Família

Mágica da adoção dá motivos para famílias celebrarem o Dia das Mães

Conheça histórias de belo-horizontinos que quebraram tabus, acolheram crianças abandonadas e deram a elas um lar

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

C om o violino bem apoiado no ombro, Helena (nome fictício), de 9 anos, treina uma de suas canções preferidas, no Conservatório de Música da UFMG: "Brilha, brilha, estrelinha / Quero ver você brilhar / Faz de conta que é só minha / Só para ti irei cantar". Seria uma homenagem à mãe, neste domingo de celebrações. Seria... Há três anos ela vive em um abrigo municipal à espera de uma nova família. "Não penso qual presente comprar, só penso em ter minha mãe para poder dar um presente qualquer", diz a integrante da Orquestra Infanto-juvenil do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). Inquieta e faladeira, a garotinha consegue arrancar sorrisos dos adultos e, à primeira vista, esconder sua triste trajetória. Como Helena, 600 crianças e adolescentes abandonados ou vítimas de maus-tratos moram hoje nos 43 alojamentos ligados à prefeitura. São meninos e meninas que, como ela, estão ansiosos pelo encontro que mudará suas vidas. Nem todos, porém, atendem às exigências da maioria dos candidatos a pais adotivos na cidade. Uma pesquisa da Vara Cível da Infância de Belo Horizonte, a pedido de VEJA BH, revela que poucas das pessoas já habilitadas - como são chamados os pretendentes aprovados - estão dispostas a aceitar crianças com mais de 4 anos, negras ou com algum problema de saúde (veja abaixo), justamente os perfis mais comuns nos orfanatos, segundo o Conselho Nacional de Justiça, órgão responsável pelo Cadastro Nacional de Adoção (uma lista com a relação das crianças disponíveis para adoção e dos candidatos a pais).

A conta não fecha. Em abril, 165 famílias belo-horizontinas estavam habilitadas a adotar, mais que o dobro do número de crianças e adolescentes prontos para ser acolhidos, após a Justiça esgotar todas as possibilidades de encontrar parentes que pudessem assumi-los, como prevê a lei. Dos 78 meninos e meninas nessa condição por aqui, 96% tinham mais de 6 anos e 92% eram classificados como negros ou pardos. "Ainda enfrentamos um problema cultural, que impõe restrições quanto a raça, sexo, idade e estado de saúde", afirma o desembargador Wagner Wilson Ferreira, superintendente da Coordenadoria da Infância e Juventude do TJMG. Para profissionais como ele, que buscam um final feliz para essas crianças, isso é frustrante. "Nosso trabalho é encontrar uma família que se adéque à criança e não o contrário." Os pretendentes estrangeiros são menos restritivos. Segundo o desembargador, 98 famílias de fora candidataram-se no ano passado a adotar uma criança em Belo Horizonte: 85 da Itália, oito da França, quatro da Espanha e uma dos Estados Unidos. Entre os processos abertos, 33 foram concluídos. "A maioria dos estrangeiros não se importa se são grupos de irmãos, crianças doentes ou com alguma deficiência", constata o desembargador.

Em todo o país, cerca de 5 500 crianças estão registradas no Cadastro Nacional de Adoção, que acaba de completar cinco anos e passará por um processo de readequação. O Instituto Brasileiro de Direito de Família (Ibdfam), com sede na capital, foi uma das entidades convocadas pelo Ministério da Justiça para participar da discussão. Segundo seu presidente, Rodrigo da Cunha, as regras atuais dificultam o processo e obrigam as crianças a ficar por muito tempo nos abrigos. "É preciso esgotar as possibilidades de acolhimento com todos os membros da família antes de autorizar a adoção, mas nem sempre os parentes são a melhor opção", afirma.

Enquanto novas regras não são anunciadas, grupos de apoio à adoção tentam derrubar tabus e contribuir para que existam cada vez mais histórias com final feliz, como as retratadas nesta reportagem. Por aqui, o mais atuante é o GAA-BH/Bem Querer. A advogada Maria José Monteiro, uma das coordenadoras, sabe bem como responder às dúvidas e aos conflitos naturais dos candidatos a pais adotivos. Ela mesma passou pela experiência há trinta anos, e hoje é mãe de uma bailarina com carreira internacional, também formada em psicologia, que a enche de orgulho. "Olhando para trás, só tenho um arrependimento", diz ela. "O de não ter adotado mais dois."

O que elas querem

As exigências das famílias de BH que estão no Cadastro Nacional de Adoção

Idade

85% querem crianças de até 4 anos

Sexo

48% não têm preferência

36% buscam meninas

16% querem meninos

Cor

30% branca ou parda

29% não têm preferência

25% branca

9% parda

5% parda ou negra

2% negra

Disponibilidade para receber irmãos

9% aceitam

91% não aceitam

Estado de saúde

Nenhuma aceita doenças físicas e mentais ou portadores de vírus HIV

38% aceitam doença tratável

62% fazem questão de criança saudável

Fonte: Vara Cível da Infância de BH

Laços de afeto

Nada de cegonha ou sementinha. "O celular da mamãe tocou e a moça falou: 'Junia, seu filhinho nasceu!'. Aí mamãe e papai foram correndo lá, e eu estava embrulhadinho de azul", conta o menino de 3 anos. Ele tem o verdadeiro início de sua história na ponta da língua. A bancária Junia Cristina Gomes sempre quis ter filhos. Depois de cinco anos de casada, ainda não tinha conseguido engravidar. Fez vários tratamentos, chorou muito e parou por aí. "A ficha caiu quando me perguntaram se eu queria uma barriga ou um filho." Ela e o marido, o projetista mecânico João Gabriel, resolveram adotar, e não pararam mais de sorrir. Além do menino, a família recebeu há nove meses uma menininha. "Exercer a maternidade e a paternidade é um laço de afeto, e não de sangue", afirma Junia, que neste ano tem motivo dobrado para comemorar.

"Foi meu filho que me adotou"

Depois de um sofrido tratamento, a engenheira Raquel Tuyama engravidou de trigêmeos, mas perdeu os filhos, nascidos prematuramente. Superada a dor, ela e o marido, o pediatra Adalberto Godinho, decidiram-se pela adoção. Um ano e meio depois, receberam o telefonema que mudou completamente a vida deles. Os dois conheceram o filho ainda vestido com a roupa da maternidade, poucas horas depois de nascer. No álbum do bebê, as únicas fotos que faltam são as do parto. Da primeira mamadeira à última visita de parentes, todos os momentos especiais de seus 11 meses estão registrados ali. "Adotar não é um ato de coragem ou de caridade dos pais, como muitos costumam dizer", afirma Raquel. "Pelo contrário. Foi meu filho que me adotou como mãe."

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

O xodó do parquinho

Quando ainda era criança, a presidente do Instituto do Bem, Luciana de Paula, insistia para que seus pais adotassem o menino que lavava carros na porta de casa. Não conseguiu convencê-los, mas cresceu com a certeza de que a adoção seria sua primeira opção, antes mesmo de tentar um filho biológico. Não escolheu sexo, idade ou raça. Nove meses depois de ser incluída no Cadastro Nacional de Adoção, recebeu um bebê de 42 centímetros, 2 quilos e um largo sorriso. Segundo ela, um dos medos de quem adota é que o filho seja vítima de preconceito. "No nosso caso, todo mundo nota na hora que ele é adotado, o que é ótimo, pois não fica clima de segredo e enfraquece o tabu", diz. Ela e o marido, o publicitário Ivan Cândido, adoram ir ao parquinho do bairro Cidade Nova. O filho deles é o xodó do lugar.

"Ele é a minha mãe"

O almoço do Dia das Mães será animado na casa de Edvaldo Zerlin. Neste domingo, o administrador também receberá os cumprimentos. "Ele é minha mãe e meu pai. A minha avó é a minha segunda mãe", explica seu filho, de 9 anos. Fã da novela Carrossel, do programa Supernanny e do filme Detona Ralph, o menino encontrou em Zerlin um amigo para todas as horas. "Eu dou o café da manhã, espero a van da escola, vou às reuniões de pais, levo ao cinema, ao parque... Tudo mudou, mas para muito melhor", conta o pai, que o adotou há três anos, depois de um longo processo pela guarda definitiva. "As pessoas deveriam considerar crianças maiores. Elas não têm ideia do afeto que podem receber", afirma. Orgulhoso, o garoto fala da mais nova "pessoa" de sua família. "É a Lola, uma cachorrinha que conhecemos na feira de adoção."

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)
Inseparáveis

A professora da UFMG Cíntia Lourenço não podia ter filhos e não queria fazer tratamento com receio de engravidar de trigêmeos. Depois que terminou o seu doutorado, deu início ao processo de adoção. E não foi restritiva: aceitaria dois irmãos, de qualquer idade, raça e sexo. Um ano depois foi chamada para adotar dois meninos de uma família de quatro irmãos. Um casal ficaria com as duas outras crianças. No meio do caminho, uma surpresa. A menina havia sido devolvida e estava de novo abandonada. "Eu não podia deixar essa história terminar triste assim, e acabei ficando com os três", lembra. Hoje, com filhos de 6, 8 e 11 anos, a rotina na casa dos Lourenço não é nada calma, mas é divertida. Os três estão sempre juntos. "Daqui eu não saio, daqui ninguém me tira", diz a irmã mais velha.

Ela até teve leite

A administradora Flávia Ribeiro Batista e o dentista José Guilherne Pace comemoraram três anos de casados numa noite e, na manhã seguinte, ganharam de presente a notícia de que o filho estava esperando por eles no abrigo. "Quando cheguei lá, eu chorava e ele gargalhava. Disseram que eu estava levando o bebê mais alegre dali", lembra a mãe, com lágrimas nos olhos. Foi tanta emoção que Flávia começou a ter leite. "Pude amamentar meu filho", conta. A moça sempre considerou acolher uma criança, inspirada no exemplo da avó, que adotou sua mãe. O processo de adoção do menino, hoje com 7 meses, durou cerca de um ano e meio. Toda a documentação está guardada para que ele possa vê-la no futuro. "O amor não nasce no sangue, mas no coração. As pessoas têm de me lembrar que ele não veio da minha barriga."

A espera por um filho

Confira o passo a passo do processo de adoção

1 Buscar orientação em grupos de apoio como o GAA-BH/Bem Querer, que atende pelo ☎ 8338-0733.

2 Comparecer ao Juizado da Infância e da Juventude, na Avenida Olegário Maciel, 600, térreo, Centro.

3 Preencher um requerimento de habilitação à adoção. É preciso levar uma foto 3x4, além de cópias autenticadas dos seguintes documentos: certidão de nascimento ou casamento, identidade, CPF, comprovante de residência e de renda, atestados de sanidade física e mental, certidão de antecedentes criminais e certidão negativa de distribuição cível.

4 Participar de curso de preparação promovido pelo Juizado da Infância e Juventude. São realizados dois encontros por mês, com psicólogo, assistente social, promotor de Justiça e técnicos de abrigos.

5 Esperar pela visita técnica domiciliar. O objetivo é conferir as condições do pretendente à adoção e a infraestrutura da região.

6 Ser entrevistado pelos especialistas que farão o estudo psicológico e social de toda a família.

7 Aguardar o parecer do Ministério Público e a decisão do juiz da comarca. Se a sentença for positiva, é feita a inclusão do pretendente no Cadastro Nacional de Adoção.

8 Ficar preparado para o contato do juizado, que informará sobre a disponibilidade de criança no perfil solicitado e marcará um encontro.

9 Passar por um período de convivência supervisionada antes de conseguir a guarda provisória.

10 Fazer o pedido definitivo da adoção e aguardar o posicionamento do Ministério Público e a sentença do juiz, etapa final do processo que oficializa os pretendentes como os novos pais da criança.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE