Cultura

Jardim Canadá vira polo cultural na Grande BH

Galpões e casas do bairro de Nova Lima, às margens da Rodovia BR 040, atraem público com galerias, teatros, espaços para shows e restaurantes

Por: João Renato Faria - Atualizado em

Odin
(Foto: Redação VejaBH)
Os bailarinos Rodrigo Quik e Letícia Carneiro, da Quik Companhia de Dança: 160 alunos

Quando decidiu fechar a galeria de arte que mantinha na Savassi, a marchande Beatriz Lemos de Sá queria antes de tudo um espaço bem amplo. Representante do artista plástico contemporâneo Amílcar de Castro (1920-2002), que tem em seu catálogo obras enormes feitas de chapas de aço e ferro, ela lamentava não poder expor seus trabalhos do lado de dentro da galeria. "Só conseguia mostrá-los na rua, já que são peças pesadíssimas", lembra. Na busca por um lugar, chegou ao Jardim Canadá, bairro de Nova Lima que fica às margens da Rodovia BR 040, a 20 quilômetros da capital. Assim que se mudou, em 2008, Beatriz ouviu de amigos que a empreitada estava fadada ao fracasso, já que a distância afugentaria os frequentadores. Quatro anos após sua instalação, ela não só provou que os agourentos estavam errados como não se arrepende da decisão. Segundo a marchande, o número de visitantes das exposições aumentou. "Fico encantada com uma galeria assim, onde eu posso entrar com um caminhão para montar as obras de arte", diz. A mudança para o Jardim Canadá pode parecer estranha, já que o bairro escolhido por Beatriz era visto por muitos belo-horizontinos apenas como passagem para o condomínio Retiro das Pedras. Mas ela não está sozinha. Com dezenas de ateliês, sede de grupos artísticos, casas de shows e restaurantes, a região agora é um destino para quem busca teatro, dança, artes plásticas e boa gastronomia.

Um dos primeiros artistas a vislumbrar o potencial do Jardim Canadá foi Rodrigo Quik, em 2002. Morador de um condomínio nos arredores, o bailarino viu, entre galpões e ruas ainda sem calçamento, o espaço perfeito para instalar a sede do grupo que mantém com a mulher, Letícia Carneiro. "Aqui era um local virgem, não tinha nada, só terra e armazéns vazios", conta. Hoje, a Quik Companhia de Dança possui cerca de 160 alunos, grande parte da própria região. Um resumo dessa nova cara pode ser encontrado no Capim Li­­mão. Espremida entre dois galpões, a casa ampla de decoração rústica reúne música, artes plásticas e comida de qualidade. O restaurante, de 150 lugares, é co­­mandado pelo casal Dulce e Fábio Cam­­pos, antigos proprietários do Café da Tra­­­­vessa, na Savassi. O cardápio contemporâneo tem influências das cozinhas francesa e italiana. Entre os pratos, destacam-se o joelho de porco feito em uma assadeira giratória (R$ 53,90) e o carré de cordeiro com molho de hortelã e capelete de damasco ao molho curry (R$ 56,90). Um pequeno palco recebe shows de blues, jazz e MPB. As paredes estão forradas de peças de artesanato e quadros. "Não sei nem quantos são, mas praticamente todos estão à venda", diz Dulce, enquanto observa uma pequena reforma para a instalação de um deque de madeira na entrada.

O crescimento do bairro impulsionou também o vizinho Vale do Sol, distante cerca de 1,5 quilômetro pela BR-040. Com perfil mais residencial, a área passou a receber restaurantes como DiVino, Bistrô da Matilda e Bodega 361. Também foi escolhida pelas companhias teatrais Suspensa e Armatrux para a instalação de uma sede compartilhada, que deve ficar pronta em 2015. Apesar de ainda estar em obras, o prédio já abriga atividades e artistas. "Queríamos mesmo fugir da cidade, do caos", afirma Paula Manata, coordenadora do Armatrux. Sua atuação na região a levou a fundar, junto de outros agentes culturais, um grupo de discussão batizado de Caminho das Artes. A ideia é criar um corredor cultural no eixo sul da Grande BH que comece em Macacos, passe pelos dois bairros e chegue ao Instituto Inhotim. Por enquanto, a iniciativa esbarra na falta de infraestrutura do lugar. "Temos de lutar por coisas básicas, como saneamento e asfalto", diz Paula. A rua onde ficam as sedes das companhias é de terra batida e os artistas sofrem quando chove. No Jardim Canadá, a situação é só um pouco melhor. Em vários trechos falta calçada para a circulação de pedestres. Mesmo tendo cerca de 3 milhões de metros quadrados, não existe ali sequer uma linha de ônibus interna.

Incorporadoras estão de olho no mo­­vimento. Há três anos no mesmo gal­­pão, o Jardim Canadá Centro de Arte e Tecnologia (JA.CA) se viu obrigado a mudar de imóvel após uma tentativa malsucedida de renegociar o aluguel. O projeto de residência artística que trouxe cerca de 100 pessoas do Brasil e do exterior para produzir arte no Jardim Canadá agora procura uma nova sede. "Pediram quatro vezes mais do que pagávamos, um valor irreal", conta a coordenadora Francisca Caporali. A nova casa deve ser anunciada em fevereiro e dois galpões no bairro estão sendo avaliados. "Não queremos sair, somos parte do lugar." Para José Alexandre Leão, presidente da Associação da Indústria e Comércio do Jardim Canadá, o movimento de transformação da região em um polo cultural é irreversível. "BH está saturada e não comporta novas iniciativas." Suas expectativas são otimistas. "Em cinco anos, isso aqui vai ser um SoHo mineiro, mas com personalidade própria", diz Rodrigo Quik, fazendo re­ferência ao bairro de Manhattan famoso pela efervescência cultural. "Só falta um cinema."

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE