Crônica

O ocaso de uma lady

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Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
Divulgação
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Ela já viveu dias melhores. Saía animada no inverno londrino, sem agasalho, debaixo de chuva ou sol, ávida por um passeio no parque ao lado de casa. Andava quilômetros sem se cansar, cumprimentava os amigos do bairro, reservava acenos discretos e papo rápido para os desconhecidos. Às vezes, corria pelo gramado para saudar um companheiro recém-chegado. Eu admirava sua capacidade de confraternização. Com todos, mantinha o porte e a postura de uma lady, elegante e discreta. Depois de minutos de atenção, seguia em frente, à procura de novos contatos. Esbanjava a pose nobre, com cabeça empinada e olhar atento a toda movimentação, senhora do mundo.

No parque, ao passar pelo lago dos cisnes, permitia-se um exercício mais agitado. Corria atrás das aves com disposição de criança — ela, que, havia muito, se tornara adulta. Certa vez, por causa de um bando de marrecos que fugia do calor do verão nas águas do Tâmisa, atirou-se no rio, nadou enquanto teve forças e só então descobriu a loucura que havia cometido. Pregou um susto em todos. Por momentos, achei que não mais alcançaria a margem. Ao sair, sacudiu-se e continuou o passeio como se nada tivesse ocorrido.

Hoje, sem ajuda, não desce a escada em frente ao prédio onde mora, nem sequer enxerga os degraus. Ficou diabética, toma insulina duas vezes por dia, a catarata a cegou, o coração já sofreu uma parada.

Mesmo com cuidado e carinho, seu fim não está longe. Fim de uma vida cheia de aventuras, que inclusive já renderam um livro que leva seu nome na capa.

Nasceu em Sabará, morou em Macacos, depois no Recife, foi para BH, seguiu para Londres, voltou a BH, agora vive seus derradeiros dias em Londres. Se fosse humana, teria quase 100 anos. Em sua idade canina, chegou aos 13: uma longa existência para uma cadelinha schnauzer. Pertence a uma de minhas filhas.

Estopa é seu nome, com sobrenome esquisito na certidão de nascença: von Schonenberg. Desenvolveu com minha família uma bela relação de afeto. Virou membro honorário que dedica a todos amizade incondicional. Quem tem bicho de estimação compreende o significado de minhas palavras. Amizade canina.

Sempre acreditei que os animais possuem linguagem e inteligência que ainda não entendemos, mas um dia desvendaremos. Estopa dá provas disso: sabe indicar se tem sede ou fome, se quer aconchego, traz a guia e a coleira na boca quando deseja sair, exala ternura nos momentos

de grande felicidade, abaixa os olhos na tristeza, orientou, durante anos, o caminho de sua amiga Pandora, também cega na velhice. Não se trata de instinto, conforme o paradigma atual. É algo mais, um caminho diferente na evolução das espécies.

Hoje, quando levei Estopa para um passeio, diante do vento frio e da garoa londrina, ela me encarou com jeito de que não queria me acompanhar. Freou o corpo com as patas e olhar suplicante. Voltamos para casa. Subiu a escada com dificuldade, parou no meio, descansou. Mirou-me outra vez, através das íris opacas. Devo ser apenas uma sombra. Ela também é uma sombra do que foi. No entanto, ao vencer os degraus e entrar no calor do prédio, empertigou-se, ergueu as orelhas, agitou o rabo e, por instantes, eu me lembrei de sua antiga vivacidade. O tempo é democrático, afeta todas as espécies. Ela, porém, continua uma lady. A velhice não lhe roubou a majestade.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE