Negócios

Investidores de diferentes países se reúnem em BH de olho nas nossas startups

Capital mineira já é o segundo maior polo destas empresas do país

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Os irmãos Roberta e Pedro Vasconcellos: criadores de uma nova comunidade virtual

Em março de 2013, a publicitária Roberta Vasconcellos, de 26 anos, se uniu ao irmão Pedro, de 24, e a dois outros amigos para fundar a Tysdo, uma sigla para Thing You Should Do (coisa que você deveria fazer). Trata-se de uma comunidade virtual em que as pessoas escrevem sobre seus desejos futuros. "Os posts podem ajudar alguém a realizar um sonho, seja um pulo de bungee jump, seja uma viagem para a Disney, ou servir de inspiração para outros", explica ela. Em pouco mais de um ano, a ideia já atraiu mais de 30 000 usuários, rendeu prêmios ao quarteto mineiro de empreendedores e aporte financeiro de um investidor, que está acreditando no potencial comercial do negócio. Roberta e seus parceiros são representantes de um grupo que não para de crescer por aqui - o dos jovens donos de startups. Existem 203 dessas pequenas empresas de inovação tecnológica na capital, o que faz de Belo Horizonte o segundo maior polo nacional nesse segmento, perdendo apenas para São Paulo, que tem 674 unidades registradas.

Entre segunda (23) e quinta (26), representantes das nossas startups se encontrarão no Goal Belo! 2014, um evento que pega carona na Copa do Mundo para reunir empreendedores e investidores de todo o mundo em debates e rodadas de negócios. "Nossa cidade se firmou como uma referência internacional", diz Mateus Montenegro. Ele é um dos articuladores do encontro e dono da startup Beved, instalada no bairro São Pedro, que ganhou o apelido de San Pedro Valley por causa da alta concentração de empresas do segmento, numa alusão ao Vale do Silício, a região da Califórnia que sedia gigantes do ramo, como Apple e Facebook.

A realização do Goal Belo! - que terá programação espalhada por pelo menos três endereços, o Sebrae, a Fundação Dom Cabral e o Minas Tênis Clube - é um reflexo de uma grande articulação local que envolve governo, empresários e universidades para consolidar uma posição de destaque no cenário mundial das startups. "A nova economia está amadurecendo na capital", afirma o secretário adjunto de Relações Internacionais de Belo Horizonte, Rodrigo Perpétuo. A expectativa é que o evento desta semana movimente cerca de 70 milhões de dólares.

Tudo começou em 1996, quando o estudante da UFMG Victor Ribeiro desenvolveu um site de busca, o Miner, como parte de um trabalho de ciência da computação para a universidade. Dois anos depois, ele e o professor Nivio Ziviani fundaram uma empresa que, em 2000, foi vendida para o portal UOL. Ribeiro e Ziviani abriram então uma nova startup, a Akwan, que, cinco anos mais tarde, acabou sendo comprada pelo Google. Foi o pontapé inicial para colocar BH no mapa mundial da inovação tecnológica. Depois da Akwan, várias outras pequenas empresas abertas na cidade atraíram o interesse de investidores. A HotMart, uma plataforma para operação de conteúdo digital; a Rock Content, especializada em produção de textos para blogs e sites corporativos; e a Samba Tech, um sistema de distribuição de vídeos on-line, são algumas delas. As três estão hoje entre as trinta maiores do país. A Samba Tech tem valor de mercado estimado em 5 milhões de dólares. A Rock Content, em 6 milhões de dólares. E a HotMart, em 12 milhões de dólares.

Empresas como a da publicitária Roberta Vasconcellos fazem parte do que os especialistas vêm chamando de terceira geração de startups belo-horizontinas, que reúne companhias fundadas por ­ex­-funcionários das primeiras startups e beneficiários de programas de fomento ao setor. Roberta, por exemplo, saiu da Samba Tech. "Estamos dando condições para o desenvolvimento dessas empresas por aqui", diz André Barrence, presidente do Escritório de Prioridades Estratégicas do governo estadual. No fim do ano passado, Minas lançou o programa Seed (sigla em inglês para Desenvolvimento do Ecossistema de Empreendedorismo e Startups). A cada semestre, quarenta projetos são selecionados. Além de poderem trabalhar em um escritório coletivo montado pelo governo, os empreendedores aprovados recebem 80 000 reais para pôr suas ideias em prática. Na última edição, 1 435 projetos de 34 países participaram da seleção. "Nosso objetivo é fazer com que Belo Horizonte seja a cidade referência em tecnologia da informação no Brasil até 2022", afirma Leonardo Bortoletto, conselheiro do Acelera MGTI, outro programa de desenvolvimento de startups, patrocinado por quatro associações representativas do setor (Assespro, Fumsoft, Sindifor e Sucesu), que conta com o apoio da Universidade de Stanford, no Vale do Silício. Enquanto a bola estiver rolando no Mineirão, nossos jovens empreendedores também estarão em campo tentando marcar gols e atrair a atenção do mundo todo.

Sonhos compartilhados

Com 12 000 reais, a publicitária Roberta Vasconcellos, de 26 anos, seu irmão, o engenheiro civil Pedro, de 24, e outros dois sócios criaram no ano passado o aplicativo Tysdo (sigla para Thing You Should Do), que tem hoje 30 000 usuários. O objetivo da ferramenta é compartilhar desejos para o futuro, sonhos que as pessoas querem realizar. A proposta chamou a atenção de um investidor e também de Simon Olson, ex-diretor de Novos Negócios do Google Brasil, que se tornou mentor do quarteto. A ideia é atrair parceiros comerciais interessados em divulgar produtos e serviços relacionados aos tais desejos expressos.

Pontos, não. Dinheiro

Usuários de diversos programas de fidelidade e descontentes com todos eles, dois colegas da faculdade de economia, Ofli Guimarães, de 29 anos, e Israel Salmen, de 25, criaram um modelo em que a recompensa não vem em pontos ou milhas, e sim em dinheiro. Quem faz compras pelo site deles, o Méliuz, recebe parte do valor gasto depositada em sua conta­-corrente, além de eventuais descontos oferecidos pelos comerciantes. O site tem 1 200 lojas parceiras, incluindo companhias aéreas e grandes redes de varejo. "Nossa receita vem da participação que as lojas nos pagam em cada operação", explica Guimarães. Eles acreditam que, até o fim do ano, a economia gerada pelo site para seus clientes somará cerca de 30 milhões de reais.

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Ana Paula Lessa e Marcela Kashiwagi: modelo lucrativo de entregas

Encomendas dos Estados Unidos

A engenheira da computação Marcela Kashiwagi, de 25 anos, ganhou, em 2011, um concurso realizado por um instituto de empreendedorismo para fazer um curso de uma semana no Babson College, em Boston, nos Estados Unidos. "Muitos amigos me fizeram encomendas, e eu não tinha como trazer de lá para eles", lembra. Quando voltou para o trabalho em uma agência carioca de marketing digital, contou a experiência a uma colega, a publicitária Ana Paula Lessa, de 22 anos. Juntas, as duas tiveram a ideia de criar um site para conectar pessoas interessadas em compras nos Estados Unidos e viajantes dispostos a trazer as encomendas em troca de uma remuneração. Assim surgiu neste ano o site Cabe na Mala, que já tem 52 000 seguidores e registra uma média de oitenta entregas por mês. A dupla ganha comissão nas operações. Selecionadas para um programa de desenvolvimento de startups do governo de Minas, elas também venceram um concurso para apresentar o negócio, em novembro, a investidores americanos, no Vale do Silício.

E vai rolar a festa

Depois de rodar o mundo, abrir um albergue em Barcelona e investir em imóveis em Budapeste, o publicitário Rodrigo Cartacho, de 33 anos, resolveu fincar o pé no Brasil, mais precisamente na Savassi, onde está localizado o escritório da Sympla. Com o irmão Marcelo, de 37, e o sócio David Tomaselha, de 34, levantou 450 000 reais e criou, há dois anos, uma plataforma on-line de venda de qualquer tipo de ingresso para eventos. Grandes empresas, como Natura e Vivo, já usam o sistema. Quem quer fazer um churrasco entre amigos, por exemplo, pode organizá-lo no www.sympla.com.br. Os convidados pagam a entrada pelo site, que repassa o valor arrecadado e fica com uma comissão de 10%. No último dia 13, 600 eventos eram realizados simultaneamente. Em 2012, a Sympla faturou 500 000 reais. Para este ano, a projeção é de uma receita de 20 milhões de reais.

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

João Gallo, da EI&T: aplicativos para quem quer passar no Enem e na prova da OAB

Para estudar no celular

"Eu percebi que algumas escolas tinham dificuldade em avaliar o desempenho de seus alunos", diz João Gallo, um dos sócios da EI&T (Educação, Inovação e Tecnologia). "Só descobriam se eles haviam absorvido o conteúdo por meio do resultado do vestibular, quando já era tarde demais." Foi para ter um parâmetro de avaliação do aprendizado que, em 2012, Gallo criou o AppProva. O aplicativo é um teste que indica ao estudante o que ele precisa estudar e também gera para a escola um relatório sobre os conteúdos em que seus alunos estão fracos. "Os usuários se divertem enquanto aprendem e, ao mesmo tempo, produzem dados para as instituições de ensino", diz Gallo. Mais de 200 000 estudantes utilizam a plataforma. O sucesso fez a empresa lançar mais um aplicativo, o AppOAB, para auxiliar quem quer se preparar para o teste da Ordem dos Advogados do Brasil.

Carro vigiado a distância

O engenheiro eletricista Gibram Raul Oliveira, de 33 anos, trabalhou no desenvolvimento de plataformas de petróleo e na indústria automotiva. Usou o conhecimento adquirido nesses setores para criar um dispositivo de comunicação sem fio para veículos. Sua empresa, a Netbee, foi uma das selecionadas em um programa estadual de fomento de startups. O aparelho que ele desenvolveu - e deverá estar no mercado em setembro - é capaz de enviar informações sobre o automóvel a um celular. É possível, por exemplo, acompanhar na tela do telefone a trajetória do veículo e até desligá-lo. "O pai pode limitar a velocidade máxima quando emprestar o carro ao filho e saber quando ele chegou e saiu de seu destino", exemplifica Oliveira.

Controle da equipe

O publicitário Roberto Reis, de 34 anos, e o advogado Rodrigo Andrade, de 30, criaram em março a empresa 3R Conecta para lançar o Líder, um aplicativo de gerenciamento de equipes. "É um sistema seguro para comunicação de um grupo ilimitado de pessoas, em que o líder pode escrever uma mensagem para todos, mas nem todos conseguem conversar com ele", afirma Reis. Eles acreditam que o modelo será de grande utilidade em campanhas eleitorais. O dispositivo já foi vendido a dois candidatos. Com a ferramenta, pode-se localizar cada um dos integrantes do grupo, agendar reuniões e enviar tarefas. "Isso a torna também muito útil para companhias que têm equipes móveis." A meta dos empreendedores é atingir, até 2015, um faturamento anual de 15 milhões de reais. "Temos outras ideias em maturação", garante Reis.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE