Crônica

Quem polui mais?

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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Ao andar pelas ruas de Belo Horizonte, sempre encontro montes de lixo, sobretudo na periferia. Alguns, resistentes, já fizeram aniversário. Outros, mais jovens, crescem como verrugas entre passeios e muros. Há os que ocupam lotes vagos e se espalham sobre os terrenos, qual metástase. Nem o Parque das Mangabeiras, em tese ponto de encontro com a natureza preservada, escapa de nossa ação predatória. Basta caminhar pelas suas ruas e trilhas para deparar com embalagens, da fralda ao marmitex. Em alguns pontos dos riachos, elas competem, em número, com as pedras e represam as águas. Contribuem para um futuro sujo. Um longo futuro sujo. Alguns materiais demoram séculos para se decompor. Seríamos cínicos a ponto de dizer que esse é, portanto, um problema que nossos tataranetos deverão resolver? Lavamos as mãos em nossa água suja?

Claro, nossa falta de conhecimento e o despreparo (evito incluir a falta de educação, no sentido amplo) para lidar com os dejetos são a causa primeira do tsunami de lixo que nos engolirá, caso não aprendamos a dispor corretamente dos descartes. Isso vale tanto para cidadãos quanto para governos. Ambos sempre possuem prioridades mais urgentes. Por exemplo, para quem acaba de beber um refrigerante é mais rápido jogar a garrafa PET na rua que lançá-la em local apropriado. Quem governa acha melhor investir num vistoso viaduto que na lata de lixo, pequena, barata, ignorada, com frequência depredada, que não traz visibilidade ao administrador público.

No entanto, além das pessoas e dos governos, há um vilão no círculo da poluição que se finge de morto, passa despercebido, diz que nada tem com isso. É a indústria, que produz ou usa as embalagens. Fabricantes de cervejas, chocolates, refrigerantes, batatas fritas, balas, chicletes, lanches, geladeiras, TVs, automóveis etc. etc., com o objetivo de vender cada vez mais, embrulham suas mercadorias com charme cada vez maior, cada vez mais sedutor, cada vez mais plastificado, cada vez mais resistente, sem se importar com a consequência do gesto. Pensam no lucro imediato. Se há problema, que o futuro o resolva. Para isso, pagam impostos hoje. Importa, agora, faturar mais, crescer, vencer a competição. O único compromisso é com o próprio bolso.

Costumamos pôr a culpa da sujeira apenas no consumidor, aquele que jogou o plástico e o papelão que envolviam os armários novos no terreno baldio, já que, por serem volumosos, o caminhão do lixo não os recolhe. Isso me lembra o tráfico de drogas. Já pensou se a lei prendesse apenas o usuário, deixando impune o fornecedor? A indústria do tabaco, por muito tempo livre, leve e solta, conheceu o outro lado de seus efeitos através de doentes e de indenizações milionárias. Trata-se de uma questão de lógica. Quem polui ou quem causa doença, por meio do negócio, do lucro, deve reparar os problemas que causa. O mesmo raciocínio prevalece para quem embala seus produtos com plástico, alumínio ou material que polui e danifica o ambiente, a curto ou longo prazo. Algum tipo de compensação deverá oferecer à sociedade. No mínimo, uma solução mais limpa e auxílio para remediar o mal já feito. Essa discussão será longa. Não tão longa, espero, a ponto de nos afogarmos, antes, no tsunami de lixo que armamos a médio prazo e nos afetará a todos, sem exceção. O tempo urge. Aliás, ruge.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE