Crônica

BH se despede de 2013

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Em Venda Nova, um senhor de cabelos brancos, sentado sozinho à frente do bar, em mesa e cadeira de metal, curte a garrafa de cerveja que derrama do alto sobre o copo lagoinha, para levantar bastante espuma. Não tem pressa. Bebe gole por gole, relaxando na manhã. Uma andorinha só não faz verão, mas um homem só faz.

Ali perto, na orla da Pampulha, as pessoas caminham, quase parando de tão devagar. Partilham conversas animadas, falam das festas acontecidas e por vir, traçam planos. Um cheiro de churrasco inunda o ar, alucina o estômago. O vendedor de coco ceva, de longe, os potenciais clientes. Num clube, duplas disputam uma lenta partida de tênis. O calor arrefece o ritmo.

Na entrada do Parque das Mangabeiras, meninos tentam derrubar as mangas que sobreviveram às pedradas anteriores. Mangueiras são as árvores de Natal da natureza. Seus enfeites, em vez de bolas, são as frutas, que têm uma beleza adicional: mudam de cor na estação, do verde para o amarelo. Mangueira toda amarela é o melhor presente para a infância. Derrubar uma fruta madura, mais que o sabor, possui o adocicado da vitória. Capturo esse sorriso de triunfo num garoto e, por instantes, recupero décadas de vida. Viajo ao dia em que, pela primeira vez, minha pontaria foi certeira.

Desço à Savassi a pé, observando o clima de despedida de 2013. Parece que as pessoas já não têm o que fazer, exceto poupar um restinho de energia para ver a iluminação da Praça da Liberdade e semear bem 2014, na hora do réveillon. Interessante a nossa cultura. De uma hora para outra, enterramos as frustrações e arrancamos a fórceps a esperança. Ano novo, vida nova. Nunca nos cansamos de repetir. E continuamos os mesmos.

Nas ruas Pernambuco, Tomé de Souza e Sergipe, volto à adolescência através do perfume das magnólias. Elas estavam presentes, bem cheirosas, quando uma garota sorriu para mim, provocando um turbilhão de fantasias. Um beijo no Cine Pathé selou o namorico de uma semana. Sinto saudade do cinema. Sua tela trouxe emoção a mim e a muitos belo-horizontinos. Tomara que volte a trazer. Promessa existe.

Paro numa cafeteria, peço um expresso curto. Sem açúcar. A tarde de fim de ano é o adoçante. Tomo a bebida com calma, estico a mansidão, a bem-aventurança de dezembro. Estou tão relaxado que quase durmo. Repito o expresso. A cafeína evitará a cochilada em público.

Ao voltar para casa, à noitinha, a grande surpresa. A rã de meu quintal está cantando. Delicada, parece um grilo. Some de fevereiro a dezembro, sai da toca com as chuvas. Ela é uma lição de sobrevivência. Habita uma área pequena, entre jasmins e azaleias, cantinho cercado por muros altos, não sei onde arruma comida, como bebe água. Exala ternura a cada vez que coaxa: ganhou mais um ano, precisa externar a alegria, e o faz sem restrição.

Examino 2013, meço as perspectivas para 2014, penso na rãzinha, em sua lição. Sim, há esperança. Esperança que divido com você, caro leitor.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE