Crônica

Sonho

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
Veja
(Foto: Redação VejaBH)

Fazia uns vinte anos que eu não entrava naquela barbearia. Nada mudara. A mesma fachada de chapisco marrom, a mesma porta de enrolar, as mesmas três cadeiras com forro plástico vermelho, o espelho de fora a fora na parede. Até um dos barbeiros continuava o mesmo, com seu ar de quem trabalha pela alegria de um bom papo. Mantinha o velho tique de bater as lâminas da tesoura no ar, depois de cada tosada. Uma no cabelo, três no ar. Ele atendia outro freguês, cumprimentou-me, sem me reconhecer. O tempo parara por ali.

Sentei-me na cadeira do meio. À esquerda, o cliente falava do excesso de peso da humanidade sobre a superfície terrestre, temia o desabamento da crosta, jogando-nos todos no inferno do magma. Só um regime de fome evitará a implosão. À direita, a digressão focava a campanha presidencial, a quantidade de dinheiro que as empresas investiriam por baixo do pano em seus candidatos e como apresentariam a fatura mais tarde. O rapaz que me atendia abordou a seca e o El Niño, para ele o grande causador de tanta sede. El Niño, menino danado.

De repente, uma senhora com vassoura à mão surge na entrada, finge varrer o passeio, de olho no interior da barbearia. Não resiste, para o serviço e comenta bem alto: "O casamento do 5º andar acabou hoje. O rapaz foi embora com duas malas. Mas também, com aquela mulher que ele tinha...". As frases incendeiam o ambiente, as separações se tornam o assunto nas cadeiras a meu lado. Ora a culpa era dos homens, ora das companheiras, com nítida vantagem para elas. Quando a discussão ameaça amainar, a visitante dispara outra discórdia: "E a seleção do Dunga, hein?". Seguem-se quinze minutos de vadiagem verbal. Pobre Dunga. Nenhuma Branca de Neve o salvará.

Com o cabelo cortado, passei na loja de material elétrico, em busca de fita isolante. O dono saiu de seu canto para me receber, de braços abertos, perguntou sobre meus filhos, esticou o assunto para a carestia, mudou para o Atlético e o Cruzeiro, emendou com sugestões para minhas crônicas. Na despedida, tentou me segurar: "Estou lendo e gostando muito de um livro seu...". "Qual?", perguntei. Ele se esquecera. Bem, nenhum livro é perfeito.

Sigo rua acima. Num prédio, meninos jogam bola no campinho improvisado entre carros estacionados. Discutem se foi ou não gol. A decisão vai para os pênaltis. A verdade triunfará, segundo eles. Acreditam que quem estiver certo mandará a bola para o fundo da rede.

Continuo até a feira livre do bairro, marco de confiabilidade. Toda sexta ela está no mesmo lugar, faça sol ou sol neste ano sem chuva. O mundo pode entrar em guerra, ameaças atômicas podem pairar sobre o fim de semana, mas a feirinha acontece. Senhoras escolhem cada tomate, cada laranja, cada abobrinha antes de entregá-la ao vendedor para pesar. Tempus fugit? Nada disso. As freguesas dispõem de todas as horas para as compras. Nunca se furtam a comentários com o dono da banca, e receitas são a moeda de troca para esticar a manhã.

Penso que BH poderia ser sempre assim, uma cidade do interior com ares de capital, os habitantes entregues à arte de viver e deixar viver. Imagino quantos bairros ainda conseguem a magia de transformar minutos em horas, graças à capacidade de curtir cada segundo, sem pressa, sem se submeter a demandas artificiais, a vozes de comando que nada acrescentam. Sei que sonho. Mas os sonhos são a matéria-prima de que somos feitos.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE