013. Hoje, são mais de 43 000. Eles pagam uma mensalidade que varia de 27,50 a 200 reais para ter benefícios como comprar ingressos de forma antecipada ou garantir um assento no Mineirão em todos os jogos do clube como mandante. "Em cinco anos, teremos 100 000 sócios", acredita o diretor de marketing, Marcone Barbosa. "Antes, planejávamos alcançar esse número em 2021, ano do nosso centenário." Esses fãs garantem 2,5 milhões de reais por mês ao clube. Com o caixa reforçado pelo patrocínio dos torcedores, a diretoria investiu em contratações. Os 13 milhões de reais pagos pelo zagueiro Dedé, em abril, saíram quase inteiramente da receita do Sócio do Futebol. Criado em 2009, o programa só decolou depois do acordo com a empresa Minas Arena, que administra o Mineirão, para fazer do estádio da Pampulha a casa oficial da Raposa

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE