Crônica

Aventureiros

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Parece que, desta vez, é para valer: o primeiro pouso humano em Marte acontecerá ao redor de 2030. Estão recrutando aventureiros para a viagem. Choveu, é claro, candidato do mundo inteiro. Até de BH. Se todos os pretendentes embarcarem, serão necessárias centenas de astronaves. Provavelmente, haverá apenas bilhete de ida. Quem estiver a bordo cortará, para sempre, o vínculo com o nosso Planeta Azul. Em compensação, terá todas as incertezas do Planeta Vermelho: falta d'água, de ar, de verde, de mar. Passará a vida numa redoma.

É um aventureiro ou um desmiolado?

Ao longo da história, essa intrepidez ocorreu com frequência. A primeira, por exemplo, a partida do Homo sapiens da África para os demais continentes, levou nossa espécie ao domínio da Terra. Alguém alertou esses pioneiros que a migração era uma loucura, seguramente condenada ao fracasso, tantas as dificuldades que enfrentariam? Milênios mais tarde, alguns dos primeiros ocupantes da América do Sul atravessaram o Pacífico em barcos rudimentares, vindos de uma pequena ilha da Polinésia. Quantos meses no mar, sujeitos ao desconhecido, à fome, à sede e às tempestades, enfrentaram esses antepassados dos incas, povo que manteve na memória sua chegada através do oceano?

Há relativamente pouco tempo, os portugueses expandiram o mundinho europeu com suas navegações, a um alto preço: "Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!", escreveu, com razão, Fernando Pessoa.

Devido ao risco, teria alguém soprado a Pedro Álvares Cabral - sem razão, acredito - que sua viagem daria em nada?

Há menos tempo ainda, pouco mais de um século, vieram para o Brasil os italianos fazer a América, a grande aventura da época. Sabiam que poucos deles retornariam à Europa, viagem então cara e difícil. Teriam de suportar a dor da distância pelo resto dos dias.

Um parente meu, ao se instalar nas montanhas da Mantiqueira, no Sul de Minas Gerais, junto com um grupo de primos e amigos do Sul da Itália, em poucos meses se arrependeu da mudança, morto de saudade do Mediterrâneo, que banha sua cidade natal. Enlouqueceu. Para tentar curá-lo, levaram-no ao Rio de Janeiro. Acharam que a visão do Atlântico o amansaria, ao lhe devolver a esperança de voltar para casa. Nem bem chegou a Copacabana, o ensandecido avançou sobre as ondas e as bebeu com as mãos em concha, aos berros:

- Acqua santa benedetta, acqua santa benedetta!

Bebeu tanto e por tantos dias que, segundo a lenda, fez até o mar recuar. Ganhou uma barriga enorme e morreu intoxicado. Pois é. Saudade mata.

Imagino os colonizadores de Marte, lá pelo ano 2040, olhando a Terra, pálido ponto azul no céu. Inacessível. Sonho permanente de retorno. Com certeza terão saudade. Alguns ficarão loucos. Marte, porém, não tem mar para afogar a nostalgia. Comerão sua terra santa benedetta?

A aventura humana é, também, feita por esses valentes, cujos nomes, em geral, se perdem no tempo. Graças a sua loucura, estamos aqui hoje. Todos e cada um de nós.

Pensando neles, Fernando Pessoa escreveu: "Tudo vale a pena se a alma não é pequena".

De fato. Nenhuma alma é pequena, quando a sobrevivência humana entra em jogo. Um jogo que recomeça a cada dia.

Um jogo cujo resultado nunca se conhece.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE