Crônica

Marinheiros de primeira viagem

Por: Luís Giffoni - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

O casal entrou no avião com cara de "e agora?". Ele, camisa estampada aberta no peito, carregava na mão direita um pedaço de papel que examinava por instantes, voltava-se para o teto, para os assentos, para mim, parecia pedir socorro, tornava ao papel, não se decidia. Na outra mão, segurava um saquinho de lanchonete já molhado de gordura. Ela, com bustiê de tecido brilhante e minissaia justa num corpo que faria a alegria de Fernando Botero, hesitava em avançar pelo corredor com um guia tão vacilante. Pelo jeito de andar, usava salto muito alto. Aparentavam ter quase 40 anos. Receoso, ele me perguntou:

— O 3D é aqui?

— Sim.

Dirigiu-se à mulher:

— Marjorie, o 3D é aqui. Então o 3E também.

— Zé Carlos, já disse que quero o banco da beirada. Se o avião cair, saio mais rápido.

Sentaram-se a meu lado. Ela não usava apenas salto alto, mas um verdadeiro arranha-céu sob os pés. Ele guardou a embalagem de sanduíche nas costas da cadeira da frente. Pelo cheiro, hambúrguer e batata frita. Não sei por quê, justificou-se:

— Me falaram que essa companhia aérea só serve refri e biscoito. Se o voo atrasar, a Marjorie, minha mulher, não vai passar fome. Melhor prevenir. Ela está grávida.

— Daqui de Confins a São Paulo só demora uma hora — ponderei.

— Nunca se sabe.

Ele reclinou o assento, respirou fundo, com alívio, ela se manteve ereta, dura, agarrada à sua bolsa vermelha.

— O senhor vai sempre a São Paulo? — ele indagou, com um sorriso.

— De vez em quando.

— Já teve problema com o avião?

— Nunca. Espero nunca ter.

— Ah, que bom.

— Ah, que bom — ecoou Marjorie. — Estou morrendo de medo.

Não resisti à curiosidade:

— É o primeiro voo de vocês?

— Como o senhor sabe? — espantou-se José Carlos.

— Não sei, por isso perguntei.

— É, sim. Vamos fazer compras na Rua 25 de Março. Enxoval do bebê. Ir de avião não está tão caro, paga-se em cinco vezes e ainda se viaja nas nuvens. Vai ser bom para a asma da Marjorie.

— Acho que vocês deveriam afivelar os cintos de segurança.

— Que cintos?

— Estão sentados em cima deles.

Todos nós, em alguma época, em algum lugar, a respeito de alguma coisa, fomos ou seremos marinheiros (ou aeronautas) de primeira viagem. O mundo nos parecerá estranho em determinadas situações, em outras não saberemos como agir, ocasionalmente pagaremos mico. Através da experiência e do erro avançamos, adquirimos traquejo e desenvoltura. Não apenas no campo pessoal. A humanidade como um todo enfrenta esse processo. Não conhecemos, hoje, as consequências de nossos gestos e decisões sobre as futuras gerações, o que provavelmente estará sendo discutido na Rio+40. Sim, inferimos, imaginamos, levantamos hipóteses, porém nem sempre consideramos as possibilidades nefastas e em geral decolamos no escuro. A vida é, ao mesmo tempo, o primeiro ensaio e o dia da estreia.

Idêntico raciocínio se aplica ao Brasil. Com sua maior projeção internacional, nós, neófitos, embarcaremos em voos às cegas, assumiremos riscos atualmente impensáveis. Países desafiados tentarão nos derrubar, cortarão nossas asas, levarão a bússola, entupirão o tubo Pitot, nos deixarão sem teto. Nas panes, faltará quem nos mostre o cinto de segurança. Pior ainda: às vezes não haverá cinto de segurança.

Em qualquer canto do mundo, em qualquer tempo, existirão marinheiros de primeira viagem. Ainda bem. Eles fazem a história. Como fazem história hoje Marjorie e José Carlos, que, quase aos 40 anos, pela primeira vez entraram num avião e, com orgulho, me contaram ao aterrissarmos em São Paulo que Luana tinha voado antes de nascer.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE