Crônica

Papai Noel em Londres

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Durante muitos anos, critiquei o Papai Noel. O velhinho nada tem a ver com o Brasil. Foi implantado aqui no século XX, na marra, da mesma maneira que, no século XXI, estamos aprendendo a engolir o Halloween e a Black Friday. Para começar, esse gringo nos visita no verão. Como ele enfrenta nosso clima tropical? Com roupa de Polo Norte, isto é, de inverno na Lapônia, um lugar gelado que a maioria dos brasileiros nem sabe onde fica. Se você sair na rua, em dezembro, com aqueles trajes, vai desidratar-se em meia hora. Sem falar que, convenhamos, o modelito vermelho é horroroso. Mais kitsch, impossível. Cá entre nós, você o usaria para ir ao trabalho?

Minha crítica segue em frente. Como é a risada do Papai Noel? Ho, ho, ho, ho... Quem ri assim entre nós? Ninguém. Como ele viaja? Puxado por renas. Lanço um desafio: quem já enxergou uma, umazinha só, em BH? E o trenó dele, hein? Eu até gostaria de ver um andando pelo nosso asfalto lisinho como neve. Aposto que, ao trotar entre a Praça Sete e a Praça do Papa, as renas quebrariam as pernas nos buracos ou nos bueiros — e o trenó, no mínimo, capotaria.

Numa crônica, sugeri prender o Papai Noel na Lapônia e trazer suas renas para o Brasil, onde não sobreviveriam nem por uma semana, aniquiladas pelo calor. Assim, não penaríamos a desgastante correria de fim de ano, a obrigação de comprar presentes que ninguém usa, e poderíamos curtir o Natal pela alegria de reunir os parentes e os amigos. Pois bem, ou, melhor dizendo, pois mal. Recebi uma chuva de protestos dos leitores. Desancaram-me sem dó nem piedade. Pela reação, descobri que, para alguns adultos, o Papai Noel era gente de carne e osso e alguém poderia, de fato, ser preso. Até em casa me puxaram a orelha. Para uma de minhas filhas, as críticas que eu fazia roubavam o encantamento de muitas crianças, a começar por minhas netas e meu neto, todos fascinados com o gringo da Lapônia.

Em nome do bom relacionamento familiar, resolvi me penitenciar. Na hora de entregar os presentes no ano passado, quem se vestiu de Papai Noel? Eu. Arrumei o traje completo: gorro, roupa vermelha, barba postiça, óculos, cinto e um barrigão de travesseiro. Ao me ver aprontado, meu filho disse que eu estava ridículo e a meninada logo descobriria o disfarce. A expectativa acabaria em frustração.

Ele se enganou. Eu também paguei a língua. Os quatro netos e dois ami­­guinhos deles acreditaram que Papai Noel em pessoa os visitava na noite de Natal. Os seis me tocaram, abraçaram-me, beijaram-me com carinho, agradeceram pelos presentes, como se eu os tivesse providenciado um a um. Emocionei-me com seus olhares de sonho realizado. A fantasia virara realidade na mente das crianças. Eu, que, enquanto escritor, vivo de fomentar sonho e fantasia, não podia tirar delas aquele sonho e aquela fantasia que não nasciam nas palavras, mas no contato físico, na ternura, na encarnação do mito. Pouco importava que o mito fosse estrangeiro, lapão, russo ou sei lá de onde. A emoção daqueles olhinhos valia muito mais. A minha virou lágrima.

Neste dezembro, vim para Londres trazer sonho e fantasia para minha neta que mora aqui. No ano passado, era pequena demais para entender de Papai Noel. Espero que ela me dê de presente de Natal o mesmo olhar de seus primos em BH. Quero o olhar que revela o sonho, o olhar que se leva pela fantasia, o olhar que faz da vida uma experiência que semeia saudade a cada dia. É esse olhar que espero que você também encontre e tenha sempre por perto, caro leitor. Ele mantém acesa a esperança no mundo. Lá no fundo, bem lá dentro, ele gera a força que nos sustenta. Feliz Natal.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE