Crônica

Escola pública

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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Antônio frequenta uma escola pública da periferia da capital. Aos 6 anos, conta, lê e soletra muito bem. Toda segunda-feira, escolhe quatro livros na biblioteca, com os quais, em geral, se encanta. Na sexta-feira, por escrito, entrega o resumo e o comentário de cada obra. A crítica é essencial, ressalta a professora. Ele gosta de dar sua opinião. Sente-se importante.

Antônio tem muitos "para casa", porém não os acha excessivos. É um garoto feliz. Tratam-no por Tony, mais fácil de pronunciar. Gostaria de ser Neymar, mas, no recreio, não leva jeito com a bola. Tropeça nas pernas, o chute é fraco. Por outro lado, seu nome encabeça a lista de destaque acadêmico. As professoras e os colegas o cumprimentam quando sai o resultado. Sua mãe se orgulha de seu desempenho. Afinal, ele está na escola para aprender as matérias, não para jogar futebol.

A disciplina em sala de aula é rigorosa. As crianças brincam, conversam e comentam, mas, quando se excedem, ouvem reprimendas. Contundentes, se necessário. Não existe tratamento de tia. Os alunos chamam as mestras pelo nome. Senhora Alice, senhorita Anne. Elas se valorizam. Sabem que o futuro do país depende de seu trabalho.

Tony chega à escola às oito e meia da manhã. Em ponto. Às oito e trinta e um, o portão é fechado. Os atrasados, ao tocar a campainha, recebem um olhar pouco amistoso da coordenadora. Ou, em caso de reincidência, um bilhete da diretora lhes lembrará da importância da pontualidade para a performance geral da escola.

A mãe de Tony o deixa dentro da sala e sai correndo para o trabalho de faxineira, no outro lado da cidade, onde inicia o serviço às nove. Para às quatro. Às quatro e meia, pega o filho, e vão para casa de metrô. Dentro do possível, ela o ajuda e orienta nas tarefas, o que vem se tornando difícil. Tony, cada dia mais esperto, logo a suplantará. O que a deixa feliz. Sonha ver o filho numa grande universidade. Sonha alto. Oxford ou Cambridge. Será árduo chegar lá. Para melhorar as chances do filho, compra dezenas de livros para ele, que adora dinossauros. Tony soletra seus nomes científicos, sabe a época em que viveram, onde, o que comiam. O Tyrannossaurus rex é seu preferido. Tem um na escrivaninha, que ele mesmo montou.

No Ano-Novo, Tony e a mãe viajaram para Recife, cidade natal de ambos. Ela se assustou com o baixo desempenho escolar dos sobrinhos e primos, embora mais velhos que seu filho. Tampouco gostou da pouca importância que dão à aprendizagem. Voltou para casa ainda mais segura de que a boa educação é o caminho mais curto para uma vida melhor.

O caso de Tony comprova que, sim, existe escola pública de qualidade. Pena que ele estude em Londres, onde vive desde bebê.

Alguém logo contestará este exemplo, argumentando que a Inglaterra é rica, do Primeiro Mundo, vive outra realidade, desculpas sob medida para encobrir nossa incompetência ou falta de interesse em realmente democratizar a educação. Para esses, esclareço: a educação pública básica inglesa, embora a anos-luz da nossa, não é, nem de longe, a melhor do planeta. Perde para a de muitos países, como o Vietnã, mais pobre que o Brasil. A melhor, no momento, é a da China, em Xangai, que também não é rica nem do Primeiro Mundo. Mas tem vontade política e reconhece o valor da educação para o crescimento pessoal e da nação. Quem quer faz. Quem não quer cria slogans.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE