Crônica

Escalada

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja
(Foto: Redação VejaBH)
Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)

A montanha me encarou, solene e insolente, monumento de rocha e gelo. São 6 100 metros de altitude. Mais que dois Picos da Neblina, um sobre o outro. Estremeci, perdi a coragem. O que fazia ali, prestes a desafiar o Huayna Potosí, o cume que pairava acima das nuvens? Pensei em assumir a covardia, descer para La Paz e voltar para casa. Um pedacinho de mim, no entanto, pediu para ir em frente. As montanhas sempre me atraíram. Por quê? Porque sim.

No Acampamento Base, a mais de 4 500 metros, almocei com dezenas de escaladores. Brasileiro, só eu. Em meu grupo, havia dois franceses, um espanhol, um alemão, um israelense e três guias bolivianos. Vinte suecos e noruegueses, mais experientes, subiriam por uma rota para profissionais. Oito americanos planejavam um bate-pronto, pois dois deles sofriam com o soroche, o mal das alturas. Ingleses e italianos pretendiam bater o recorde de tempo até o topo. A maioria daquela gente era mais jovem que meu filho caçula.

Uma nevasca caiu ao entardecer. Saí para curti-la, pois, se continuasse, a escalada seria cancelada. Saída honrosa. Descobri que Hans, o alemão, e Jacob, o israelense, também torciam pela neve. Menos mau. Meu temor tinha companhia.

A manhã chegou ensolarada, e o Huayna Potosí exibiu todo o seu feitiço, a brancura recortada contra o fundo azul. Minha atração pela montanha voltou, esqueci o medo, subi a encosta íngreme com entusiasmo. Ao alcançar o Rock Camp, 800 metros acima, nem percebi o cansaço, tamanha a beleza da paisagem. Os Andes mostravam as cores de suas rochas, a luz da tarde irisava os vales, lá embaixo as nuvens se tornavam rosadas. Chegar ali já valera a viagem. Tive uma alegria extra: uma pequena bandeira de Minas Gerais enfeitava o refeitório. Mais companhia.

À meia-noite, iniciamos o último assalto. Restavam apenas 700 metros, algo como três Serras do Curral empilhadas. Cada grupo partia com quinze minutos de defasagem. Lanternas brilhavam qual vaga-lumes preguiçosos ao longo da trilha. Custavam a se mover. As estrelas se multiplicaram, o triplo das visíveis em BH. Algumas riscaram o céu, chuva de prata. Eu ouvia apenas o som de minhas botas de ferro cravando no gelo, pé ante pé. Às vezes, parava para apreciar o silêncio, mas o coração passou a retumbar nos ouvidos. Dez graus abaixo de zero ao redor, 100 graus acima dentro de mim. Suor de encharcar. Pedro, um dos guias bolivianos, apontou várias fendas, com até 30 metros de profundidade, escondidas sob a neve recente. Uma queda, morte certa.

De repente, o cansaço. Arriei. Puxei o ar até encher os pulmões. Não bastou. Sensação de sufocamento. Quis desistir. Com calma, Pedro pediu que eu avançasse mais um pouco. Fui. Quando a resistência parecia terminada, o guia de novo me animou. Ao amanhecer, vi o Huayna logo à frente. Antes do cume, contudo, a parte mais difícil: o salto sobre um precipício com 300 metros de queda vertical. Tão esgotado estava que nem percebi o voo que dei no vazio.

A derradeira energia ficou para a comemoração. No Huayna Potosí, ao me encantar com o horizonte, de La Paz ao Lago Titicaca, acima de todos os picos da região, a euforia me contaminou. Atração, dificuldade, superação, conquista. Tudo isso, somado, resultou em algumas lágrimas. É preciso chegar lá em cima para entender como chorar pode ser gratificante.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE