Crônica

Seres imaginários

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)

Invejo quem já viu fantasma, assombração, lobisomem, poltergeist, ET. Em pleno século XXI, quantos milhões convivem com essas magníficas criaturas e recebem visitantes até de fora da galáxia? Há coisa mais extraordinária que uma assombração só para você, fazendo careta, ululando, arrastando corrente, sem medo do ridículo? Ou lobisomem uivando para a lua, no quintal do vizinho, depois da novela? Seria hilariante, não fosse trágico. Conheço marmanjos que não ficam sozinhos em casa. Fantasma sabe para quem aparece.

De minha parte, apesar de sonhar com contatos imediatos de terceiro, quarto e quinto graus, se chegarem a tantos, jamais encontrei uma almazinha penada, por menorzinha que fosse. Nada, nadinha, nem duende anão. Será que a ficção foge do ficcionista, pois um e outro não distinguem quem é quem?

Há alguns anos, um companheiro de caminhada apontou para mim, no alto da Serra da Mantiqueira, uma dama de branco. Quase morreu de pavor: ela anuncia a morte de quem a encontra. Por mais que me esforçasse, vi apenas capim se movendo ao sabor do vento — e o vidente continua vivo até hoje. Meses depois, um amigo trombou com a avó, falecida décadas antes, passeando num quarto de minha casa. Bateu papo com a velha, tentou me apresentar a ela, mas ou sou São Tomé em demasia ou ele havia bebido em excesso. Abracei a segunda hipótese. Na Inglaterra, para atrair os espíritos, fiquei num hotel mal-assombrado. Dormi tranquilo, acordei frustrado. Nem sinal do além.

E dos vampiros, o que dizer? Nenhum conhecido meu, que eu saiba, jamais deparou com dráculas em Belo Horizonte, mas vários acreditam neles, tanto que não perderam a saga Crepúsculo, vencedora do troféu de pior filme do ano. E os zumbis? Os cinemas acabam de soltá-los, em massa, mundo afora. Alguns deveriam ter atacado na Praça Sete, mas, até o momento, não se atreveram. Antes, zumbis só atuavam em filme B, agora aderiram ao blockbuster. Pensando bem, deu na mesma.

Não posso me esquecer da decepção com os discos voadores. Em São Tomé das Letras, quase me lincharam porque não notei uma dúzia de óvnis que imitava a Esquadrilha da Fumaça na madrugada fria. Todos os enxergaram, menos eu. Menos eu, que pena. Os extraterrestres aterrissaram na fama poucos quilômetros à frente, em Varginha. Por falar em ET, quantas pessoas já foram abduzidas? A cada dia novos relatos são divulgados. A mim, que passo horas olhando o céu, ouvindo estrelas, só me aparecem avião, meteoro e satélite.

Certa vez, apelei. Em busca de tanta maravilha solta por aí, fui para um sítio, longe de tudo e de todos. À meia-noite, apaguei as luzes e pus para tocar belíssimos cantos gregorianos para defuntos. Esperava convocar, no mínimo, um exército de seres do além. De novo, nem sinal. Sou ou não um cara sem sorte?

A realidade é insuficiente para nós. Não bastam os bichos, as árvores, o céu, o mar, as montanhas, o vento, as nuvens, os seres humanos, a amizade, o amor, a beleza do mundo e das pessoas. Queremos algo mais. Sempre mais. Quando a realidade não nos atende, nós a reinventamos. O desejo de fantasia justifica até a existência do escritor, criador de ficções. Isso me deixa em falta comigo mesmo, por jamais ter visto nenhum desses seres imaginários. Preciso eliminar essa lacuna com urgência. Sigo logo mais para Brasília à procura de um político honesto.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE