Patrimônio

Igreja São José celebra a restauração de suas pinturas centenárias

Conjunto artístico do templo na Avenida Afonso Pena é considerado o maior desse tipo de ornamento na capital

Por: Glória Tupinambás - Atualizado em

Victor Schwaner/Odin e Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A fachada da matriz (destaque) e seu interior com cores renovadas: dom Walmor celebra missa no dia 22

Sai de cena o asfalto e entra o brilho das folhas de ouro. Trincas e infiltrações desaparecem para dar lugar ao azul-celeste da nave central. Arranhões e marcas de desgaste são apagados para realçar a beleza original da Igreja São José, no Centro. A matriz, na Avenida Afonso Pena, recebe neste início de mês os retoques finais da maior restauração já realizada em seus 113 anos de história. No dia 22, a cortina bege que encobre o altar-mor será descerrada para revelar, como em um presente de Natal para Belo Horizonte, o resultado do trabalho que mudou a rotina do templo nos últimos vinte meses. Em uma missa a ser presidida pelo arcebispo metropolitano, dom Walmor Oliveira de Azevedo, às 9h30, os padres celebrarão com os fiéis a conclusão da obra de 2 milhões de reais, que foi financiada por doações e dízimos.

O principal foco da restauração fo­ram as pinturas das paredes e do teto, feitas com a técnica parietal, usada no início do século XX - nela, a tinta é aplicada diretamente na superfície, sobre o reboco. Com 1 200 metros quadrados no total, o conjunto artístico da São José é considerado o maior desse tipo de ornamento em igrejas da capital. As obras são de autoria do alemão Wilhelm Schumacher e consumiram dois anos de trabalho, 1911 e 1912. "A beleza das pinturas estava encoberta por camadas de pó de asfalto e poeira acumuladas no último século", explica a restauradora responsável, Maria Regina Ramos, do Grupo Oficina de Restauro.

Munidos de bisturi, pincéis, algodão e pigmentos, a profissional e um time de dezoito operários especializados se empenham no minucioso trabalho. Além de resgatarem a beleza do teto, coberto de azul-celeste nas galerias laterais e com abóbadas rebaixadas no topo da nave central, eles renovaram figuras de 28 santos - catorze homens e catorze mulheres - e cenas bíblicas representadas em paredes e colunas. Também recuperaram pinturas que simbolizam as doze constelações do Zodíaco nas naves laterais, os painéis que ornamentam os pilares centrais e os vitrais coloridos, com desenhos geométricos, estrelas e flores. "O maior desafio foi a fixação das oito cúpulas do teto, que demandaram técnicas modernas de restauração sem desrespeitar o projeto original", explica Maria Regina. Na primeira etapa, realizaram-se testes de cor das novas tintas, com o uso de solventes. Só depois começou a limpeza com espanador, aspirador, trinchas e produtos químicos. Pinturas originais que estavam descascando foram fixadas com adesivos especiais antes da reconstituição cromática. A etapa final foi a aplicação de verniz para proteção das obras da matriz, uma construção em estilo neogótico. Os últimos retoques agora são acompanhados de perto pelos padres da Congregação do Santíssimo Redentor, que encomendaram a recuperação dos elementos artísticos e coordenaram a arrecadação do dinheiro para financiar a obra.

Pela igreja do santo que é padroeiro dos carpinteiros e dos operários - e também é considerado advogado da boa morte - passam, diariamente, cerca de 1 500 fiéis. Nos fins de semana, o público chega a 8 000 pessoas. "A comunidade se esforçou muito para que essa restauração acontecesse", diz o vigário paroquial Flávio Leonardo Santos Campos. Durante a obra, as missas diárias foram mantidas, mas algumas celebrações, como os casamentos, precisaram ser suspensas para a instalação de catorze conjuntos de andaimes na nave central. O padre agora planeja iniciar a reforma da parte externa do templo, que tem projeto arquitetônico original do engenheiro carioca Edgard Nascentes Coelho. "Se houver recursos, faremos a restauração da fachada no ano que vem", afirma Campos. "A Igreja São José é um patrimônio da história, da cultura e da fé do povo de Belo Horizonte, além de ser um oásis em meio ao caos do Centro." Os padres acreditam que, com a beleza das pinturas recuperada, a igreja receberá um público recorde, de até 70 000 pessoas, na Festa de São José, em 19 de março.

Um trabalho minucioso

As obras se estenderam por vinte meses

19 profissionais trabalharam na recuperação da pintura

221 pincéis foram usados pelos técnicos

1 200 metros quadrados de pintura nas paredes e no teto foram renovados

2 milhões de reais foram arrecadados, em doações e dízimos, para financiar o projeto

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE