Cidade

As lições de Seul

O prefeito da capital da Coreia do Sul, que é considerada exemplo de crescimento verde, dá sugestões para BH

Por: Cedê Silva - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)

Passeio no Centro: Park Won-soon posa ao lado das estátuas de duas glórias literárias mineiras (o poeta Carlos Drummond de Andrade e o memorialista Pedro Nava)

Da janela de sua suíte no 19º andar do hotel Othon, no Centro, o prefeito de Seul, Park Won-soon, tirou uma foto com o celular e a publicou para seus mais de 500 000 seguidores no Twitter. "Após quase trinta horas de viagem, cheguei a Belo Horizonte, Brasil", escreveu ele no domingo (17). Park era um dos 87 representantes de cidades dos cinco continentes que estiveram por aqui na semana passada para discutir exemplos de sustentabilidade. Ele participou do Congresso Mundial do Iclei, o conselho intergovernamental com sede na Alemanha que fornece consultoria sobre políticas públicas sustentáveis. Durante uma solenidade na sede da prefeitura, Park foi eleito presidente do Conselho Mundial de Prefeitos para Mudanças Climáticas, um reconhecimento pelo compromisso com ações municipais para promover o crescimento verde. Apesar de estar do outro lado do mundo, Seul tem lições a compartilhar com a capital mineira, disse a VEJA BH o prefeito coreano.

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(Foto: Redação VejaBH)

Embora seja considerada uma cidade rica (ela tem o quádruplo de moradores, mas um produto interno bruto correspondente a dez vezes o nosso), Seul enfrenta problemas muito semelhantes aos que ainda incomodam os belo-horizontinos. "Também tivemos de lidar com o trânsito e as áreas de pobreza", afirma Park. Um dos segredos é acreditar em investimentos iniciais caros que se pagam com o tempo. Entre os exemplos implementados pela capital coreana estão a colocação de luzes de LED em semáforos, a compra de ônibus elétricos e a incineração de lixo para gerar energia. "Antes, o lixo ia para um aterro", conta. Até 2020, a cidade terá de produzir 20% da energia que consome, com painéis solares e outras fontes alternativas. O novo prédio da prefeitura, com inauguração prevista para agosto, por exemplo, será energeticamente independente. Park acredita que iniciativas como essas serão capazes de evitar a construção de uma nova usina nuclear na Coreia do Sul.

O prefeito, claro, não quer só ensinar. Quer aprender com experiências testadas nas cidades brasileiras. De Curitiba, Seul copiou as faixas exclusivas para ônibus, que garantiram uma considerável melhora no trânsito. Em Belo Horizonte, Park rapidamente encontrou inspiração para um novo projeto. "Do meu quarto vi que vocês têm muitos espaços verdes", diz. "Em Seul necessitamos de mais parques." Ao passear pela capital mineira, o prefeito se convenceu de que precisa, rapidamente, cumprir uma promessa que fez na campanha eleitoral: plantar uma árvore para cada habitante. Ou seja, mais de 10 milhões.

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(Foto: Redação VejaBH)
Rio aberto

Em julho de 2003, a prefeitura de Seul começou a destruir 5,4 quilômetros de avenidas e viadutos que ficavam bem no centro da cidade. O objetivo era destampar o Rio Cheonggyecheon, que foi reaberto em 2005. A restauração custou o equivalente a 678 milhões de reais e é considerada um exemplo de renovação urbana. Ao longo das margens foram construídos parques e ciclovias. Com a redução do número de vias, a população foi obrigada a usar o sistema de transporte público para ir ao centro.

A circulação de carros na região caiu 18% e os imóveis se valorizaram. Belo Horizonte vai na contramão do modelo coreano, tampando cada vez mais o Ribeirão Arrudas, que corta cinco das nove regiões administrativas da capital.

Investimento em transporte público

Com 10,4 milhões de habitantes numa área de 605 quilômetros quadrados (apenas o dobro da de Belo Horizonte), Seul está entre as cidades com maior densidade populacional do mundo. No anos 90, para garantir a mobilidade urbana, expandiu agressivamente sua linha de metrô, que hoje tem 390 quilômetros. Também investiu em melhorias nos ônibus, implantando o bilhete único, as faixas exclusivas - um modelo copiado de Curitiba - e um eficiente sistema de informação nos pontos de embarque e desembarque. Agora, a prefeitura pretende que a frota de coletivos seja abastecida com gás natural, menos poluente que o diesel.

Energia renovável

Seul quer, até 2020, produzir 20% da energia que consome. Para isso, adotou políticas que estimulam a instalação de equipamentos como painéis de energia solar. Até o fim do ano, 200 escolas terão o sistema no telhado. Desde 2002, a prefeitura já gastou o equivalente a 70 milhões de reais para financiar o projeto de telhados verdes em 550 prédios comerciais e residenciais. Hoje já há 243 000 metros quadrados de grama nos tetos da cidade. As plantas, que absorvem água da chuva, também reduzem o risco de enchentes. Na capital mineira, temos poucos exemplos de iniciativas semelhantes, sempre feitas de modo particular, sem nenhum incentivo público.

Trabalho voluntário

Há dez anos, Seul sediou três jogos da Copa do Mundo, incluindo sua abertura. Segundo o prefeito Park Won-soon, o projeto mais importante na preparação, no entanto, não foi uma obra de infraestrutura, mas a mobilização dos moradores. Os "diabos vermelhos" - mais de 1 milhão de torcedores - trabalharam como voluntários em tarefas como o controle do fluxo de trânsito. Lá, como aqui, não faltaram críticas sobre os pesados investimentos em obras para o Mundial. Para o prefeito coreano, o evento será uma grande oportunidade para BH. "Sediar a Copa muda uma cidade."

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE