Crônica

Revolução em casa

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Minha avó materna era um doce, consequência talvez dos tachos de goiabada que fazia, no verão, para o ano inteiro. Lembro-me, lá pelos 6 anos de idade, do saco de açúcar que desaparecia por milagre na massa vermelha de fruta em ebulição, enquanto bolhas dolorosas voavam por toda a cozinha. Durante décadas, vovó distribuiu a goiabada na festa de São Roque, encontro obrigatório de filhos, netos e conterrâneos na igreja de sua fazenda no Vale do Paraíba, em São Paulo, debaixo da Serra da Mantiqueira. Às vezes, apareciam 300 pessoas. Ela servia almoço a todos os peregrinos, seguido da famosa sobremesa. Uma pena que tenham roubado o santo, com mais de dois séculos de altar, o que acabou com a tradição e deixou a família sem seu membro mais venerado. A imagem já foi vista, ao mesmo tempo, no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Roma. A onipresença é outro dos milagres de São Roque. Ele, no entanto, jamais voltou para casa.

Vovó tinha olhos muito azuis e, mesmo aos 80 anos, poderosos. Certa vez me pediu para pegar uma tangerina no pomar que eu, com um décimo de sua idade, não consegui enxergar. Exalava, também, a ternura que a gente só descobre depois de viver muito, a ternura de descascar cana para o neto, ensinando-lhe como não se machucar com a faca. Ou mostrar-lhe a delícia de tirar leite no curral. Ou preparar o caqui para ressaltar o sabor e eliminar a cica. Ou identificar diversas espécies de pássaros. Coisas de avó que resgato através da saudade.

Ela estava no lugar errado durante a Revolução de 1932, isto é, morava junto à divisa de Minas Gerais com o Rio de Janeiro. Quando mineiros e cariocas invadiram São Paulo, tomaram a fazenda São Roque a bala, crentes de que ali haveria um reduto das forças paulistas. As marcas dos tiros foram mantidas por meu avô, que, confundido com o general Klinger, comandante militar, quase foi fuzilado. Sua família permaneceu refém por meses, sem poder usar os quartos, ocupados por oficiais mineiros. Seu rebanho se transformou em churrasco para as tropas. Suas vacas prenhes foram abatidas para arrancar os vitelinhos, servidos na ceia para os coronéis de BH. Seu estoque de café em grão abasteceu até soldados gaúchos. Só seu fervor constitucionalista permaneceu inalterado até morrer.

Tantos reveses deixaram em minha avó marcas mais dolorosas que as da goiabada quente. Ela não gostava de Getúlio Vargas, de cariocas nem de mineiros, sobretudo destes. Tachava-nos de ignorantes e violentos. Gente que não conseguia distinguir o pé direito do esquerdo, tanto que, ao marchar, amarrava um pedaço de palha de milho num dos dedões, a fim de manter a cadência correta. Em vez de "esquerda, direita", dizia "pé com palha, pé sem palha". Rancor profundo, para mim sem sentido tantas décadas depois do conflito.

Numa tarde em que ela estava muito ácida, eu protestei:

- Vovó, você fala tão mal dos mineiros e se esquece de que sou mineiro.

Ela me mirou sem perder a tranquilidade dos olhos, puxou minhas mãos e fuzilou:

- Não, Luís, você tem sangue paulista.

Essa lógica ilógica me impressionou, garoto de 10 anos. Há dores e rancores que resistem ao tempo. Mesmo o coração mais doce sucumbe a uma revolução dentro de casa.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE