Crônica

Pensando em ET

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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Todo escritor tem um projeto secreto. Vou lhe revelar o meu, caro leitor. Mas que fique entre nós. Nós nos conhecemos, possuímos mútua confiança. Se as torcidas do Galo e do Cruzeiro descobrirem minha intimidade, perderei o sono e o sonho. Sem falar que me tacharão de louco. Façamos, então, um pacto. Meu segredo pelo seu silêncio. Vou em frente.

Meu projeto é descrever a espécie humana em detalhe, chegar às minúcias do comportamento, da emoção e da alma a partir de uma ótica isenta, distante, de observador externo. Acho que dá para perceber como é difícil meu objetivo. Não apenas pelos empecilhos da arte, da palavra, do talento, também pelos da ciência. Ora, argumentará você: o que tem a arte a ver com a ciência? Acontece que existe um terrível teorema, que sempre me rouba horas de sono, chamado Teorema da Incompletude. Foi demonstrado por um sujeito meio lelé, que, segundo a lenda, andava pela Universidade de Princeton de pijama, batendo papo com seu melhor amigo, um doido que mostrava a língua para os outros, não penteava o cabelo e inventou uma tal de Teoria da Relatividade. Note a coincidência. A Incompletude se dava bem com a Relatividade. Não é uma loucura?

Pois esse teorema, trocado em miúdo, prova que quem está dentro de um sistema jamais conseguirá descrevê-lo. Sempre faltará algo, um pedaço fatalmente ficará de fora. A totalidade é uma impossibilidade matemática. Isso me leva a considerações sobre a vida, sobre nossa eterna sensação de falta, porém deixemos isso de lado. A crônica viraria ensaio. Mas veja só as consequências. Graças a um teorema, existe a incapacidade de atleticanos ou cruzeirenses em explicar, com isenção, a atuação de seu time, ou a dos brasileiros em entender a orgia deste país. No fim do raciocínio está a impossibilidade de a humanidade se compreender em detalhe, o que detona toda e qualquer pretensão minha de escritor. Enquanto ser humano, posso extrair partes de nossa alma, nunca a alma integral. Complicado? Eu também acho, mas a matemática ligou um motor de Boeing em cima da minha farofa literária. Fui carregado junto.

Existe, no entanto, uma saída, uma salvação: o casamento da arte e da ciência. Para contornar a restrição do Teorema da Incompletude, preciso estar fora do sistema, isto é, da humanidade. Em outras palavras, devo pertencer a outro mundo. Sacou, caro leitor? Aqui vai, agora sim, o grande segredo. Para pôr a humanidade no papel, em minúcia, eu teria de virar ET. Só os ETs conseguem nos descrever sem o contágio do humano. Só eles alcançam nossos corações e mentes ao mesmo tempo. A incompletude existe deles para eles, não deles para nós.

Daí minhas constantes idas à Serra do Cipó, a São Tomé das Letras, a Machu Picchu. Busco contatos imediatos. Quem sabe uma dessas civilizações extragalácticas que nos visitam me abduziria e me transformaria em ET, experiência pela qual tantos alegam ter passado? Se alcançar essa graça - já fiz até promessa -, meu problema, enquanto escritor, estará resolvido e me sentirei realizado. Para chegar lá, no entanto, preciso contar com a sua colaboração, preservando meu segredo. O que vão pensar de mim se você espalhar por aí que quero virar ET em nome da arte? No mínimo, dirão que fiquei louco. Isso não, caro leitor. Isso não. Ainda não.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE