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Arnaldo Baptista comemora os quarenta anos do disco Lóki? com show em BH

O eterno mutante frequenta a capital e não dispensa uma volta pela Savassi

Por: João Renato Faria - Atualizado em

Arnaldo Baptista com o piano, na carreira-solo

Será que eu vou morrer de dor? (...)Será que eu vou virar bolor? (...) Onde é que está meu rock'n'roll?" As perguntas que Arnaldo Baptista fazia na abertura do disco Lóki?, de 1974, eram angustiantes. Ele havia deixado sua banda, Os Mutantes, e terminado o casamento com a cantora Rita Lee. Devastado, canalizou o sofrimento em inspiração e criou um dos álbuns mais importantes da história da música brasileira. No domingo (3), a partir das 19 horas, o público belo-horizontino poderá buscar no palco do Cine Theatro Brasil Vallourec as respostas para as questões de Arnaldo, que celebra os quarenta anos de sua obra-prima.

Apesar de ser um grande teatro, o espetáculo é intimista. Acompanhado apenas de seu piano de cauda, ele deverá executar algumas das faixas de Lóki?, mas evita revelar o nome das canções antecipadamente. "Eu resolvo o que vou tocar na hora, depende da minha conexão com a plateia", diz. "Mas vai ser legal, já que o público de Belo Horizonte é muito especial para mim, me recebe muito bem." A empatia da cidade com o mutante não é por acaso. Morador de um sítio em Juiz de Fora desde que sofreu uma queda do 3º andar de um hospital psiquiátrico nos anos 80, ele passou a frequentar a capital mineira, há cerca de dez anos. Quem o acompanha é a mulher, Lucinha Barbosa, que tem família por aqui. "Não há uma frequência certa, mas não ficamos um mês sem dar um pulo no nosso acampamento", afirma ela, referindo-se ao apartamento que o casal mantém na Savassi.

Arnaldo Baptista ao lado de Rita Lee e Sérgio Dias, nos Mutantes, nos anos 70

Caminhar pelo bairro, aliás, é uma das atividades preferidas do cantor. "Ando muito por lá, vou até a Praça da Liberdade. Acho tudo muito bonito", conta. Frequentemente, os passeios terminam no Cine Belas Artes, onde ele assiste a filmes de arte em cartaz. Em dias mais ousados, trafega pelo Centro. Quando procura sossego, visita a Praça do Papa e aprecia a vista da capital. Além disso, não dispensa uma ida ao Xapuri, restaurante de comida mineira na Pampulha. A opção pode parecer estranha, já que Arnaldo é vegetariano e não come torresmo, linguiça nem lombo. Mas ele conta com uma atenção especial da proprietária, Nelsa Trombino. "Eu faço para ele tutu, couve e quiabo", diz a chef. "Mas os preferidos são a porpeta de ricota e o espaguete com jiló frito e queijo", revela.

Nas escadas dos edifícios Sulamérica e Sudacap, no Centro: identificação com a cidade

Outro amigo na cidade é o guitarrista John Ulhôa, do Pato Fu. O músico produziu o último álbum de inéditas de Arnaldo Baptista, Let it Bed, lançado em 2004, e recebe visitas constantes dele no seu estúdio. "Nós nos encontramos sem combinar, ele vem de surpresa", afirma. Quando saem, John se surpreende com a popularidade do mutante entre os mais novos. "Vem falar com ele uma moçada bem nova, que estava longe de nascer quando Lóki? foi lançado." É esse público renovado que deve lotar o Cine Brasil para entoar em uníssono canções como Balada do Louco para mostrar que Arnaldo Baptista reencontrou seu rock, não morreu de dor e não, ele não virou bolor.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE